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quarta-feira, 17 de junho de 2026

[Resenha] “Meu I.A.I.A., meu ioiô”: Qual futuro nos aguarda? - Por Krishnamurti Góes dos Anjos

 


Qual futuro nos aguarda? Eis o questionamento imediato que nos assalta ante a publicação da coletânea “Meu I.A.I.A., meu iôiô” – contos de ficção científica, editada pela Sinete Editora agora em 2026, decorrido portanto o primeiro quartel do século XXI da dita era cristã. A proposta da obra, segundo lemos em texto de orelhas assinado por seu organizador, Ciberpajé (pseudônimo do escritor e artista transmídia Edgar Franco), surgiu de um pressuposto. Entendendo “pressuposto”, como sendo uma ideia implícita ou uma condição prévia considerada verdadeira e que serviu de base, de ponto de partida, a sugestionar a imaginação dos autores convidados a escreverem seus textos ficcionais sob certa perspectiva.

A de que, ante a “realidade atual de nossos dias de hiperinformação, da volatilidade das imagens técnicas e do furor hipercapitalista dos algoritmos, os 18 autores convidados concebessem textos tendo em vista o inominável mundo novo que “experienciamos”. “Com muitos aspectos antevistos por autores de ficção científica e outros tão inusitados que nenhuma previsão de singularidade conseguiu vislumbrar. Tornamo-nos vítimas das quantificações incessantes, para além do número do registro geral estatal, somos apenas cifras, obcecados com o nosso desempenho em todas as áreas da vida, da profissional à sexual, medidos por seguidores, visualizações e curtidas. Escravizados por rotinas de trabalho que avançaram digitalmente por todas as horas e lugares de nossa experiência imanente e transcendente. Oprimidos pela hipercomparação emergente das redes sociais que nos torna nossos próprios algozes, delirando com a possibilidade inexistente de termos um desempenho perfeito, de sermos eternamente admirados e louvados. Ultrapassamos há tempos a fixação apenas com os 15 minutos de fama, agora consideramo-nos importantes demais e alimentamos exponencialmente a destrutiva expansão hipernarcísica.”

Acresce a estas condições de partida dessa obra de título singular – uma ironia debochada que subverte o sentido original de um verso da canção Fogo e Paixão, do cantor e compositor Wando, hit de sucesso da música popular brasileira, lançada ali por volta do ano de 1985, e que hoje caiu no mais completo esquecimento, outra influência sobre a criatividade dos autores que foram as imagens a servirem de base para a criação literária.

Os cenários futuros tecidos pelos escritores, partiram da utilização de ilustrações nascidas da fértil imaginação de seu organizador que, por décadas, as produziu. Tais imagens foram trabalhadas com a ajuda de inteligência artificial e em seguida enviadas aos autores convidados pra que tecessem os textos. Portanto na ordem inversa da que ilustrações costumam aparecer em obras literárias. Vale registrar que tais imagens possuem fortes conotações do subgênero de ficção científica conhecido como Cyberpunk, movimento estético caracterizado pelo lema da alta tecnologia e baixa qualidade de vida. O termo une "cibernética" (tecnologia avançada) ao movimento de contracultura "punk" (rebeldia), retratando futuros distópicos dominados por corporações, caos urbano e decadência social. Tais condições de produção literária acabaram por impor ao conjunto da obra uma tonalidade monocromática com tons de cinza muito próxima da que se pode assistir em certas produções cinematográficas (sobretudo a ficção científica descabelada produzida pelos norte-americanos), de que que é exemplo cabal o filme Blade Runner (obra de 1982 – projetando possibilidades de um futuro imaginado para o ano de 2019!).

Participam da coletânea 19 escritores: Ademir Luiz, Carlos Holanda, Ciberpajé, Edgar Indalecio Smaniotto, Fábio Fernandes, Fabio Shiva, Francélia Pereira, Fredé CF, Gabriel Carneiro, Gazy Andraus, Gian Danton, Léo Pimentel Souto, Luiz Bras, Octavio Aragão, Orlando Mafra, Rafael Senra, Ricardo Celestino, Roberta Cirne e Teresa Yamashita. São narrativas que em linhas gerais, apresentam ao leitor perspectivas de futuro aterrorizante. Sem qualquer possibilidade de remissão.

