segunda-feira, 26 de julho de 2021

[Resenha] "Conversas de Belzebu com seu Pai Morto": Inquietante desde o título, a obra transmídia provoca reflexões sobre as consequências de nossos atos no planeta. Por Fredé CF

 

Arte do Ciberpajé que abre a HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto" (capítulo 1). Publicada na revista Atomic Magazine #1

Inquietante desde o título, a obra transmídia “Conversas de Belzebu com seu pai morto”, composta por um EP musical (ouça-o aqui) e uma HQ (adquira-a aqui) do multiartista Edgar Franco (Ciberpajé) em parceria com o musicista Alan Flexa, provoca reflexões sobre as consequências de nossos atos no planeta. A partir da árvore familiar do Diabo, filho da espécie humana que adora um Deus déspota imaginário, a obra nos provoca a iluminar as sombras sociais de maneira impressionante, emocionante e densa, expondo maniqueísmos e ditames institucionais que provocam cegueira, tal como Lúcifer, o “portador da luz”.

Com reflexões acerca de questões ecoadas por pensadores como Nietzsche, Freud, Jung, Sartre, Campbell, Lovelock, entre outros tantos, sobre fenômenos relativos à essência do ser, à existência, à imaginação e à materialidade da vida – mas não se limitando ao pensamento de nenhum deles –, a obra toca, de forma bastante original, em temas caros com profundidade e importantíssima iconoclastia, elucubrando poeticamente sobre os tempos atuais a partir do deslocamento conceitual à um futuro pós-apocalíptico ambientado na Aurora Pós-Humana.

São lançadas, especialmente, reflexões típicas sobre narrativas ficcionais instituídas como regime de verdade em nossa sociedade, expondo e questionando a ideia ilusória de Deus como fonte absoluta e suprema de poder, o que causa a desconexão com Gaia e a ruína total do ser-humano. O EP proporciona a imersão ambiental nessas ideias com uma atmosfera sonora intensa, letras viscerais e uma arte visual de capa shakespeariana incrível e impactante!

Tudo isso ainda ganha mais significação e dramaticidade ao conhecermos as motivações poético-filosóficas e os processos criativos que deram origem à obra, em especial, o contexto tenebroso que passamos. Uma pandemia sem precedentes administrada por um déspota genocida que boicota e combate quem tenta curar à doença, orquestrando negócios nefastos e escusos que utilizam a vida das pessoas como moeda de troca. Uma dessas vidas ceifadas, por essa máfia funesta que detém o poder, foi o amado pai de Edgar: Sr. Dimas Franco, o GranCiberpajé. Principal amigo, interlocutor filosófico, referência inspiradora e norteadora de vida do artista, ele infelizmente foi vítima desse genocídio necropolítico que vivemos.

Como já mencionado, a obra faz um deslocamento conceitual desse contexto obscuro ao universo da Aurora Pós-Humana criado por Edgar Franco, transmutando essa dor profunda em potência artística de vida. A criação, pela arte e pela vida, como antídoto à destruição que se apresenta. É exibido um cenário de autoextinção da espécie humana, representada pelo pai morto de Belzebu e a hecatombe causada pela adoração à um Deus ilusório. Essa adoração não se dá pelo amor, mas pelo ódio, pela guerra, pela destruição, por toda a petulância podre e ressentida da humanidade, pelas negações, pelos extermínios, pela desconexão, pela morte e, sobretudo, pelo ódio disfarçado de amor. Um ódio camuflado e vendido como amor para instaurar, incessantemente, mais ódio e por fim aniquilar a si mesmo como espécie. Edgar enfia as unhas nas hipocrisias putrefatas desse totalitarismo neopentecostal e neofascista instituído pelas milícias militarizadas servis ao mercado que tomaram o poder, expondo o pus que jorra infeccionado e lançando-o na cara dos ditos “cidadãos de bem” que só promovem ódio.

Ouvi o EP, a princípio, sem conhecer a história em quadrinhos - que teve seu primeiro capítulo publicado na revista Atomic Magazine #1 - e já o achei visceral! Fantásticas e tenebrosas melodias que nos transportam, pela imaginação, a dimensões deslocadas do ordinário. Uma viagem ao extraordinário sombrio que nos compõe e que se completa na narrativa com o monólogo de Belzebu lamentando sobre a penúria da existência em meio ao nada que sobrou.

Imagens mentais que me surgiram foram de um cenário apocalíptico agroneoliberal, como aquelas que vemos em filmes distópicos ou em fazendas do agronegócio, devastadoras das florestas e do cerrado. Coloquei o EP pra rolar e de cara já imaginei essa atmosfera penosa, com o cramunhão condenando a má sorte do desencontro com o amor em essência de seu pai (humanidade) e a ruína do ser-humano corrompido por ilusões que o desconectaram de sua essência maternal natural.

A obra toca também em temas socioculturais importantes, como a intolerante cultura machista do paternalismo monoteísta impregnada há tempos na humanidade e que aniquila Gaia pela ilusão de não sermos parte dela. Essa mórbida “fricção de falos”, como coloca a faixa 2 do EP, instaura uma visão deslocada de nós mesmos, com inconscientes esvaziados de simpatia e repletos de ódio. Uma visão doentia de que somos alheios à natureza, à Terra, ao habitat, promovendo hostilidades e rancores destrutivos. Sem consciência de integração entre o interno e o externo. Sem identificação e afeto. Sem autoconhecimento e autocuidado.

Além disso, ainda há na sociedade uma indução do mercado pelo individualismo, que gera intolerâncias e destrói a empatia. Assim, não nos reconhecemos como natureza e, mais do que isso, nos vendem a ideia de que devemos destruí-la para ter felicidade associada à efemeridade do luxo e da riqueza material. Isso é o que chamo em meu universo ficcional de “MekHanTropia” instituída enquanto sistema, seduzindo o ser humano e cooptando sua essência desconectando-nos de tudo que nos compõe. A transformação da vida em objetos pelo mercado, do “Ser” em “Ter”, do bicho em máquina, do amor em ódio, da inclusão em exclusão, da colaboração em individualismo, do ser-humano em coisa, em destruição interior e exterior.

Chega-se um ponto que não nos reconheceremos mais como humanos, reflexivos, emotivos, carnais, colaborativos, comunicativos. Nos tornaremos mecanismos servis ao capital e essa desconexão com nossa essência nos provoca ódio. Ódio de nós mesmos e dos outros que são reflexos do que estamos nos tornando: máquinas de destruição, ferramentas, instrumentos padronizados, robotizados, sem subjetividade, sem pensamento crítico, sem pensamento próprio.

A violência oriunda da destruição de nós mesmos pelo egoísmo e pela ideia de não-pertencimento. A autoaniquilação inerente ao desequilíbrio que extingue a pluralidade da vida, instaurando a exclusão e a negação de nossa essência natural inclusiva, muitas vezes sem nem nos darmos conta disso. A desconexão camuflada de conectividade maquínica. As bolhas antissociais de positividade tóxica e agressões destiladas pelas redes. A ausência de respeito à vida e idolatria à destruição.

