quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Termo HQtrônicas, de pesquisa pioneira do Ciberpajé, circula também em livros didáticos

A revisora Helô Beraldo, amiga do Ciberpajé Edgar Franco, estava fazendo a editoração de um livro didático e encontrou uma citação ao conceito de HQtrônicas
O Ciberpajé ficou entusiasmado ao perceber essa difusão do conceito nas escolas. O seu livro "HQtrônicas: Do Suporte Papel à Rede Internet" (Editora Annablume, 2004, com segunda edição em 2008) já foi citado em mais de 100 trabalhos acadêmicos, entre doutorados, mestrados e TCCs, isso sem contar artigos e livros. Um dos papéis dos pesquisadores em novas mídias é o de detectar esses fenômenos intermidiáticos, e nesse sentido a pesquisa pioneira de Edgar Franco foi relevante e continua atual. O livro didático em questão é uma obra de Simone Poiani, voltado ao 6º ano e chama-se "Português: Uma Língua Brasileira" da Editora Leya Brasil.

(Foto com o trecho da citação, por Helô Beraldo)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Confira a resenha de Retrogênese escrita por Giovani Coelho de Souza (Inominável Ser) publicada em site especializado em quadrinhos

Por Inominável Ser (Giovani Coelho de Souza)
Inomináveis Saudações a todos vós, Mestres e Servos do Santuário!
Para falar de Retrogênese, roteirizada por Edgar Franco e ilustrada por Al Greco, uma obra em quadrinhos poética-filosófica, é necessário filosoficamente poetizar em uma livre interpretação, fora de qualquer academicismo monótono ou racionalizante matematização categórica de seus significados. Lançado pela Editora Reverso em 2014, a obra contém ilustrações que dominam uma página inteira e são narrativas visuais por elas mesmas. Ao final, Edgar Franco fala do processo criativo da mesma, dando precisas informações sobre o que realmente é o Gênero dos Quadrinhos Poético-Filosóficos, do qual, aqui no Brasil, ele é um dos maiores representantes.
Como dito acima, a obra é de livre interpretação, não sendo algo rigidamente conceitual e preso a um padrão estilístico que possa enquadrá-la em termos minimizantes. Primando pelo Novo, é recomendável a todos os buscadores de sentidos diretos e indiretos no campo da Nona Arte. E cantar canções assim, lendo obras-primas como Retrogênese, é já uma Cósmica Viagem…
Em tudo há uma canção que gloriosamente entoa todas as maravilhas do Ser. E o toque básico e complexo, finito e infinito, profundo e além de toda profundidade, que envolve os percalços do âmago de cada Ser. Ao alvorecer de toda vida, as existenciais melodias alcançam tons que ao Ser movem na marcha evolutiva.
Do Ovo Cósmico, advém O Essencial.
No Essencial, encontra-se O Verbal.
O Ser, inicialmente, conjuga o Verbo de sua consciência nas descobertas do Novo dentro daquilo que ele julga reconhecer como sua fundamental realidade. Cada momento do iniciar da marcha é uma nota mínima e máxima do Kosmos, o Ser prontamente torna-se ouvinte Deste e de suas Outras Vozes. Estas, no entanto, não guiam a retas estradas ou a paraísos monótonos.
É preciso descer ao Abismo.
No Abismo, pode-se compreender o Macro e o Microcósmico.
O Ser encontra um igual, um Outro que é o reflexo de si mesmo, recebendo um convite para descer e aprender sobre O Todo e O Nada nas regiões mais densas da Criação. A densidade é a do espírito caminhante sobre todas as águas da Cósmica Realidade; a densidade é a da mente absorvendo as visões de todo campo da Cósmica Paragem; a densidade é a do corpo que se torna perceptível e aberto ao excêntrico toque da Cósmica Verdade.
O Cósmico Caminho, no entanto, é mais do que isso.
O Cósmico Caminho é muito mais do que nós compreendemos como um Caminho.
O Tempo/Espaço faz com que a lembrança do Apenas Início perca-se abaixo da Cósmica Areia do Cósmico Deserto. O Ontem não mais existe; O Hoje é o distante momento de maior perdição; O Amanhã é um desconhecido sem voz, sem rosto, sem nenhuma canção. Os instrumentos da Cósmica Canção estão distantes, torna-se necessário ouvir uma Nova Canção…
E O Ser ouve…
E O Ser compreende…
E O Ser explora-a…
E O Ser toca-a…
No Abismo, O Ser encontra a Cósmica Verdade, tão nítida no Início como na dimensionalidade de cada elementar perspectiva da Eternidade. A atração, a evolutiva chamada, a ânsia pela Integração, a identificação com O Eterno, O Infinito, O Expansivo Crescimento Da Cósmica Obra…
Um é A Resposta.
Um Com A Cósmica Chamada.
Um, sendo uma Grande Cósmica Canção.
Um, no Retorno ao Cósmico Berço Original.
Capa interna de Retrogênese, com arte de Edgar Franco
SOBRE OS AUTORES
Edgar Franco é Ciberpajé, artista transmídia, quadrinhista premiado com o troféu Bigorna 2009, pós-doutor em Arte e Tecnociência pela UnB, doutor em Artes pela USP, mestre em multimeios pela UNICAMP, professor do programa de doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Autor dos livros HQtrônicas: Do Suporte Papel à Rede Internet (Annablume/Fapesp, 2008) e Histórias em Quadrinhos e Arquitetura (Marca de Fantasia, 2012), seu álbum BioCyberDrama Saga – parceria com Mozart Couto (Editora UFG) – foi indicado ao Troféu HQMIX 2014 de melhor edição especial nacional. E-mail: oidicius@gmail.com
Al Greco é arquiteto e urbanista pela UFU, tatuador e quadrinista que colaborou com várias publicações independentes na segunda metade da década de 1990.
Serviço:
Retrogênese
Roteiro: Edgar Franco – Desenhos: Al Greco Editora Reverso / Novembro de 2014 / 36 páginas / Formato 21×28 cm Papel couchê 115mg / P/B / Capa em alta gramatura.
Capa de Retrogênese (Roteiro Edgar Franco; Arte Al Greco)
NOTA: O autor da resenha ainda compilou trechos da obra em que o Ciberpajé discorre sobre os quadrinhos Poéticos Filosóficos e o processo criativo de Retrogênese. Confira a resenha na íntegra no link de Santuário

