DB: Que percepção grandiosa. Peço licença para compartilhar algo. Certa vez passei por uma experiência de encarar um acidente de perto, e ficar diante da morte, e pensei “o que estou fazendo da minha vida? Estou perdendo tempo com coisas, mestrado, vida acadêmica, elas valem a pena?”. Quando Matheus disse isso eu o entendo, mas creio que a sabedoria está em transitar os mundos. Se uma pessoa faz um doutorado para seguir a carreira acadêmica, pra ser um professor, por exemplo, ele deve dançar essa música, - sem se vender ao sistema, - tendo a clareza de sua percepção da vida! Então, se por um lado o doutorado não tem sentido, por outro tem, pois além de buscarmos uma forma de ‘sustento’ e trabalho, nele encontramos um meio para disseminar nossas visões de mundo e influenciar pessoas, realizar-nos. Além disso, assim como em uma viagem psiconáutica, ao estar num acidente você também vislumbra que o corpo não é tanto, porque dentre as possibilidades de acidente existe a de morrer, então você vislumbra que a vida é mais do que isso!
EF: Sim, essas experiências têm paralelos. Naquele momento do acidente, você limpou instantaneamente seu coração de toda a idiotice que te cerca, e viu o que importa, acontece isso comumente também durante uma experiência com enteógeno, como a que tivemos. A diferença é que mesmo muitas coisas que parecem importantes e que você focaria ao ver um acidente, também perderão o sentido. Eu disse a Matheus: - A vida "ordinária" pode ser mágica, ela é algo simples, e como artistas, precisamos de canais para difundir o que fazemos.
E no fundo, a frustração de Matheus foi a percepção da dificuldade de mudar o mundo que está tão longe do que experienciamos. Mas Matheus, como eu, é um revolucionário do espírito humano. E como todo revolucionário da alma, temos crises de ascetismo. Quando desejamos deixar tudo e irmos pra montanha. Eu tive a coragem de misturar tudo, e eu não tenho medo de falar dessas experiências na academia, pago alto preço por isso: sou tachado de louco, naif, hippie, inocente, e blá, blá, blá. Mas cumpro certas regras necessárias ao túnel de realidade acadêmico e com isso mantenho-me no meio e com a liberdade devida.
DB: Sim, quantas vezes já quis abandonar tudo... Você disse que “uma experiência assim pode ser perigosa para aqueles que tiverem um coração duro, maldoso, ou frustrado”. Gostaria de aproveitar essa deixa para falarmos sobre o “ego”. Penso que uma viagem assim, - para a maior parte das pessoas que convive com sentimentos como ciúmes, raiva e complexos, - seria muito forte. Pois, se por um lado, uma visão do cosmos poderia mostrar o quão ridículo é nutrir estes tipos de sentimentos, por outro, penso que para aqueles que não estejam preparados, poderiam ver crescerem seus demônios interiores. Talvez, a percepção da experiência fique prejudicada por interferência do ego. Ao invés de transcender, a pessoa pode ficar mais aterrorizada? Porque o ego nos machuca tanto?
EF: Porque acreditamos que somos o EGO, essa percepção de individualidade, de unicidade, diferenciação. O ego é o que acreditamos que somos, o fantasma que criamos para nós mesmos. Silenciar o ego é complicado. Como você vai silenciar/matar aquilo que ACREDITA SER VOCÊ, aparentemente é um suicídio. Você não quer, você quer continuar sendo o que acredita ser. Mas quando você tem experiências transcendentes, você percebe que simplesmente o ego é uma fotografia desbotada que mostra um ângulo seu apenas, e você é HOLOGRÁFICO, você é multidimensional, e o tamanho e complexidade dessas múltiplas dimensões é o tamanho do Universo! Mas não é nada fácil. Meu ego está aqui, convivo com ele, e se sofro ainda é só por causa dele. Tenho aprendido lentamente a minimizá-lo, a torná-lo o que ele é, só uma parcela mínima de meu ser, de minha complexidade cósmica. O final da jornada será fazê-lo apagar-se, mas não tenho pressa, sou um aprendiz. Quanto a você, terá uma boa viagem psiconáutica ainda. Você tem um bom coração. Vai doer, vai ser impactante, mas será mágico. Por isso quando chegar o momento: MERGULHE!