Capa do EP, por Ciberpajé

É preciso (re)integrar. É preciso resistir. É preciso refletir que o “outro” não (re)existe fora de nós, mas que, sobretudo, vem de dentro. O “outro” também somos nós, também está presente em nós. Nós somos o outro e o outro somos nós! Enquanto não integrarmos isso ao invés de negarmos, estaremos condenados a ser o morto dependurado na árvore representada pelo Ciberpajé na HQ.

Como diria o Pink Floyd: “Together we stand. Divided we fall”. A humanidade se esqueceu que é também constituída de planeta, de Gaia, de minérios, de água, de ar. Os elementos que nos movem também constituem as montanhas, as florestas, os oceanos, os rios, também estão em nossos ossos, carnes, sangue, células, átomos. Também nos faz pulsar o coração. A chuva também circula em nosso corpo composto e sedento por água e comida, que nos alimenta, integra e faz parte de nós e nós fazemos parte dela. O ar que entra e sai de nossos pulmões e nos dá vida, nos movimenta e nos integra ao todo, ao Prana, ao cosmos, à vida.

Indo além do que disse Hubert Reeves, de que “o homem é a mais insana das espécies, pois adora um Deus invisível e mata a Natureza visível sem perceber que a natureza que ele mata é esse Deus invisível que ele adora”, a obra coloca esse Deus invisível como um mandante para o assassinato de Gaia (a Natureza, a verdadeira Deusa). Um mandante criado esquizofrênicamente pelo próprio jagunço psicótico: a humanidade.

Estamos matando tudo em nome de um Deus ilusório tirano regido pelo mercado e criado por nós mesmos. Um monstro que reflete, como um espelho, nossa essência sombria negada social e individualmente. Um ser que criamos para nos desconectar do que somos: bicho, animal. Um ser que criamos para nos isentar do que somos ou nos tornamos: homicidas, genocidas, ecocidas e, consequentemente, suicidas. Um ser que destrói a mãe-Terra, a mãe-natureza, a mãe-Gaia, a verdadeira Deusa. A destruição do feminino é, assim, a destruição da nossa origem e, consequentemente, a destruição de tudo o que somos, em função de ilusões egóicas. A destruição do agora, do presente. A destruição de nós mesmos. A destruição de quem amamos.

A obra musical por si só já é bastante potente e já me provocou muitas reflexões. Mas não para por aí! Novas surpresas e vibrantes sensações ainda podem ser experienciadas transmidiáticamente nesse universo com a imersão na HQ transcendental homônima do Ciberpajé.

A forma como o artista navega pelas narrativas é inspiradora e provoca os sentidos e a imaginação a um mergulho naquele universo vigoroso, instigante, filosófico e, ao mesmo tempo, melancólico e aterrorizante pela crueza das representações de nossa decadência enquanto seres destruidores da vida. Um rompimento de fronteiras entre as mídias que culmina no rompimento de fronteiras culturais internas estabelecidas, ao longo da existência, por institucionalizações limitantes e alienantes do status quo. Um rompimento de ideias sobre quem somos e sobre quem pensamos ser. Uma possível reflexão do que poderíamos ser caso pudéssemos re-existir naquela diegése.

Ao transcender poeticamente esses limites ilusórios de formatação artística padronizadas pelo mercado, Edgar nos abre possibilidades de adentrar a vida em sua plenitude de maneira fluida e sem amarras materialistas, aniquilando obstáculos mercadológicos de padronização e exaltando a subjetividade como uma ode à liberdade de ser quem se é, direcionando assim, pela forma e pelo conteúdo de seu universo ficcional autoral poético, o encontro consigo mesmo de forma amorosa e plena.

O amor de fato, transcendente, maternal, intenso, cósmico, autodigerido e transmutado. O amor presente em cada organismo como essência para a vida, mesmo na experiência da morte, que segue em movimento natural constante de transformação. O elixir que potencializa a vida mesmo após a morte. A planta que surge da cova. A flor que nasce do asfalto trincado. O ovo que vem antes da galinha e gera outro ovo. O efeito antes da causa. A emoção em confluência com a razão. O amor de andar de mãos dadas com a morte pelo deserto do nada, pelo que existe agora, nesse instante, deslocado. O amor que sustenta, sintoniza e dá liga aos demônios internos inerentes a todos indivíduos. As Sombras integradas ao invés de negadas. O amor à Sombra transmutada pelos movimentos de seus traços, imbricados pelas redes neurais, que harmonizam-se com as sonoridades hibridizadas das músicas de forma impressionante.

A HQ é fabulosa! Uma experiência formidável e deslumbrante de navegação transdimensional. Uma relação fantástica entre os arquétipos do Diabo (Belzebu), do Enforcado (seu pai morto, dependurado em uma árvore) e da Morte (sua amiga). A dança astral incrustrada na essência da árvore da vida que integra a morte como parte do ciclo do infinito cósmico. A árvore genealógica do Diabo em contato com seu pai morto refletindo sobre o nada da vida que simplesmente é e incorpora tudo para ser e se transformar constantemente, em uma inabalável e poética metAMORfose. E o Sol, segue lá alucinado, nas páginas exposto em sua intensidade serena e brutal que possibilita novas narrativas nascerem e fluírem iluminadas nesse horizonte devastado.

*Fredé CF (a.k.a. Frederico Carvalho Felipe) é artista transmídia, criador do universo ficcional MekHanTropia, pesquisador, professor e doutorando no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da UFG, em Goiânia.

[Resenha] “Conversas de Belzebu com seu pai morto” (EP musical e HQ): uma daquelas obras que nos tiram o fôlego e nos tiram do chão. Por Adaor Oliveira

Arte do Ciberpajé retratando Belzebu

“Conversas de Belzebu com seu pai morto” é uma daquelas obras que nos tiram o fôlego e nos tiram do chão. É a Aurora Pós-Humana nos colocando, mais uma vez, em contato com o nosso eu interior e com o nosso eu mundano, coletivo, que caminha para a completa destruição de Gaia. A obra é composta por um EP musical de 4 faixas (ouça-o aqui) e uma HQ publicada na Atomic Magazine #1 (adquira-a aqui), onde Belzebu encontra o cadáver de seu pai enforcado em uma árvore.

Arte do Ciberpajé para última capa da revista Atomic Magazine #1 - para a HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto" (capítulo 1)

Beelzebul (Βεελζεβούλ), o senhor das moscas, ou Ba’al Zebub (בעל זבוב), divindade adorada pelos filisteus. O mesmo Belzebu do Auto da Lusitânia, de Gil Vicente, que junto com Dinato, ouve o diálogo entre Todo Mundo e Ninguém. É o rico, cheio de ganância, vaidade, petulância dialogando com o pobre. E são justamente essas atitudes do homem rico que levam ao fim da humanidade, de onde nasce o pai do Belzebu da HQ e do EP. As reflexões trazidas pelo denso som de cada faixa, com um ar de filmes clássicos de terror, deixa a atmosfera propícia para a narrativa na voz do Ciberpajé, nos transportando para esse universo pós-humano. Parece que Belzebu anda por aqui, espalhando o caos através da pandemia, aterrorizando e trazendo a morte. Caos e mortes programados por quem ocupa o Palácio de Brasília.