Inominável Ser com Retrogênese e outros zines em mãos.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Resenha de Retrogênese para o Jornal Folha da Região - de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro

Colapso Cultural!
Resenha – Álbum em quadrinhos Retrogênese: Roteiro de Edgar Franco e desenhos de Al Greco
por Anésio Azevedo Costa Neto*
Passando de mero entretenimento para as massas, na primeira metade do século XX, a um meio efetivamente legítimo de expressão, as histórias em quadrinhos (HQs) vêm conquistando cada vez mais, a passos largos e firmes, seu devido respeito no panteão das artes visuais. No cenário brasileiro, alguns quadrinistas (e por que não “artistas”?) despontam como precursores de estilos de desenhos e roteiros que muito acrescentam ao legado deixado pelos grandes mestres além mar, como Will Eisner, Garth Ennis & Steve Dillon e Allan Moore. Dentre os exemplos brasileiros, gostaria de destacar os artistas e pesquisadores de um gênero de HQ inteiramente nacional, denominado Poético-filosófico, que têm em Edgar Franco e Gazy Andraus seus precursores. Já no cenário editorial recente, posso destacar o trabalho impecável de Guilherme Silveira e Matheus Moura, realizado sob sua  nova editora, a Reverso. O cenário de produção atual é, portanto, profícuo e extenso, e tentar abarcar todo ele demandaria um trabalho homérico. No entanto, gostaria de me debruçar sobre um trabalho recém-publicado pela editora Reverso, Retrogênese (2014), cujo roteiro é de Edgar Franco, o Ciberpajé, e os desenhos do artista Al Greco.
Arte exclusiva e dedicatória na capa do exemplar do álbum em quadrinhos "Retrogênese" do amigo Anésio Azevedo Costa Neto feita pelo Ciberpajé