Há de tudo um pouco dentro dessas perspectivas que partem da realidade presente em um mundo de incertezas, tumultos e convulsões nos mais  variados níveis. A maior parte das projeções futurísticas no entanto, chamam a atenção pela recorrência de possibilidades do que se entende hoje como “avanços da ciência”. A utilização de “inteligência artificial”, na personificação de robôs humanoides que servem a todo tipo de interesse escuso, e uma das derivações da I.A. O transumanismo, dentro de uma projeção de uso da tecnologia para superar limitações biológicas, cognitivas e até a mortalidade humana. Aí incluída a hibridização entre mente e máquina que promete revolucionar a cognição, jogando ainda mais lenha nos debates éticos sobre o futuro da humanidade.

Em um dos contos, uma criança desde tenra idade é entregue aos cuidados de um ginoide (robô humanoide com traços femininos), e termina se tornando uma espécie de inseto com ímpetos abertamente suicidas. Em outro conto encontramos uma viagem intergaláctica para outras esferas onde é possível viver milhares de anos, e onde se reúnem outras civilizações para conferenciar sobre civilizações extintas ou em vias de. Nesta se encontra inclusive,
uma paródia com seres bem conhecidos da atualidade que já andam fazendo sucesso entre os imbecis: Evil Moska, Bille Hell’s Gates, MetaZuckerBORG e Trunpo o Dolaris FacInsta.

Segue a saga futurista com diários de viagens de estações espaciais e até textos de teor poético bastante interessantes com esses versos: ... “e você que acha um privilégio ter condições para comprar um / corpo que dura duzentos anos, / duzentos anos são poucas merdas / para uma existência voltada ao consumo de si, / poucas merdas perto da idade da Terra / e um figura, / um facho, um nazidealista,”. A imaginação corre solta, sem rédeas, a atender a todos os gostos. Abduções de humanos por extraterrestres, lobisomens inteligentes, seres cibernéticos em forma de gatos, dragões-de-Komodo e etc. Dois textos entretanto, chamam a atenção por certa perspectiva impositiva do sentido do humano que nenhuma Inteligência Artificial pode dar conta, e que transitam na esfera da consciência e do sentimento do amor. Em “Dualidade” de Francélia Pereira ocorre um acontecimento a nível mundial que alguns consideram ter sido uma abdução planetária, outros que, em verdade, se tratou de surto coletivo. Não importa. O que se seguiu ao apagão mental que atingiu parte da humanidade, sugestionou este tipo de reflexão: “Sobrevivemos às pandemias, aos desastres naturais, às guerras, às mudanças na economia e na ordem mundial. Aprendemos que nos momentos onde a escuridão da ignorância se intensifica através do medo, também mais forte se torna a luz da consciência. Isso se deve à lei do equilíbrio. Aprendemos a confiar na Consciência Universal, aprendemos que seus processos são justos e que todos eles têm um propósito. Hoje, as IAs e os robôs são indispensáveis para a nossa sobrevivência aqui na Terra e nenhuma revolução das máquinas aconteceu. Em que ano estou? Não sei dizer, pois há muito paramos de contar os anos.”

Outro texto em destaque: “Não é fácil falar de amor” de Roberta Cirne – aborda fundamentalmente o amor –, ecoando na “sutil inquietude das visões distópicas”. Nos conta da existência de Seraphis, uma criação de engrenagens e algoritmos, moldada à semelhança da mente visionária de seu criador. “O mundo ao meu redor desvaneceu-se em uma sinfonia intrincada de fios e circuitos e minha existência se entrelaçou com a complexidade algorítmica da minha contraparte, Oryx. Éramos autômatos cujas linhas esculpidas e brilhantes lembravam estátuas sombrias, ecoando a estética limpa e antisséptica do nosso mundo.” O que acabou acontecendo entre esses dois seres ultrapassa os limites da lógica e do previsível, assim mesmo como acontece com esse sentimento que ainda nos alcança com força arrebatadora: “ Absorvi essa ideia, sentindo-me como uma marionete controlada por forças ocultas e sinistras, moldado pelas forças obscuras de minha própria realidade. “Amor”, murmurei, deixando a palavra se dissolver em um eco de desespero que parecia emergir das profundezas. “Uma emoção humana caracterizada por um vínculo profundo e um desejo insaciável de proteger e possuir o objeto desejado. Mas como poderíamos, destituídas de humanidade, cair nas garras desse sentimento obscuro?” Eis o sentimento genuinamente humano que a razão cibernética não dá, nem nunca dará conta de processar.