Belzebu encara seu pai morto assim como nós encaramos a morte do nosso planeta, a morte da humanidade que habita em nós. Diferentemente do que diziam Hobbes e Rousseau, o ser humano não é nem mau e nem bom por natureza, somos frutos do meio, da cultura, do ambiente. E, infelizmente, a sociedade capitalista em que estamos inseridos, nos convida ao consumismo desenfreado, que destrói o planeta com seu lixo tóxico.

Esse contexto da obra é o caminho que estamos percorrendo, mesmo que muitos ainda não tenham se dado conta. Toda simbologia coloca diante de nós a Amazônia devastada, o Pantanal que arde em fogo, a Alemanha e a China imersas debaixo d’água, o mundo devastado por uma pandemia. A natureza começou a reagir aos ataques por ela sofridos. Já enforcamos o meio ambiente por muito tempo, e não adiantará nada chorar depois da morte. Tudo é consequência. Lembram da terceira Lei de Newton, que versa sobre ação e reação?

O diabo, Arcano XV do Tarô, representado por Belzebu, dialoga consigo mesmo, o pai enforcado já não o ouve mais. Não adiantará querermos que a natureza nos ouça depois de completamente morta, inanimada, como nos quadros de Cézzane, Renoir, Van Gogh, Picasso. E toda essa reflexão vem nos sons e palavras do EP e nas imagens e falas instigantes da HQ.

Capa do EP

Imagino, ainda, a dor daqueles que perderam entes queridos para o coronavírus, como o próprio Ciberpajé viu seu amado pai virar estrela. Assim como eu vi amigos e parentes partindo sem ar. Mais uma vez, a ação (des)humana e gananciosa de quem deveria zelar pelas vidas humanas, trouxe dor e destruição aos nossos corações. Mas ao contrário de Belzebu, que chorou a morte do pai, o Capitão desdenha das mortes dos seus semelhantes.

Espero que essa conexão da obra com nossa realidade, nos faça refletir ainda mais sobre essa conexão passado-presente-futuro. Agradeço a oportunidade de apreciar tamanha beleza e reflexão, tão necessárias para não nos perdermos no meio do caminho.

*Adaor Oliveira é filósofo e educador 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

[Resenha] Split CD "Lucha" de Posthuman Tantra & Alice Psicodélica: sons que nos convidam a silenciarmos nossas vozes da mente. Por Thaisa Maia

Arte do Ciberpajé

Sem dúvidas o split álbum "Lucha" (ouça-o neste link) é um dos mais diferentes já criados pelo Posthuman Tantra! Gostei muito do uso dos instrumentos que invocam a ancestralidade e das faixas que, ao contrário de palavras, trazem as "vozes" dos sons que nos convidam a silenciarmos nossas vozes da mente, para a imersão nas ambiências formadas. 

A primeira faixa, Cíclope Caolho, é muito interessante pela desconstrução do ditado "em terra de cegos, quem tem um olho é rei". Nesse viés, penso que, em um contexto de tanta hiperinformação, fechar os olhos para mergulhar nos horizontes do interior, de fato, é ser rei. Mas não rei dos outros e sim de si mesmo, a partir do autoconhecimento. 

Já a faixa "Floresta Íntima" é um verdadeiro mergulho na natureza que sempre se faz presente no interior de cada um de nós e, possivelmente, há muito esquecida pelo caos externo das cidades, dos ritmos de vida alucinantes e alienantes, da pressa e de automatismos que nos fazem, inclusive, esquecer as belezas que compreendem a vida. 

Passando para a faixa "Lobo Transdigital", inevitavelmente, não pude não lembrar de mantras, sons repletos de energias que são capazes de transmutar, limpar, conectar e, enfim, estabelecer ligações com o sagrado que nos habita. E, além disso, me chama a atenção a voz do Ciberpajé, pois ao mesmo tempo que ela traz algo de animalesco, me parece trazer algo que remete à idade, à experiência, ao ancestral. 

Indo para a faixa "Fantasmas Binários", vejo como sendo ela uma crítica certeira ao hipnotismo atual diante de telas, nos apartando do convívio e contato verdadeiro e profundo com aqueles que nos rodeiam. A menção ao "Lusha" (termo hindi que significa "aquele que olha fixamente para você") traz então o que, possivelmente, possa ser um convite ao despertar através da redescoberta de nossa sensibilidade - por exemplo, através da arte - e que nos tira da passividade perante ao bombardeio de informações, para a busca do autoconhecimento através de nossas pulsões criativas e, que por sua vez, nos tranformam.

"Zentropia" me parece uma forte alusão a ritos ancestrais, ritos que trazem, em seu cerne, a transformação, a cura e, até mesmo, a transmutação de mazelas que possam nos assolar. Mais uma vez, percebo como um convite à íntima conexão com a nossa natureza. 

Finalmente a faixa da Alice Psicodélica, banda que divide o split com o Posthuman Tantra, "Paralisias do olhar fixo", foi uma curiosa surpresa, principalmente mais aos minutos finais, pois contraria as expectativas de melodias, trazendo um som que me parece remeter a um aparelho que entra fora do ar, que tem a sua transmissão cortada. Nesse viés, fico me questionando se seria uma faixa que convida que saiamos, por vezes, da condição de espectadores e consumidores das telas, para, então, reestabelecermos o "o olhar fixo". 


Por fim, a capa do split álbum é de um grande impacto! Ao observá-la, penso em um duplo significado possível. Primeiramente, a do ser pós-humano, retratado com um olho, ser o simbolismo de "Lusha", de forma que, quando ele olha fixamente em nossos olhos, é capaz de aprofundar em seus próprios demônios íntimos.

Nesse sentido, penso que esse fato se justifica se pensamos que, quando olhamos profundamente para o outro e quando estabelecemos a conexão e o contato com esse outro, podemos ter a oportunidade de nos (re)descobrirmos e, inclusive, de (re)descobrirmos as sombras que nos habitam. Assim, é a partir desse gesto que podemos ser verdadeiramente livres, como os pássaros retratados, pela conquista do autodomínio, ao invés de sermos dominados pela alienação das telas hipnotizantes e que nos apartam desses contatos. 

Em contrapartida, penso na possibilidade da capa retratar o "Cíclope Caolho", mencionado em uma das faixas, em contraposição a aquele que olha para o seu íntimo e que também é representado na capa como o ser pós-humano que está de olhos fechados. Nessa segunda interpretação, os demônios seriam os ruídos constantes da hiperinformação, presentes por trás das telas que aprisionam os seres. Já os pássaros, a liberdade alcançada pelos pós-humanos que olham para si mesmos.