Muito têm se falado sobre o trabalho multimídia do Ciberpajé Edgar Franco: HQs, performances musicais, desenhos e vídeos, mas pouco se fala sobre a pessoa de Edgar. Conheço ele há 10 anos, mais ou menos, e durante esse período pude conviver não só com ele, mas com toda sua família. No mundo contemporâneo, onde as raízes das pessoas são podadas à todo custo pelo valor das falsas aparências, o que vemos pode ser facilmente tomado como verdadeiro. Mas, no caso de pessoas honestas e sinceras consigo mesmas, essas mesmas raízes projetam os meandros do abismo que se reflete em nós. Esse é o caso de Edgar. Todo seu trabalho constela e unifica sua personalidade a ponto de passarmos a conhecer um pouco mais de sua essência em suas obras. Não toda, mas partes importantes e de grande significado.
Em sua obra anterior, BioCyberDrama Saga, percebemos o ímpeto da interface homem/máquina/Natureza sem que essa relação interceda um sujeito determinado. Ou melhor: nota-se a completa dissolução de conceitos humanistas não só pelo mergulho tecnológico do homem na natureza, mas, em tese, pela vontade de ser Natureza. A obra, ao seu fim, nos traz um ser que engendra em si esse princípio e que de modo algum parece se distrair com as bordas limítrofes de nosso entendimento sobre o homem, a Natureza ou o Cosmos. Os limites ficaram pra trás, na tentativa de resistir ao que o homem é e sempre será: uma linha, entre o animal e o além-de-si-mesmo, que não é compreendido conforme nossas leis do intelecto, mas, sim, de acordo com regras cósmicas. Será o “Pós-humano”?
Devaneios à parte, é necessário dizer que ninguém melhor do que o próprio Franco para criar suas HQs – do roteiro à arte final. Mas será mesmo? Assim eu pensava até me deparar com os desenhos feitos por Mozart Couto para o álbum BioCyberDrama Saga. Não quero me delongar muito nos méritos de Couto, mas deve-se dizer que ele chegou a produzir para diversas editoras do eixo Rio-São Paulo recebendo, em 1986, o Prêmio Angelo Agostini de melhor desenhista da Associação de Quadrinistas e Cartunistas de São Paulo. Em 1993, entrou no mercado norte-americano colaborando em revistas das editoras Marvel Comics, DC Comics, Acclaim Comics, Dark Horse Comics e Image Comics, desenhando conhecidos personagens como Mulher Maravilha, Thor, Hulk e Elektra. Até aí, eu, impressionado com os desenhos de Couto, acreditei que, sim, poderia haver alguém que entende visualmente a mente-conceito de Edgar Franco. Mais ninguém, talvez?

Página interna de Retrogênese ilustrada por Al Greco

Conforme dito acima, Retrogênese, álbum mais recente de Franco, é ilustrado por um desenhista mineiro chamado Al Greco. Eu já o conhecia “por ouvir falar”, haja vista sua fama como tatuador em Uberlândia. No entanto, não conhecia seus desenhos. Me surpreendeu ver que a arte de Al Greco fusiona-se ao estilo de Franco: o caráter experimental de ambos os artistas conflui numa grande, prazerosa e harmoniosa obra de arte. No caso do traço de Greco, notei certa alusão aos próprios desenhos de Franco, mais, talvez, pela busca de um diálogo conceitual com os trabalhos deste. No entanto, Al Greco é muito mais na HQ do que mero “ilustrador”: o traçado se firma enquanto busca de fusão do sujeito a algo maior do que si, como podemos notar na primeira parte do álbum, “Surgir ou nascer”. A compreensão visual do roteiro de Franco eleva a história a uma jornada épica do ser que, em busca do verdadeiro eu, não tem medo de se atirar nas fissuras de si (segunda parte, “O chamado do abismo”).
O contraste entre o claro e o escuro acentua a exploração visual do espaço representado e nos faz divagar na imensidão de um universo criado para a aurora de uma nova (pós-)Humanidade. Al Greco não é um “mero ilustrador”, ele é algo mais, é o elemento de experimentação de Franco elevado à máxima potência, é a dissolução das formas do mundo – formas essas interpostas pelo Ego – necessárias e inerentes à qualquer viagem psiconauta em busca da elevação espiritual.
Definitivamente, a publicação dessa dupla se firma como uma das mais proeminentes obras artísticas de 2014. O único ponto negativo nessa história toda é o número de páginas: 36. Gostaria de ver um outro álbum épico de Edgar Franco desenhado por Al Greco. Fica a dica para os artistas.


O Mestre em Artes Anésio Neto com seu exemplar de Retrogênese em mãos com arte exclusiva do Ciberpajé na capa.
*Anésio Azevedo Costa Neto é Mestre em Artes pela UnB, graduado em filosofia pela UFU, professor da FTM/Ituiutaba, MG e escreve para o Jornal Folha da Região de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro - onde esta matéria será publicada.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Resenha de livros sobre a obra do Ciberpajé na revista portuguesa "BD JORNAL".