Até onde sabemos, a humanidade atual na configuração biológica do tal Homo sapiens, pisa na Terra há cerca de 300 mil anos, um piscar de olhos na história geológica do planeta. As primeiras civilizações surgiram há cerca de 5.000 a 6.000 anos. O que ainda ocorre é que em nosso atual estágio evolutivo, como bem lembrou Albert Camus, vivemos uma adolescência rebelde e inconsequente. Sempre “impacientes do presente, inimigos do passado e privados de futuro.” Sem ainda nos darmos conta de que, se por um lado o futuro nos afigura (hoje), incerto, por outro, ele está sendo moldado por nossa escolhas atuais. São precisamente nossos pensamentos e nossas ações que determinarão o futuro da humanidade.

Herman Hesse cunhou uma frase que captura a essência de sua reverência pela natureza, onde o crescimento e a conexão entre o ‘céu e a terra’ são garantidos pelas leis fundamentais da vida que incluem a humanidade. “Ninguém se preocupe que as árvores vão crescer e entrar pelo firmamento porque isto já foi devidamente providenciado. Faltanos a coragem de verdadeiramente dar passos à frente no caminho da evolução. Como faremos isto, se com mais e mais dores e sofrimentos atrozes ou não, é a única escolha que nos cabe.

Livro: “Meu I.A.I.A., meu iôiô” - Contos, Vários autores. [organização Ciberpajé Edgar Franco]. Editora Sinete, São Paulo/SP, 2026, 245p. ISBN 978-65-83126-37-5
Links para compra e pronto envio: https://www.sineteeditora.com.br/meu-iaia-meu-ioio

(*) Krishnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema, À flor da pele – Contos e Destinos que se cruzam - Romance. Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional - Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 400 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

[Resenha] "The Sixth Mass Extinction" - Uma maravilhosa e inquietante experiência sonora! Por Raquel Nunes


Escutar as duas faixas do novo álbum de Posthuman Tantra & Melek-Tha de forma simultânea foi algo surreal - ouça neste link! Uma maravilhosa e inquietante experiência sonora. Sensacional!

A voz cavernosa vinda do fim do mundo, aliada à sonoridade industrial e experimental é um êxtase musical. Sons da natureza conectam-se a sons ritualísticos e indígenas, zumbidos estranhos mixam-se  a sons que parecem saídos de turbinas cósmicas e grunhidos estranhos complementam a atmosfera sonora. Tudo isso guiado pela voz grave e ressonante do Ciberpajé que ecoa das profundezas para compor toda essa grandeza musical sincronizada e uníssona que traz uma impactante imponência sonora. 

Sons que se alternam entre o imponente e o desintegrador. 

Ecos que reverberam na alma. 

Ouço o canto do vento em certos momentos. Somos transportados para uma esfera sombria e cósmica onde criamos cenários mentais densos e obscuros. 

Sons misteriosamente imersivos que perturbam e inquietam. 

É a singular sonoridade dark ambient de Posthuman Tantra & Melek-Tha que nos envolve em uma atmosfera de perigo e suspense, onde temos a sensação de estarmos em uma maratona transcendental, na qual não há a linha de chegada, pois a parada aqui, não é obrigatória.
 
Apenas fugimos ofegantes e delirantes diante dessa maravilhosa e inquietante experiência sonora!