DB: E agora, como se sente? Ainda há vestígio da substância em você agindo? E o sabor é como? Amargo, doce?
EF: Os cogumelos foram ingeridos misturados ao suco de uva, absorção bem rápida, em 15 minutos já começou o efeito. Cogumelos desidratados e batidos com suco no liquidificador. Bem, ficou com o gosto de SUCO DE UVA! (risos). O etnobotânico Terence Mackenna dizia poeticamente que os esporos do Psilocybe Cubensis são criaturas de outra galáxia, seres extraterrestres que vieram para nos contar histórias do cosmos! Uma bela imagem poética do cogumelo! Hoje me sinto bem, o efeito da substância passou, mas o efeito que ela causou no meu self não, é PROFUNDO DEMAIS! Estou ainda altamente impactado, sentindo-me estranho, mas alegre e sereno. Estou me sentindo leve e pesado agora, totalmente PARADOXAL, mas é isso. Sinto-me nesse instante como uma pluma e como um saco com toneladas de chumbo!
DB: Como é isso?
EF: Vou tentar expressar, mas certamente será um arremedo. Meu coração está leve, pois vi que todos os complexos e besteiras que acho que fazem parte de mim, não são nada, ele viu mais uma vez que o LOBO É O COSMOS! E ele teve certeza disso, está leve, dançando entre as galáxias que vislumbrei ontem. Mas certos paradigmas anteriores que estão mortos com a experiência são difíceis de deixar ir embora, sinto ainda o peso deles, uma melancolia estranha por estar deixando-os ir embora, livrando-me deles, esse é o peso. Por isso sou leve como uma pluma e pesado como um fardo de chumbo! Sinto até uma "leve dor de cabeça".
DB: Então esse Edgar que estou conversando hoje não é o mesmo de ontem?
EF: Sinceramente, não sei! Eu estou aqui, pareço ser o mesmo. E as atividades triviais como digitar no computador, estar nesse estúdio aqui agora parecem induzir certa normalidade que retorna à noção de percepção ordinária. Isso é uma espécie de vício uterino: a nossa percepção ordinária. Achar que enxergamos a realidade. Por isso uma experiência impactante como a de ontem, com um enteógeno coloca-nos totalmente em xeque em relação à realidade, ou ao que acreditamos ser a realidade.
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(Ciberpajé fotografado pela I Sacerdotisa Rose Franco)
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DB: Depois de tudo que você viveu nessa viagem, como conseguir manter a visão do todo e dos detalhes, sempre, sem cair nesse vício ordinário?
EF: Eu já experimentei algumas formas poderosas de deslocamento dessa percepção ordinária, cada uma tem sua estrutura e causa aberturas diferentes, a magia sexual é um jogo poderoso de energias, pulsão criativa e equilíbrio interno. A psilocibina é uma implosão de todas as realidades internas, você continua ali, mas toda e qualquer verdade se dilui no instante. Se você acumulava verdades, elas vão implodir e se você tentar sustentá-las poderá sofrer e será fatídico, acredito que venha daí a chamada bad trip. McKenna dizia que o Cogumelo é um formatador da consciência, você a limpa de todas as sujeiras e vírus ordinários, você começa de novo, de certa maneira. Se você se entrega de verdade à experiência, certamente renasce, não é o mesmo, você muda. Mas a mudança pode doer muito, pois ao acordar, o ego ainda está ali e ele vai querer continuar a impor suas noções de realidade e verdade, mesmo depois de vê-las dilaceradas pela experiência transcendente.