Foi publicada, na revista portuguesa BD JORNAL # 30, uma detalhada resenha sobre os 3 primeiros livros da coleção "Quadrinhos Poético-filosóficos", publicados pela editora brasileira Marca de Fantasia. Os dois primeiros livros da coleção: "Os Quadrinhos Poético Filosóficos de Edgar Franco" e " Edgar Franco e Suas Criaturas no Banquete de Platão", escritos respectivamente pelo Dr. Elydio dos Santos Neto e pela Dra. Nadja Carvalho, tratam da vida e obra do Ciberpajé Edgar Franco. O terceiro livro analisado na resenha foi "Os Quadrinhos Poético-filosóficos de Gazy Andraus", também de autoria do saudoso Dr. Elydio dos Santos Neto. A sensível resenha foi escrita pelo crítico de quadrinhos, filósofo, mestre e doutor em ciências sociais, Edgar Indalecio Smaniotto. Na mesma revista Smaniotto também publicou uma instigante resenha sobre todos os números da revista em quadrinhos "Camiño Di Rato", que conta com HQs do Ciberpajé Edgar Franco em todas as edições.

Capa da revista BD JORNAL #30:

Abaixo um fac-símile da resenha, os livros citados nela podem ser adquiridos no site da editora Marca de Fantasia.





terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Confira vídeo do projeto de Extensão do Mestrado UEL com depoimento do Ciberpajé sobre Imagem e HQ

O projeto "Múltiplos Olhares" é uma iniciativa do Programa de Mestrado em Comunicação da UEL, que consiste em uma série de vídeos sobre diversos temas em Comunicação e Artes Visuais.
Nesta edição #6 conta com a participação do prof Dr. Edgar Franco, onde ele fala sobre Imagem, Histórias em Quadrinhos, hibridizações multimídias e outras questões instigantes.

Confira o vídeo aqui



Vox Vampyrica entrevista o Ciberpajé!

Neste Vox Vampyrica de 21.08.2013 Lord A:. entrevista Edgar Franco (do Posthuman Tantra que em suas performances tem o grupo formado pelo Ciberpajé Edgar Franco (musicista e performer), I Sacerdotisa Rose Franco (musicista e performer), Luiz Fers (Performer e Figurinista) e Lucas Dal Berto (VJ). Em entrevista com o premiado artista, quadrinhista e pós-doutor em artes, nesta pauta é abordada a questão do pós-humano e ainda do trans-humano, bem como o lançamento da obra Biocyberdrama escrita por Edgar e ilustrada por Mozart Couto. Na parte musical o programa tem a participação do Dj e músico Alex Strunz (Vector Comander)
Criado pelo multimidia Lord A:.. o Vox Vampyrica começou ainda em 2006 como um podcast caseiro e pioneiro dedicado a produção cultural VAMP e ao Darkwave e vertentes, com o tempo e a crescente e fiel legião de fãs foi se profissionalizando e se tornando um programa semanal tradicionalmente transmitido nas noites de quarta no site oficial e pela webradio ACIDIC INFEKTION. 
Fonte: ACIDIC INFEKTION.


Imagem do site Acidic Infektion

Confira esta instigante entrevista acessando o podcast, você pode baixar também!
CLIQUE AQUI --> VOX VAMPYRICA

domingo, 11 de janeiro de 2015

FICÇÃO CIENTÍFICA, DISTOPIAS, UTOPIAS E O FILME "DE VOLTA PARA O FUTURO 2" - Entrevista ao Ciberpajé Edgar Franco para o jornal O Hoje


Entrevista do jornalista José Guilherme Abrão ao Ciberpajé Edgar Franco, para o jornal O Hoje, de Goiânia.

01 - "De Volta para o Futuro 2" é mais um filme de comédia do que um sci-fi, mas podemos dizer que a representação do futuro dele traz algum significado para a sociedade de 1989 e também para a de hoje?

Edgar Franco (EF) - A ficção científica (FC) é um gênero muito subestimado na cultura ocidental, considerado algo menor pelos intelectuais acadêmicos e fruto das manifestações rasas da cultura pop. Infelizmente esse é um erro grosseiro. A narrativa de FC tem potenciais ilimitados e possibilidades muito singulares, uma delas é esse caráter antecipatório que provém das especulações com possíveis avanços tecnocientíficos. "De Volta para o Futuro 2" é um belo exemplo desse caráter antecipatório, e nesse sentido foi uma produção significativa.