*Thaisa Maia é poeta, graduada em letras pela UFG e educadora.





terça-feira, 20 de julho de 2021

[Lançamento Especial na HQWEEK!] Ciberpajé é convidado a realizar lançamento do álbum em quadrinhos Renovaceno no evento HQWEEK! 2021


O Ciberpajé (Edgar Franco) foi convidado a fazer um lançamento especial de seu novo álbum em quadrinhos Renovaceno na HQWEEK! 2021. O Seminário online debate tecnologias digitais e inclusão social nas histórias em quadrinhos.  O evento gratuito reúne artistas, fãs e acadêmicos para discutir a linguagem das HQs como instrumento de inclusão social. O evento tem entre as instituições parceiras UFJF, PUC-SP, UFPR, UCB e Gibiteca de Curitiba. O seminário, com múltiplas atividades incluindo mesas redondas e oficinas, acontece de 26 a 30 de julho de 2021.


O lançamento de Renovaceno - que contará com uma fala do Ciberpajé destacando como as HQs do álbum inserem-se no contexto do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana - acontecerá online às 17:30h do dia 30 de junho antecedendo a mesa redonda: “HQs Transmídia: universos expandidos e narrativas integradas˜ com Alexandre Kieling (UCB), Felipe Muanis (UFJF), Sidney Gusman (MSP) e RaulZito. Mediação: Ciro Marcondes (UCB/Raio Laser).

Confira toda a programação e inscreva-se gratuitamente na HQWEEK! neste link.

Saiba mais sobre o álbum em quadrinhos Renovaceno neste link.



segunda-feira, 19 de julho de 2021

[Entrevista] Ciberpajé fala das obras artísticas pandêmicas "Conversas de Belzebu com seu Pai Morto" (HQ e EP) ao artista e pesquisador doutor Rafael Senra



Em julho de 2021, Edgar Franco – também conhecido como Ciberpajé – lançou uma HQ e um EP musical com o mesmo nome. Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto faz referência tanto ao disco gravado em parceria com o músico e produtor Alan Flexa (e lançado pela Lunare Music - ouça-o aqui) quanto à HQ de 11 páginas que saiu na revista Atomic Magazine 1 (adquira a revista neste link).

Tive a honra de ouvir o disco e ler a HQ, e fiquei intrigado com a existência dessas duas obras, que parecem contar a mesma narrativa em mídias diferentes. O deleite que tive com a apreciação de ambas acabou levando a um bate papo fantástico com Edgar, reproduzido logo abaixo. Tentei fazer com que as perguntas orbitassem entre tópicos relacionados as duas versões de “Conversas”..., e também às características transmidiáticas de sua obra. Além da honra de ter feito essa entrevista, pude também esclarecer diversas dúvidas antigas a respeito do processo de criação desse fabuloso multiartista.

Nossa prosa segue abaixo, e espero que gostem! Boa leitura!


1 – Em um início de entrevista, pede-se para que a pessoa se apresente, e eu farei isso com uma pergunta talvez inusitada para começar. Lá vai: você se considera mais um artista transmidiático, visual, ou um autor de quadrinhos?

Sem dúvidas sou um artista transmídia e me nomeio assim já há uns 10 anos, antes do termo transmídia tornar-se uma moda – inclusive utilizado de forma errada na maioria das vezes.

Eu comecei minha trajetória artística como ilustrador e quadrinhista com 12 anos de idade, e já nessa época também escrevia poesias compulsivamente, o que me levou a conectar minha expressão poética aos meus quadrinhos gerando o que vim a chamar posteriormente de “Quadrinhos poético-filosóficos”, um gênero genuinamente brasileiro de quadrinhos do qual sou um dos pioneiros e que tem sido estudado por muitos pesquisadores, já merecendo inclusive uma coleção de livros acadêmicos dedicada a ele A Coleção Quadrinhos Poético-filosóficos editada pela Marca de Fantasia e já com 11 títulos, sendo 3 deles de minha autoria (2 em parceria com a pesquisadora de minha obra IV Sacerdotisa Danielle Barros) e outros 4 dedicados a analisar minhas criações.

Então, em certa medida tornei-me mais conhecido por meus quadrinhos, no princípio, mas já era musicista desde os 16 anos, quando influenciado pelo heavy metal iniciei tocando baixo em bandas de minha cidade natal, e mais tarde criei o projeto musical Maldoror, e participei da banda Essence (que tinha em suas fileiras outro quadrinhista poético-filosófico, o Gazy Andraus). Vim a consolidar minha atuação como musicista quando retomei os estudos musicais em 1999, interessado em criar as trilhas sonoras para minhas HQtrônicas – durante a minha pesquisa de mestrado em multimeios na Unicamp, e passei a criar faixas a partir de sintetizadores e plug-ins digitais.

Isto culminou em 2004 na criação do projeto musical Posthuman Tantra – já no contexto do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana e durante meu doutorado em artes na USP. A partir deste momento, em que eu seguia criando quadrinhos, HQtrônicas e poesias/aforismos, a música passou a integrar de forma consistente a minha produção artística, e a recepção ao meu trabalho musical com o Posthuman Tantra extrapolou de longe minhas expectativas, tendo o primeiro CD demo - Pissing Nanorobots - sido muito bem recebido na Europa com resenhas elogiosas. Isso permitiu-me estabelecer contato com inúmeros musicistas e gravadoras do exterior, culminando nos contratos que assinei com a gravadora Suíça Legatus Records, que lançou dois discos do Posthuman Tantra, e com a gravadora inglesa 412Recordings, que lançou 4 discos e um tributo ao Posthuman Tantra.

Arte de capa do CD "Pissing Nanorobots", do Posthuman Tantra (2004) 


Meus quadrinhos, apesar de terem sido publicados em algumas edições independentes no exterior, não tinham um respaldo expressivo por lá, já o Posthuman Tantra abriu o leque de possibilidades e conexões nos cinco continentes. Isto levou-me naturalmente para os palcos, mas eu não queria só fazer apresentações musicais ao vivo tocando e cantando, queria uma experiência audiovisual para quem fosse assistir ao Posthuman Tantra, transformando então cada música em um ato performático que conta uma história no contexto da Aurora Pós-humana e inclui efeitos visuais de mágica eletrônica, realidade aumentada (fomos os pioneiros no Brasil a usar o recurso em shows), interação com vídeo, figurinos especiais, e obviamente a one-man-band no estúdio, para as performances tornou-se um grupo com vários integrantes do meu grupo de pesquisa Cria_Ciber (FAV/UFG), incluindo orientandos meus de iniciação científica, mestrado e doutorado, no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual.