DB: Esse choro que você relatou, imagino que não seja nem 1% do que você deve ter sentido, mas achei a "descrição" parecida com o que sinto várias vezes quando provo na pele as ilusões do ego se esvaírem. A dor da mudança. Conte-nos mais dessa dor e desse choro profundo seu.
EF: Sim, perfeito. Foi um choro por isso mesmo, de perceber minha grande inocência, petulância, pois por mais humildade que eu tente cultivar, ainda guardo milhares de pseudo-verdades e pequenos dogmas em meu íntimo. Vê-los desmoronar é doloroso, dá medo, gera tristeza. É difícil explicar, mas você se torna o centro focal do Cosmos e vive eventos de proporções universais naquele momento. Quando eu chorei, a princípio era meu ego, depois fui sumindo e no final eu chorava e ria de êxtase, era como uma explosão mágica, dolorida e maravilhosa. Você se sente um estranho e depois se sente bem por ser esse estranho, diverte-se com isso, de se entregar. Eu tento praticar essa entrega no meu dia a dia, deixar a coisa ser o que “é”, mas não é nada fácil, com a psilocibina isso se torna mais efetivo.
Durante a experiência eu não resisto. Ontem, quando comecei a sentir a implosão de algo que pode parecer idiota: do que eu entendia como plantas, eu resisti um pouco - meu ego no princípio quis dizer racionalmente: - O coqueiro não fala com você, é um alucinógeno agindo no seu cérebro, você está pirado. Minha mente racional disse o que todos os "cientistas” dirão. Então o choro veio no início por resistir a isso, por MEDO! Medo de ver que toda a realidade sobre plantas que eu acreditava conhecer era lixo, lixo puro!
DB: Você disse que a linguagem é limitada para expressar suas visões e o que sente nessas viagens. Você já sentiu essa limitação antes, ao criar suas HQs, desenhos, músicas? A “limitação da linguagem artística” para expressar seu sentir ficou mais comprometida sob o efeito do cogumelo? Fale-nos um pouco dessas percepções.
EF: Sim, o artista deve ser condescendente consigo mesmo, deve se amar. Ou sofrerá muito, a transposição das imagens cósmicas que vislumbro em meus transes artísticos para o papel é sempre um arremedo, nunca tem a força daquilo que imaginei, e nunca terá. Mas esse é o preço pago por qualquer linguagem, a simplificação da complexidade cósmica. Por isso sou muito amoroso comigo mesmo, aprendi a lidar com essa questão de transposição das imagens transcendentes para minha arte e saber que a arte é só uma linguagem, só uma forma falha de tentar captar a realidade. Ela pode ajudar, e acredito na sua capacidade para despertar as pessoas de seu sono do ego. Mas o avançar, além disso, dependerá delas. Eu amo minha arte, eu amo o que faço, eu aceito minhas limitações, por isso me amo. Gostaria de ressaltar que essa entrevista contigo é algo MUITO IMPORTANTE, pois ela captura minhas percepções gerais da experiência ainda sob seu forte impacto!
DB: Agora gostaria de saber como foi a criação do primeiro HQforismo psiconáutico!! (HQforismo é um tipo de HQ criado por Franco, o neologismo foi conceituado por Franco e Danielle Barros, que significa: histórias em quadrinhos + aforismos).
EF: Vamos lá! Danielle Barros - a IV Sacerdotisa (você!) - aceitou a proposta de escrever um poema e me enviar para eu criar uma arte inspirada nele durante a experiência com oCubensis. Danielle enviou o texto poético que eu não li e imprimi em uma folha sulfite e dobrei em quatro partes e deixei junto ao meu material de desenho do lado do colchão no chão. Decidi que iniciaria a tentativa de desenhar durante a experiência com esse exercício criativo.