Imagem do Filme De Volta para o Futuro - Universal Pictures

02 - Tecnologicamente, muita coisa vista no filme nós já temos hoje em dia, como reconhecimento por voz e toque, televisão fina e de tela plana, tablets e outras a caminho, como próteses cibernéticas e biocombustível. Muito disso no filme é tratado como coisa dos Jetsons, fora da realidade. É estranho que ao menos parte dessa tecnologia hoje seja real? Como o sci-fi faz isso, de prever tecnologia?

EF - Quando falamos de FC antecipatória, não percebemos que a FC não só prevê, na verdade ela INSPIRA os criadores. Muitos criadores desses novos aparatos tecnológicos são confessos fãs de FC, e com certeza se sentiram instigados a criarem seus novos gadgets tecnológicos inspirados pelas narrativas de FC que tanto admiram. Por outro lado, um verdadeiro artista, um criador, funciona como  "antena da raça", conseguindo antecipar consequências, antes das causas. O comunicólogo canadense McLuhan percebeu e mapeou esse fenômeno.


03 - Nas suas pesquisas, você chegou a estudar esse filme? Um ponto interessante é que o filme não é distópico ao contrário de muitos dos anos 1980. Por que será que optaram por essa versão Jetsons do futuro? No que eles mais acertaram e no que mais erraram?

EF - Existe uma tradição cinematográfica da FC distópica. O primeiro grande filme de FC é sobre uma distopia futurista que metaforiza brilhantemente as sociedades atuais hipercapitalistas. É Metrópolis, de Fritz Lang, uma película ainda atualíssima. Assim a FC cinematográfica nasceu com esse estigma distópico, mas ao longo das décadas múltiplos subgêneros de FC floresceram. Viagens intergalácticas marcadas por aventura, o drama de mestres como o russo Tarcovsky em Solaris e Stalker, o horror intergaláctico, como em Alien, de Ridley Scott, e a comédia, que tem como um dos marcos dos anos 80 a série De Volta Para o Futuro. As distopias na verdade nasceram do medo humano da tomada de seu espaço pelas máquinas. Tudo começou com o operário mártir Ned Lud que, segundo o mito, destruiu uma máquina de tecelagem às marteladas. Seu nome serviu de inspiração ao Ludismo, movimento que eclodiu na Inglaterra industrialista em 1811 e era estruturado sobre o ódio às máquinas. Sua ação resultou em vários casos de ataque e destruição de máquinas. A coisa ficou tão seria que instituiu-se a pena de morte para aqueles que realizassem tal ato. Perceba como uma das grandes fontes das FCs distópicas é a Inglaterra, com obras clássicas como A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells; 1984, de George Orwell; e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Os EUA do pós-guerra começaram a ter uma relação muito positiva com todas as traquitanas tecnológicas, é de lá que vem pensadores que acreditam nos avanços tecnológicos como panacea para todos os problemas humanos - incluindo aí o alcance da vida eterna através da tecnologia, alguns dos mais conhecidos e controversos são Ray Kurzweil, Hans Moravec e Nicholas Negroponte. Então, no pós-guerra começaram a surgir muitos exemplos de FCs positivas, apresentando uma relação harmoniosa do homem com a tecnologia, e muitas vezes até inocente. O filme, De Volta para o Futuro 2, é uma comédia leve que acerta e prevê muitos dos aparatos tecnológicos que existem hoje, mas como visão de mundo e sociedade é totalmente pautado pelos valores consumistas e alienantes do "American Way of Life" que vicejou naquela nação a partir da década de 1950.

Imagem de Metrópolis, de Fritz Lang (1927)

Capa do livro "A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells

Capa do livro 1984, de George Orwell

Cena do filme Solaris, do diretor russo Tarkowsky (1972)


Cena do filme Alien, de Ridley Scott (1979)

04 - O filme também arrisca em termos de moda e comportamento e até prevê a nostalgia dos anos 1980 que temos hoje. Claro, que numa piada, mas é possível prever esses fatores?