Ciberpajé performando com o Posthuman Tantra

Desde então a performance passou a fazer parte do rol de minhas expressões – já performei ao vivo em 4 regiões do Brasil, e somando agora com os festivais on-line são mais de 50 apresentações performáticas realizadas. O aspecto performático trouxe consigo a criação de videoclipes e videoartes, games, web arte, instalações artísticas interativas e finalmente de animações. Atualmente minha produção artística se dá em todas essas linguagens e suportes, mas tem como ponto de convergência o meu universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana.


2 – Em paralelo à sua carreira artística, você é professor de artes na UFG. Existe uma convergência entre as atividades que você desenvolve como pesquisador, docente e entre seus projetos artísticos?

Eu estabeleci uma estratégia para conectar diretamente todas as minhas criações artísticas e minha atuação como docente e pesquisador. A primeira atitude foi migrar para a pesquisa em artes – sou graduado em arquitetura e urbanismo pela UnB – e realizar mestrado e doutorado na área, com pesquisas ligadas diretamente ao que faço como artista.

Assim, fiz o mestrado em multimeios na Unicamp com a pesquisa pioneira sobre os quadrinhos no contexto digital da hipermídia, o que gerou o livro HQtrônicas: do Suporte Papel à Rede Internet – uma obra de referência no Brasil para quem vai estudar o assunto, mas a pesquisa teórica foi acompanhada por uma produção criativa como quadrinhista, desenvolvendo minhas primeiras HQtrônicas que foram encartadas no CD-Rom que acompanha as duas edições do livro. Essas HQtrônicas: Neomaso Prometeu, e Ariadne e o Labirinto Pós-humano, já são ambientadas no universo ficcional da Aurora BioCyberTecnológica, que posteriormente – no meu doutorado - foi chamada de Aurora Pós-humana.

Pois bem, no doutorado em artes na USP fui estudar o fenômeno pós-humano e a parte artística da tese envolvia o aprimoramento da Aurora Pós-humana já como um universo transmídia suscitando criações musicais, de quadrinhos, uma obra interativa de web arte, e HQtrônicas. Desde então já situei-me como artista transmídia e passei a buscar minha entrada em uma universidade pública onde eu pudesse continuar minhas pesquisas e criações artísticas neste campo, com enfoque nos processos criativos e nas poéticas artísticas.

Ciberpajé com o álbum em quadrinhos BioCyberDrama Saga, parceria com Mozart Couto. Uma das obras emblemáticas da Aurora Pós-humana

Esse desejo consolidou-se quando passei no concurso para professor adjunto na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, e já de imediato tornei-me docente do Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual, na linha de pesquisa Poéticas Artísticas e Processos de Criação, onde criei o grupo de pesquisa Cria_Ciber. Com isso consegui conectar diretamente minha produção artística transmídia à minha carreira como docente e pesquisador, pois toda essa produção entra diretamente no Currículo Lattes e recebe um qualis da área de artes.

Na faculdade de artes visuais eu leciono disciplinas teórico-práticas diretamente relacionadas com minhas criações, sendo elas Arte e Tecnologia, e Histórias em Quadrinhos de Autor. Amo estar na universidade pois isso sempre me dá mais energia e entusiasmo para criar ao tomar contato com tantas pesquisas incríveis, principalmente de meus orientandos. Nos 13 anos que atuo na pós já formei 15 mestres, 6 doutores e 2 pós-doutores, além de ter orientado dezenas de TCCs e iniciações científicas. Devo todas essas oportunidades ao ensino público e de qualidade das universidades federais e estaduais pelas quais passei e que foram fundamentais para minha formação e crescimento profissional. Sigo como ferrenho defensor da universidade pública, gratuita e de qualidade!


3 – Vamos entrar agora nas perguntas sobre seus quadrinhos. Eu fiquei curioso sobre sua técnica que utiliza IA (inteligência artificial) para dar um outro tipo de textura ao trabalho. Como funciona?

Trata-se do uso de redes neurais para aplicação de texturas em imagens e os algoritmos dessas redes neurais são chamados de Neural Style Transfer, é uma técnologia em franca expansão. Comecei a utilizar essa técnica há 4 anos, e como qualquer outra técnica/tecnologia, através de inúmeros experimentos – 90% descartados - fui aprendendo como dialogar com as IAs a partir de minhas buscas estéticas para as artes. A técnica consiste na mixagem de uma imagem a outra, sendo que a segunda imagem entrará com a textura (e se for desejado a colorização da primeira) que se aplicará à primeira.

Página de abertura da HQ na revista Atomic Magazine #1


Busco texturas através de minhas fotos de elementos da natureza e outras artes e desenhos previamente criados por mim. Vou estudando os resultados, até chegar em um que me satisfaça. Para a HQ Conversas de Belzebu com seu pai morto, eu buscava texturas de enraizamentos em tons sépias outonais que reforçassem a ideia de ocaso trazida pela narrativa, depois de dezenas de experimentos cheguei a algo que agradou-me. É importante dizer que todos os desenhos da HQ foram realizados previamente com técnica de grafite sobre papel, inclusive com sombreamento em lápis 6B, o que a rede neural acrescentou nesse caso foram as texturas e tonalidades de cor.


4 – Na página 5 da HQ, o desenho das raízes da árvore tem ao lado imagens do que parecem ser folhas secas de uma árvore. Essas folhas parecem reais! Elas são colagens, ou também foram geradas pela técnica dos “desenhos + IA”?

Você é mesmo detalhista e observador! Nesse caso a IA não fez magia não – até porque não faz mesmo, é só mais um recurso como pincel e tinta e softwares gráficos. Ali são folhas de uma árvore de meu jardim que eu colei sobre o desenho a grafite antes de aplicar as texturas finais. Faz parte de meus múltiplos experimentos gráficos recentes, os outros capítulos da HQ que estão em processo trazem diversos experimentos visuais unindo desenho, objetos, fotos e aplicação de texturas em redes neurais.

Arte colorida do Ciberpajé para a contracapa da revista Atomic Magazine #1

5 – Você começou sua carreira produzindo no método, digamos, “analógico” (papel, lápis, nanquim), e, de uns anos para cá, você tem se valido da tecnologia digital para trazer novas dimensões de layout para seus trabalhos. Essa mesma tecnologia digital integra seus trabalhos musicais. Diante disso, vem a pergunta: qual sua relação filosófica e poética com o mundo digital? No conceito da “Aurora Pós-Humana”, a tecnologia digital ocupa um papel?

Sigo um apaixonado pelo desenho em suporte papel, inclusive todas as minhas artes nascem primeiro no papel e só depois digitalizo. Nunca me acostumei com as mesas digitalizadoras, gosto mesmo é de desenhar no papel, e sigo criando HQs também praticamente sem recursos digitais, como na minha revista anual Artlectos & Pós-humanos (Marca de Fantasia), já com 13 números publicados.