Cerca de 30 minutos depois de o enteógeno fazer efeito, eu já estava tendo visões incríveis. Algo muito marcante foi uma imagem de um pássaro, uma pombinha/rolinha enorme, com uma mistura de docilidade e inocência. Essa imagem marcou-me muito, a vi na paisagem esverdeada do quintal, ela ficava de perfil para mim e levantava as asas com graça, de repente ela tornou-se uma espécie de leão alado, ou melhor, um felino alado. Nessa hora decidi que tentaria desenhar, virei-me para o lado e peguei a folha dobrada com o seu poema/aforismo.
Quando a abri foi um choque! Antes de ler o texto impresso, ela brilhava com muita intensidade, cheguei a cerrar os olhos, tamanha era a luz que vinha do texto. Foi incrível, a poesia estava luminosa, saia LUZ dela, muita luz, até franzi os olhos, quase me cegou! Depois de um minuto observando-a sem decodificar o escrito, eu o li e me emocionei, tive uma sensação boa, forte.
Eis o poema:
"Ao mergulharmos em nossa unidade holográfica,
vislumbramos que somos parte do todo univérsico,
Poderoso e integral.
Nessa visão mágica e única,
Macho e fêmea reinam unidos e inteiros, e compreendem que são Deuses."
(Danielle Barros)
Síntese de muitos dos meus pensamentos e aforismos, o escrito mexeu fortemente comigo. Respirei fundo e peguei a prancheta com uma folha e o pincel. Senti a conexão com a autora dos versos e desenhei uma linha cortando quase que a folha ao meio. O pincel não respondeu bem, a minha perícia estava obviamente prejudicada pela intensidade da viagem transcendente. Ainda desenhei com esforço a cabeça da pomba, figura feminina que tinha visto antes na parte de baixo da folha. Então deixei o pincel e peguei lápis de cor alaranjado e tracei algumas linhas circulares. Troquei para o lápis cor-de-rosa, essas cores brilhavam muito e me “chamaram” para usá-las. Fiz muitos traços com essa cor e deixei-a para pegar a caneta nanquim de ponta fina. Surgiu a imagem de algo que agora me parece um feto, na parte inferior junto da cabeça da pomba e um falo ereto e um peixe na parte superior. Peguei novamente o lápis alaranjado e fiz alguns detalhes. A luminosidade fosforescente do amarelo “chamou-me” e conclui o desenho com ele. Na verdade tive que parar, pois a folha começou a ficar transparente e apareciam imagens por trás dela, era impossível continuar. Dei o trabalho por encerrado, deixei papel, prancheta e lápis ao lado do colchão e voltei novamente meu olhar para o quintal, mergulhando na experiência. Esse foi o primeiro exercício, feito antes da HQ com Matheus Moura, que foi criada por volta das 17h30min, e também antes dos dois HQforismos, que desenhei ao final, ainda com o efeito da substância mais já com domínio melhor de meu traço. Olhando agora para o desenho, vejo que ficou interessante, criando uma conexão curiosa com o poema (Figura 4).

Figura 4 – Arte de Edgar Franco para HQforismo em parceria com Danielle Barros.
DB: Achei interessante você dizer que saiu uma luz ofuscante do papel, pois quando escrevi a poesia, imaginei muita luz. O desenho tem muita leveza, é cheio de cores, vi tudo o que você viu (o falo, o peixe, o feto, a pomba), e ainda uma borboleta de perfil e a metade de um coração em torno da pomba. Extremamente simbólico! Um honra poder ter sido parte desta experiência com você. Já que entramos no assunto dos HQforismos, nos conte como os outros surgiram e como foi o processo criativo?
EF: Depois da experiência reveladora e assustadora com o coqueiro do jardim, voltei para dentro de casa, Matheus continuava na rede. Peguei a câmera fotográfica e fui para o jardim fotografar o coqueiro, tentar capturar um ínfimo das imagens poderosas que vi, da força das marcas de seu tronco que revelavam sua vida grandiosa. A chuva parou, tirei as fotos ainda sob forte emoção, lágrimas escorriam no meu rosto. Voltei novamente para dentro. Tive o impulso de desenhar algo, peguei a caneta nanquim de ponta fina, o papel e deixei a mão livre seguir o papel, o resultado gráfico foi bom, eu já estava dominando melhor a perícia manual do desenho e saiu um HQforismo, mais uma vez unindo os opostos complementares. Com um curto texto: "Atados ao todo! Todos". Terminei o HQforismo e deite-me no colchão, uma música do Anathema, muito emotiva tocava no som.