EF - Nesse caso é fácil sim prever tal nostalgia. Eu sou da geração que cresceu nos anos 1980, em 1989 eu tinha 18 anos. Ou seja, minha formação como indivíduo e meu entendimento do mundo foram cristalizados nessa década. E essa geração dos anos 80, agora está na casa dos 40 anos, esse é o auge financeiro dessas pessoas, é a faixa etária que ascendeu a postos no trabalho e tem condições maiores de consumir, já com casa própria, carro e com algum dinheiro sobrando pra investir em coisas bestas e retrô que REMEMOREM o período de sua formação como indivíduo, ou seja, os anos 1980, quando experimentou tantas coisas novas, provavelmente o primeiro beijo, primeira paixão, primeiras festas, primeira relação sexual. As músicas, os programas e filmes daquela época rememoram para o quarentão ou quarentona de hoje esse tempo lúdico e romântico. Se eu for fazer um filme hoje e quiser PREVER qual a época no futuro que terá nostalgia do agora, é só ver quem está na faixa etária dos 10 aos 20 anos hoje e estará com 40 nesse futuro proposto. Acertarei na mosca!

05 - Você acha que o nível da tecnologia do filme ainda é uma realidade distante? Ele é possível? Por que será que previram carros voadores, mas não conseguiram prever a internet?

EF - Se não fosse o monopólio global das montadoras de carros e do truste do petróleo que continuam criando máquinas totalmente retrógradas, que funcionam com combustível fóssil ou o famigerado biocombustível - que tem destruído todo o cerrado brasileiro com plantações de cana que remontam ao período da monocultura do ciclo do açúcar -, já poderíamos ter os carros voadores há décadas. Não é uma tecnologia complexa, o problema continua sendo o dos trustes que impedem o avanço real da boa tecnologia para manter o poder e a lucratividade. Já existem carros a água, a ar, solares e tantos outros! Experimentos de criação de pequenos veículos voadores já existiam desde a década de 1950, mas não ouve investimento neles, pois a industria automobilística global não permite isso. A Internet já tinha sido prevista na FC de Phillip K.Dick muito antes de De Volta Para o Futuro, mas o filme é leve, voltado para a família, e a web tem esse caráter de algo impalpável, não é uma traquitana, é um conceito fluido, não seria algo do interesse dos produtores de um filme nos moldes de De Volta para o Futuro 2.

06 - Uma coisa engraçada no filme – e isso acontece em outros – é a dominação de uma tecnologia que era novidade na época. Por exemplo, o 2015 do filme é cheio de máquinas de fax, que eram uma revolução em 1989. Por que isso acontece?

EF - Uma pergunta sagaz, pois aparelhos de fax estão fadados a irem para o museu. Mas, muito possivelmente houve um incentivo financeiro das empresas criadoras de aparelhos de fax para o filme. Nos EUA a relação do cinema com os múltiplos setores da indústria de bens de consumo é grandiosa. Muitos filmes se sustentam com isso, a publicidade implícita que ajuda  a vender produtos. Acredito que esse seja o principal motivo.

07 - Não temos carros voadores, mas um avanço tecnológico ligado ao consumo bombeou os anos 2000. Como você acha que será realmente os próximos 30 anos?

EF - Sou também um artista que trabalho com a ficção científica como gênero, desenvolvi um universo ficcional chamado "Aurora Pós-humana", um work-in-progress criado por mim desde o ano de 1999. Para ele já criei inúmeros trabalhos em múltiplas mídias com destaque para os quadrinhos. Nessa minha FC, imagine um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, quando milhares de pessoas abandonaram seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imagine também que neste futuro hipotético a bioengenharia tenha avançado tanto que permita a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Nesse contexto ficcional as duas "espécies pós-humanas” tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo, enquanto uma pequena parcela da população - uma casta oprimida e em vias de extinção -, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças. Um trabalho recente de destaque no contexto da "Aurora Pós-humana" é o álbum em quadrinhos "BioCyberDrama Saga", com roteiro meu e arte de Mozart Couto, publicado pela Editora UFG e que concorreu ao Troféu HQMIX, o Oscar da HQ brasileira, em 2014. Nessa obra detalho minhas visões antecipatórias em detalhes, tudo inspirado por prospecções tecnológicas. Só para sugerir uma previsão direta, arrisco dizer que em 30 anos teremos ampliado a possibilidade de vida para 300 anos, mas isso será possível inicialmente apenas para as classes mais abastadas.

Capa de Biocyberdrama Saga (2013)

Capa externa de Biocyberdrama Saga (2013)

 Página interna de Biocyberdrama Saga


Ciberpajé fotografado por Anésio Neto

EDGAR FRANCO é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em artes pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia, performance e histórias em quadrinhos.


Confira a matéria no link do Jornal O Hoje: http://www.ohoje.com.br/essencia/o-futuro-chegou-2/