Capa da revista em quadrinhos Artlectos & Pós-humanos #13

Inclusive durante meu recente pós-doutorado em artes na Unesp realizei – pela primeira vez – uma experiência muito instigante, criei um álbum em quadrinhos feito totalmente a partir de esculturas criadas por mim, foi desafiador, esculpir personagens e criar cenários, também trabalhar a iluminação para gerar as fotografias das sequências, o álbum tem 60 páginas e chama-se O Sonho dos Deuses, ainda não foi publicado.
Página do álbum em quadrinhos "O Sonho dos Deuses" (no prelo)

Mas, como já destaquei, encontrei nesses 4 anos recentes uma possibilidade nova e que comecei a experimentar e gostar dos resultados plásticos e estéticos e só agora estou me aventurando a criar HQs agregando esses recursos de redes neurais, até então estava usando só para ilustrações. Devo dizer que as IAs ainda são muito limitadas, usam estratégias para irem aprendendo lentamente o que desejamos, então não existe nenhuma mágica no processo. É algo que demanda tempo para ir entendendo como o algoritmo funciona, é como aprender uma técnica de pintura.

Tenho visto essas técnicas serem utilizadas para o mal, criando deep fakes que possibilitam a difusão de fake news, ou também para o mundo do entretenimento insosso, mas podemos subverter – em certa medida – as suas destinações e utilizá-las para criar arte. Penso ser uma atitude ciberpunk subverter essas tecnologias para criação de arte autoral underground.

Quanto à tecnologia digital como um todo, tenho algumas restrições gerais à superexposição humana à linguagem binária que em seu cerne é indutora de extremos – pois sua base é o sim ou o não, o zero ou o um, a dicotomia, os extremos. Por isso creio na necessária evolução de uma computação quântica que dê um salto em relação ao atual binarismo dessa linguagem.

Também tenho restrições aos algoritmos das redes sociais baseados no aspecto obscuro da psicologia de Skinner e Pavlov, ou seja, estímulos negativos produzem muito mais engajamento do que os positivos. Mas tanto na música quanto na arte visual utilizo-me das ferramentas que acredito poderem amplificar as intenções poéticas e estéticas de minhas obras, venham elas de onde vierem.

Na música utilizo muitos sons analógicos que são remodulados digitalmente para gerarem outras sonoridades, e uso também sintetizadores e plug-ins digitais de simulação de instrumentos – nesse caso são recursos que me permitem criar sons que não poderiam ser criados por mim, pois não teria como comprar um órgão, por exemplo.

Em um caso específico criei, em parceria com o musicista Eufrásio Prates, um EP musical que utiliza a IA do Google para gerar todos os sons finais. Eufrásio é um grande conhecedor de música e redes neurais e criou as faixas de nosso EP Holofraktaforismos todas a partir de minha voz remodelada na IA do Google, é um experimento muito forte e que surpreendeu-me!

Na Aurora Pós-humana, no auge do universo ficcional, o digital ainda tem grande força, incluindo entidades abiológicas como os Digigods – grandes IAs que controlam a rede Internet futura, e alguns seres humanos já nem existem em corpos biológicos, tornando-se extropianos avançados – blocos de informação e consciência capturados de seus sistemas nervosos e que vivem no digital. Como sempre, utilizo tais estratégias para refletir sobre nossa relação atual com as tecnologias, a humanidade e a biosfera, realizando o “deslocamento conceitual” proposto por P.K.Dick. “Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto” é uma HQ sobre o presente, mas que está situada no ocaso pós-humanista da Aurora Pós-humana, no qual amplifico muito o cenário catastrófico atual.


6 – Excelente resposta. Nunca tinha pensado nessa relação entre os códigos binários e o extremismo que tem crescido no mundo contemporâneo. É uma constatação filosófica feita a partir de uma dinâmica tecnológica totalmente presente em nosso cotidiano. Permita-me então aprofundar o raciocínio em uma nova pergunta: você acha que o digital veio para superar o analógico?

Enquanto formos seres atávicos e compostos por matéria de base carbônica, criaturas encarnadas, o analógico, o material, o substancial, continuarão tendo um profundo sentido existencial para nossa espécie. Nossa própria forma de obtenção de energia é através da trituração de matéria de base orgânica, somos organismos que dependem de outros organismos. Percebo que conhecemos muito pouco ainda da complexidade do que somos para simplesmente abandonarmos a dimensão material da existência humana, pois os múltiplos campos energéticos e as ressonâncias morfogenéticas que nos compõem seguem sendo grandes e profundos mistérios que algumas filosofias transcendentes e a física quântica mal arranharam. O digital é só mais uma fase de transição comunicacional e de nossa experiência, outras virão se não nos autodestruirmos antes, mas o analógico seguirá conosco por eras ainda.


7 – Gostaria de saber agora um pouco da sua carreira musical. Me impressiona o tamanho da sua discografia! Você sabe de cabeça quantos EPs já lançou? Me fale um pouco sobre sua faceta musical.

A discografia do Posthuman Tantra é bem grande, tenho um home estúdio onde gravo todas as faixas e as mixo, só a masterização que é feita por outros. E como trata-se de uma one-man-band isso facilita muito as coisas no que condiz ao tempo para criar e gravar. O Posthuman Tantra nasceu em 2004, portanto é uma banda já com 17 anos de existência.

Neste tempo foram lançados 2 álbuns oficiais em CD pela gravadora Legatus Records (Suíça), 3 CDs, 2 Split CDs e o tributo ao Posthuman Tantra pela 412Recordings (Inglaterra), um CD pela Terceiro Mundo Chaos Records (Brasil), um Split CD pela Anaites Records (Brasil), e 2 EPs pela Sonoros Records (Brasil), e outros 4 EPs por gravadoras de países como Itália, França e Suécia.

Arte de capa do Ciberpajé para o CD do Posthuman Tantra - Neocortex Plug-in (2007), lançado na Suíça pela Legatus Records

Vale destacar também as 7 Boxes somando ao todo 15 CDs lançadas na França em parceria com a lendária banda de death ambient Melek-tha, além da participações em mais de 40 coletâneas dos 5 continentes do planeta – pelo menos 20 delas com faixas inéditas – e um split CD lançado no japão pela Sabbathid Records.

Fiz uma conta esses dias e são mais de 30 horas de música do Posthuman Tantra já criadas em seus 17 anos de existência. Acaba de ser lançado o novo split da banda, desta vez uma parceria com a Alice Psicodélica, pela gravadora Depressive Noise Records, incluindo uma versão física limitada em uma box muito especial. Nesse split as músicas do Posthuman Tantra são totalmente analógicas e gravadas com instrumentos inusitados como berimbau de boca, udo, e apitos indígenas. A banda tem essa característica experimental que irrita alguns fãs mais conectados com minhas músicas no estilo dark ambient, pois não tenho amarras de estilo para criar os sons. Neste novo split – chamado Lucha (ouça-o aqui) - as faixas têm influências de mantras, de música de monastérios e do grande Daminhão Experiença!