A lembrança da experiência com o coqueiro se misturava a imagens vibrantes que via no teto da área de serviço. Comecei a chorar novamente, um choro de êxtase, há anos não chorava tanto. Foi nessa hora que minha esposa, Rose, chegou. Eram 20h00min. Ela me pegou chorando e se assustou. Ao vê-la senti uma emoção muito boa e chorei mais ainda. Tentei explicar o que aconteceu e falei do coqueiro, mas percebi que ela não entendeu nada, mas abraçou-me com carinho. Não entendendo as palavras, mas entendendo meu sentimento. Rose ficou por uns minutos abraçada a mim. Matheus sentou-se na rede e começamos a conversar sobre tudo. O efeito da substância ainda estava ali, mas já menor. Rose foi preparar nosso jantar.
Tive o impulso de pegar o papel de novo e desenhei um HQforismo que gostei muito, ainda sentia o papel brilhar e certas gotas que aparecem no desenho, como lágrimas invertidas, surgiram brilhando no papel e me FIZERAM desenhá-las! O HQforismo destaca um ser animal mítico misterioso, com algo de lagarto, pássaro, humano e planta. Eu gostei muito do resultado visual e poético desse HQforismo. E ao olhar para ele me emociono, pois ele parece me trazer aquele momento e as sensações que eu sentia com força. Tem um sentido profundo para mim. Foi o único trabalho que eu assinei. Os outros, o desenho feito para o texto de Danielle Barros, a HQ com Matheus Moura e o primeiro HQforismo, não tinha assinado. Nesse eu assinei: Edgar Franco & o Esporo. Esse último HQforismo desenhado durante a experiência teve o texto: "Sou o sonho do som de um sonho". Depois de desenhá-lo, Matheus Moura o viu, e continuamos a conversar sobre muitos aspectos de nossa viajem psiconáutica e terminamos comendo um jantar preparado por Rose com patês orgânicos e pães integrais, além de alguns vegetais. No jantar ainda sentia os alimentos com um sabor especial, e até me deitar meus sentidos ainda estavam apurados. (Figura 5).

Figura 5 – Foto do último HQforismo criado por Edgar Franco durante a experiência.
DB: Para finalizar (temporariamente) essa entrevista-conversa, gostaria de perguntar algo que pensei quando reli aquele aforismo que abre esta entrevista. Ao final do aforismo você pergunta, aflitivamente: “quem sou eu?” Essa experiência de alguma forma diluiu ou afetou a ideia que você tem de si, e sua visão de Lobo? Em outras palavras: você escreveria um aforismo sobre quem é você logo depois dessa experiência, uma vez que você vez ou outra escreve sobre sua senda, pensamentos e visão de mundo? Você ainda arriscaria descrever-se, depois de toda essa experiência?
EF: Cada vez que adentro mais o meu mistério através de múltiplas experiências, observo que a percepção de Rajneesh sobre “a verdade existir nos paradoxos” é algo muito poderoso. Em certa medida o drama cósmico é cheio de paradoxos e contrários, o equilíbrio depende do choque dessas partes aparentemente opostas.
Escuridão e luz tornaram-se paradoxais para os dogmas que pregam a negação da sombra do ser em detrimento de uma luz absoluta, uma bondade sem precedentes. E o final disso é sempre doença e perversão, todos os dogmas criam doentes espirituais, pois obrigam a negarmos aspectos de nosso ser. Ao viver a experiência, eu revi o LOBO, ele estava ali, ele apareceu em imagens inclusive, o seu impacto simbólica para mim: o selvagem que deseja com força, mas controla o desejo à sua vontade, o que é violento e justo, mas nunca cruel. Essa é a essência do LOBO que assumi para mim, ela está aqui, e eu a vislumbrei. Mas durante a viagem psiconáutica, o LOBO se diluiu em inúmeras outras esferas, tornou-se claramente o que ele é: um aspecto ínfimo da complexidade de meu ser que se choca com outros aspectos paradoxais. Eu senti em um momento certa compaixão tão profunda, tão visceral, que ela me assustou e foi uma compaixão estranha, pois ela se misturava com admiração e êxtase, isso aconteceu quando experienciei em mim a vida do coqueiro do jardim, quando ele falou comigo, quando sua hiperestrutura cósmica cruzou e interconectou-se ao meu eu interior e eu tornei-me o “Coqueiro” de meu jardim e vivi o drama cósmico dele, a saga universal que ele vive. A beleza incomensurável de seu crescimento enfrentando as intempéries, a força dos ventos, as agressões físicas dos animais, incluindo o homem. E ele continua imponente, tem orgulho de ser o que é e de estar ali em silêncio representando o grande drama cósmico da vida, gerando frutos.

Quando eu vi em minha alma sua luta, como ela tem sido muito mais difícil e árdua do que a minha, a princípio eu me compadeci, tive pena, mas continuei ali adentrando os seus mistérios. De repente senti uma admiração profunda e veio o choro, um choro paradoxal, de compaixão e admiração, de perceber como fui privilegiado pelo universo, como tenho uma bela vida, mais serena do que a dele.
Mas ao mesmo tempo eu vi que eu também sou o coqueiro (Figura 6), mais um paradoxo, eu percebendo meu ego individual, mas olhando para ele e sendo o coqueiro, e depois fui tocado por uma planta que me falou que eu, meu ego, nunca tinha olhado para ela. Mas ela não falou isso com tristeza, ela só me avisou que existia, sorrindo, e eu chorei mais ainda, chorei com a força de uma tempestade, pois chovia, minhas lágrimas se misturava com a chuva. Como indivíduo imaginei quantos seres devo ter ignorado, sem notar que são partes de mim.
Senti uma emoção muito profunda e no meu choro, enquanto indivíduo, pedi perdão a todos os seres cósmicos que eventualmente ignorei. Reconciliei-me com eles. E recebi uma resposta, como se fosse uma grande carícia universal. Senti um toque que de repente fez meu corpo flutuar, em breves instantes eu me vi no ar ao lado do coqueiro. Estava flutuando de verdade e chorei mais ainda, violentamente, mas dessa vez um choro de êxtase, de liberdade, de sentir-me totalmente acolhido pelo COSMOS! O universo que sou eu teve compaixão infinita pelo meu pequeno ego, parte ínfima de minha grandeza! Então quando digo que O LOBO É O COSMOS, sim ele é; mas perceba que o LOBO em síntese é o Cosmos, pois apesar de ser uma das facetas do Cosmos, ele também contém em si todo o Cosmos, mesmo que eventualmente ignore isso. Então na verdade eu não SEI QUEM EU SOU. SÓ SEI QUE SOU.
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Figura 6 – Foto do Coqueiro feita por Edgar Franco durante a experiência.
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DB: LINDO! Queria ter estado aí! Observando vocês durante a viagem, anotando tudo, descrevendo o que vocês faziam, pois você relata suas percepções, já pensou em confrontar com anotações de um observador externo? Precisando de uma ajuda, estou aqui! Agradeço imensamente a honra de te conhecer um pouco mais, pela coragem e generosidade em expor suas experiências de vida e de viajante psiconáutico a todos/as os/as leitores/as!
EF: Eu que agradeço a oportunidade de dividir contigo e com os que se interessarem essa experiência tão valiosa. Sim, a idéia de um observador externo é excelente, me fez lembrar os experimentos de Aldous Huxley com a mescalina, vamos conversar sobre isso. Abraço afetuoso do Ciberpajé.