Arte de capa do Ciberpajé para o Split CD "Lucha", do Posthuman Tantra e Alice Psicodélica, ouça-o neste link

Já no Projeto Musical Ciberpajé, que nasceu em 2014, em 7 anos foram editados 36 EPs e 1 CD, com participação de musicistas das 5 regiões do Brasil e dos países: Chile, França, Colômbia, Suíça, Inglaterra e Canadá. Esses EPs e o CD podem todos ser ouvidos no Bandcamp do projeto.

Também destaco minhas participações em mais de 30 álbuns musicais de amigos musicistas. Enquanto eu tiver energia criativa, e espero que isso aconteça até minha morte, seguirei criando músicas para os meus projetos e participando como convidado em projetos de amigos. A música que crio é visceral, autoral e iconoclasta como toda minha arte.


8 – É um notável legado! Me diga, quando você produz seus discos, existe algo esteticamente semelhante aos efeitos visuais de IA que você emprega no plano sonoro? Algum tipo de recurso/aplicativo/plugin ou algo que, sonoramente, seja equivalente às texturas das suas HQs?

Isso aconteceu só em um disco específico que já citei. Vou explanar em mais detalhes o processo criativo do EP Ciberpajé – Holofraktaforismos, parceria minha com euFraktus X.

Arte de capa do Ciberpajé para o EP Holofraktaforismos

A semente criativa do EP Holofraktaforismos (ouça-o aqui) foi uma experiência minha de ENOC (estado não ordinário de consciência) com o uso do enteógeno Psilocybe cubensis. Essa experiência visionária gerou uma série de desenhos inspirados nas visões obtidas durante o tempo em que ela durou, eu considero essas artes como frutos de uma hipertecnologia ancestral, sendo o cogumelo cubensis um “plug-in de neocortex” muito mais poderoso que qualquer das I.As existentes atualmente.

Tempos depois da experiência usei algumas dessas artes para criar uma série de HQforismos (gênero de quadrinhos poético-filosóficos que une um texto aforístico a uma imagem que dialogue com ele) que trouxessem em seu escopo as sensações de profunda conexão com o cosmos e de indignação com a desconexão com a natureza que reina no mundo contemporâneo.

Os 6 aforismos em preto e branco realizados foram inicialmente publicados no fanzine Uivo#5 e depois integraram o álbum em quadrinhos Enteogênicos (Editora Criativo). Quando surgiu a oportunidade de realizar a parceria com o musicista visionário e maestro euFraktus X (Eufrásio Prates), eu pensei na possibilidade de criar um desdobramento sonoro para os 6 HQforismos enteogênicos frutos daquela experiência atávica. Eufrásio aceitou o convite e o desafio para a criação de músicas holofractais baseadas na gravação das minhas vozes recitando os aforismos.

O musicista utilizou nessa criação sonora softwares abertos de Inteligência Artificial (Google TensorFlow) e sua invenção, uma suite de software livre chamada HITS Holofractal Interactive Transducer System. Nas palavras do próprio euFraktus X: "Meu código interpreta as sutis curvas da fala do Ciberpajé e as passa numa equação fractal que gera os números que se tornam notas midi, ou seja, matematicamente normalizados numa escala de 0 a 127. Isso torna-se a base dos synths."

Nas 6 faixas experimentais, a linguagem falada desintegra-se para tornar-se sons e a experiência semântica da leitura dos aforismos torna-se uma experiência cognitiva de outra ordem, gerando atmosferas que transcendem o verbal e integram-se à essência ciberxamânica da proposta do EP. Ouçam o EP nesse link: https://ciberpaje.bandcamp.com/album/holofraktaforismos

9 – Nas suas redes sociais e em alguns eventos virtuais recentes, você tornou públicos os acontecimentos envolvendo o falecimento de seu pai. Esse fato foi uma influência decisiva para seus novos EP e HQ? Se sim, você tenta ser fiel ao que houve, ou você se permitiu acrescentar elementos estéticos e filosóficos a partir de dados reais?

O falecimento de meu pai, Dimas Franco, vitimado pelo genocídio neofascista da Covid-19 no Brasil, foi um dos fatos mais trágicos de minha existência. Meu pai era meu mentor intelectual, meu melhor amigo e meu maior incentivador, sempre tive um amor declarado por ele e inclusive dedicando-lhe muitas de minhas obras. E com ele eu tinha minhas conversas filosóficas e metafísicas mais densas e profundas.

Como eu, sua visão sobre a espécie humana ia da percepção de nosso lado luminoso, da empatia e compaixão profunda, até as sombras do egoísmo e egolatria que resultaram na destruição gradativa da biosfera. Ele se emocionava de chorar com os atos nobres, mas se entristecia ao ver a crueldade humana. Ao perceber o crescimento do neofascismo no Brasil, que tomou nosso governo de assalto, ele dizia: “A humanidade não deu certo”, de uma forma melancólica. E ele acabou sendo vítima dessa banda podre humana.

Conversas de Belzebu com seu Pai Morto surgiu inicialmente do desejo de inserir de forma simbólica e iconográfica o arcano XV do Tarô, o diabo, no contexto de meu universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. Na narrativa, após o fim da espécie humana, essa criatura nasce de forma metafórica e onírica no crepúsculo pós-humano, em um planeta Terra desolado. A história coloca-o em diálogo – na verdade um monólogo – com seu pai morto, metáfora da humanidade.

Mas, como destaquei no início dessa resposta, a motivação mais profunda para a criação da série foi a perda trágica de meu maior interlocutor filosófico e amigo, meu amado pai Dimas. Durante décadas discutimos assuntos metafísicos e reflexões sobre a espécie humana, Gaia e seus destinos. Com seu desaparecimento, ao desejar conversar sobre esses temas sinto profunda vacuidade. A série é composta por 6 HQs de 11 páginas cada uma, somando 66 páginas, e sua criação utiliza princípios mágicos de transmutação e inspiração enteogênica.


10 – Você acredita que a história Conversas de Belzebu com seu Pai Morto e o EP de mesmo nome possam ser consideradas uma obra transmídia? (mesmo sabendo que essa história específica faz parte de um projeto maior)

A minha Aurora Pós-humana é composta essencialmente de obras transmídia, pois eu realizo HQs, HQtrônicas, contos, poemas, performances artísticas, animações, videoartes, videoclipes, instalações artísticas, esculturas, e álbuns musicais que trazem narrativas diferentes e novas, mas todas contextualizadas no universo ficcional mágicko transmídia da Aurora Pós-humana. Exploro suportes diversos para narrar histórias das múltiplas fases de meu universo.

Capa do EP Ciberpajé - Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, ouça-o neste link


Nesse contexto, tanto a HQ quanto o EP são obras transmídia pois inserem-se nas produções artísticas da Aurora Pós-humana! Mas se olharmos para elas como obras isoladas – o que não deve ser feito – podem ser consideradas como duas narrativas em suportes diferentes contando a mesma história no contexto transmídia da Aurora Pós-humana. O interessante é que são obras independentes – como todas as outras criações para a Aurora Pós-humana, mas neste caso possuem uma conexão inusitada – ainda inédita no universo ficcional – pois contam a mesma história!

Minha ideia era essa mesmo, pensar a narrativa em dois contextos diferentes, em um deles, o visual, eu teria o controle total dos resultados, no outro, eu abriria para a parceria com outro artista, nesse caso o musicista Alan Flexa, para que ele incorporasse também sua visão da história.


11 – Além de Conversas..., você tem outras HQs que dialogam ou convergem com seu trabalho musical?

Tenho muitas HQs que se conectam diretamente a obras minhas em outras mídias, mas não trazem a mesma história. Destaco o número 13 da revista Artlectos & Pós-humanos que traz 2 HQs: Lupus Diem, e Lupus Crepusculum, diretamente conectadas a 2 atos performáticos do Posthuman Tantra: Lupus Noctis e Quilombot Mantra, que por sua vez conectam-se diretamente a 3 EPs musicais do Projeto Ciberpajé: Lobo Infinito (parceria com Melek-tha, da França), Madrugada de Lilases Pedras Adornada (parceria com Nix's Eyes, de Brasília), e Loucos ou Deuses (parceria com Sábila Orbe, do Chile) e por sua vez esses EPs estão diretamente conectados a duas animações pioneiras no Brasil a utilizarem redes neurais e Neural Style Transfer: O Enterro dos Deuses (assista neste link), e (In)Finitum; finalmente estas animações conectam-se à HQescultura “O Sonho dos Deuses”.

Animação O Enterro dos Deuses, de Ciberpajé e C.N.S., assista neste link

Cartaz da animação (In)Finitum, de Ciberpajé, Amante da Heresia, Luiz Fers e C.N.S.

É fundamental destacar que todas essas obras são independentes e trazem narrativas inéditas, no entanto a conexão entre elas gera outra grande narrativa unindo então estes múltiplos suportes e linguagens: quadrinhos, performance, aforismos, ilustração (capas e encartes dos Eps), música, animação e escultura. Estes produtos artísticos específicos foram fruto de meu segundo pós-doutorado em artes realizado em 2019-2020 no Instituto de Artes da Unesp e intitulado Posthuman Tantra & Artlectos e Pós-Humanos: Processos Criativos Transmídia em Performance e Quadrinhos. Estou preparando um livro fruto dessa pesquisa.

12 – O músico Alan Flexa recebeu alguma orientação sua para seguir um tipo de arranjo musical ou de textura musical específica? Ele leu a HQ antes de compor?

Fiz questão de não passar a HQ para ele ler, não queria uma contaminação da visualidade na sonoridade neste caso, o que mais me interessava era a narrativa.

Passei o texto para Alan, dividindo-o em 4 atos – para gerar as faixas a partir das atmosferas suscitadas por esses atos, tive que pensar nesses blocos de texto que tivessem uma coerência intrínseca, pois na HQ – que tem 11 páginas – essa divisão não acontece. Alan Flexa é um grande musicista, a única coisa que falei para ele é que imaginava um clima de trilhas sonoras de filmes de terror e suspense das décadas de 70 e 80 como no clássico O Exorcista e nos filmes de John Carpenter.


Flexa decidiu por criar as atmosferas em sintetizadores e plug-ins, mas utilizou-se também de gravações analógicas de cordas e outros instrumentos para gerar efeitos sonoros. Ele conduziu os climas musicais a partir da entonação de minhas vozes pré-gravadas e do texto das faixas. Fiquei impactado ao ouvir o resultado, impressionado em perceber como Alan criou algo muito mais denso do que eu esperava.

Essas surpresas que às vezes tenho com o Projeto Musical Ciberpajé me fazem amar cada vez mais criar EPs com amigos e convidados, pois a base que estrutura o projeto é a liberdade criativa. Quando os musicistas podem ser eles mesmos – e só convido para parcerias pessoas que admiro como artistas e seres humanos – inevitavelmente surgirão grandes obras! Minha eterna gratidão ao Alan Flexa que tem sido um grande parceiro musical nesses anos de Projeto Ciberpajé e que tenho a sorte de ter como amigo, pois é um dos maiores musicistas do Brasil.


13 – Alan é realmente um músico e produtor sensacional. Você acha que as escolhas musicais, melódicas, de timbre e de arranjo dialogaram com os recursos visuais da sua HQ?

Eis o grande aspecto transcendente que está além e aquém das nossas perspectivas racionais. Quando fui reler o primeiro capítulo da HQ Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, tendo como condutor o EP musical de mesmo nome, eu tomei um susto! As obras fruídas juntas ganharam uma nova dimensão e força. Também achei incrível como a sonoridade dialoga diretamente com as sequências visuais amplificando sua atmosfera. Finalmente, encantei-me com o tempo das músicas e como ele introduz pausas sagazes na condução da leitura. Foi emocionante perceber a sinergia das obras em suportes diferentes.


14 – A HQ foi feita só por você, e o EP foi feito em parceria. Você acha que a parceria musical trouxe desdobramentos inesperados para o EP? Ou, apesar da parceria, você tem a mesma unidade estética e conceitual pensada em relação à HQ?

O Projeto musical Ciberpajé tem essa característica conceitual de grande força: as bandas e parceiros musicistas convidados têm liberdade total para criar as ambiências sonoras para os aforismos, por isso temos as mais diversas expressões musicais no projeto: rock, heavy metal, doom, black metal, new age, progressivo, noise, sludge, hardcore, dark ambient, dungeon synth, witch house, post rock, entre outros.

Como salientei escolho os convidados a partir de meus gostos musicais e minhas afinidades artísticas, inclusive você foi meu parceiro criativo em um dos EPs que gosto muito, o Aqualupus! A única coisa que peço aos parceiros criativos é que meus aforismos fiquem audíveis, mas mesmo esse pedido foi subvertido no EP Holofraktaforismos.

No caso de Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, eu ainda sugeri uma sonoridade para o grande Alan Flexa quando ele perguntou-me – já que é um musicista eclético com capacidade para trafegar por múltiplos estilos sempre com qualidade – mesmo assim o que ouvi no álbum surpreendeu-me muito, são múltiplas camadas e sutilezas sonoras que só podem ser captadas com um fone de ouvido profissional.

A unidade estética existente entre HQ e EP é o texto – o monólogo de Belzebu – que os conecta diretamente, o resto é uma nova perspectiva poética que se agrega ao conceito geral com a participação singular de Flexa.

Confiram no Youtube uma breve fala minha sobre a HQ e o EP Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto:


* Rafael Senra se define como “um escritor que desenha e canta”. Já lançou quatro discos (dois solo e dois com o projeto Alfa Serenar), além da graphic novel Balada Sideral (editora Bartlebee, 2014). Também pela Bartlebee, lançou o livro Dois Lados da Mesma Viagem em 2013. É professor de Literatura na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).