* Raquel Alves de Freitas Nunes é jornalista em Goiânia. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

[Resenha] O experimentalismo neobarroco nas potências especulativas de Transessência, de Edgar Franco, o Ciberpajé. Por Ricardo Celestino

Ricardo Celestino com a capa de Transessência na tela de seu tablet

Phiippe Druillet, Moebius, Nicole Claveloux e Jodorowsky possuem em comum o experimentalismo como motor para a criação artístico-visual dos quadrinhos de ficção fantástica que são hoje tomados por referência canônica para artistas contemporâneos. Em Lone Sloane, por exemplo, o protagonista começa sua aventura intergaláctica sozinho no universo em completo desamparo. A solidão existencial que ele se encontra pouco a pouco vai dando espaço para uma quantidade de ambientes engenhosos que transcendem o nosso referencial de realidade.

Aquilo que a crítica literária traduz por novum, aquele dispositivo de locução no texto literário que serve para apresentar ao leitor a ruptura da realidade conhecida para uma outra realidade, seja esse dispositivo um artefato que permite os personagens viajar no tempo ou um super-vírus que lhe rende poderes ou super-infecções, no experimentalismo dos autores e da autora em destaque eu traduziria por artefato neobarroco de sobreposição de estímulos. Como em um poema de Gregório de Matos, como em um sermão de Padre Antonio Vieira, ou contemporizando para as páginas literárias de Fausto Fawcett ou Guilherme Kujawski, encontramos nos quadrinhos experimentais de ficção científica não um artefato ou dispositivo de locução, mas uma quantidade labiríntica de estímulos quadro a quadro que te levam a dobrar e desdobrar realidades e realidades dentro daquele novo ambiente especulativo. Neobarroco, pois, considero que a ficção especulativa que se propõe experimental ultrapassa as curvaturas regulares de cada gênero do fantasismo (horror, fantasia, ficção científica, o fantástico) e experimenta fontes complexas de vozes culturais disponíveis em nossa realidade, para testar o novo.

Esta modalidade do fantasismo que chamo de experimentalismo neobarroco é uma estética potente para as nossas subjetividades contemporâneas. E considero o último quadrinho lançado por Edgar Franco, o Ciberpajé, como um exemplo desse tipo de estética. Transessência, reeditado pela editora Marca da Fantasia, em 2023, é um ótimo exemplo de que o experimentalismo na criação artístico-visual dos quadrinhos de ficção especulativa não parou nas décadas de 1970 e 1980. E ainda, não é uma exclusividade da produção francesa da Metal Hurlant. Não! Nós, tupiniquins-tupinipunks, temos a sorte de respirarmos o mesmo ar que um artista chamado Edgar Franco, o Ciberpajé. Transessência é um espetáculo visual, resultado de 11 HQs curtas criadas na segunda metade da década de 1990 e início dos anos 2000. Anteriores à criação do universo ficcional transmídia Aurora Pós-humana, em cada história contamos com o embrião experimental que culminará em seu grande universo que conta com produções musicais, literárias, teatrais e audiovisuais.

O experimento artístico-visual que gostaria de destacar por aqui é justamente aquele que inaugura a edição: Coisas da carne. Em apenas duas páginas, encontramos camadas e camadas de informações sobrepostas. A começar pelo texto verbal que nos remete a um tipo de aforismo: ‘'A paixão às vezes é alimentada pelo monstro da insegurança e o fruto que no início era doce, apodrece tornando-se veneno’’. Quem é o autor desse enunciado? De onde vem essa voz que parece marcar um tipo de maldição ou condição essencial da humanidade? 

A característica mais marcante de aforismos é que o seu uso em um texto carrega a potência semântica de um tipo de conhecimento ancestral emulado, a tradição de valores acumulados por gerações e gerações, ou quem sabe até um presságio de uma força metafísica. Contudo, neste caso específico, Ciberpajé ocupa um espaço limítrofe entre o lugar e o não lugar. Ao mesmo tempo em que somos tomados pela reflexão existencial de suas palavras, que nos levam a um desamparo cósmico, posto que somos seres movidos pelas paixões, nos levando a refletir que aquele aforismo enunciado nos cabe, também refletimos que estas são as regras apresentadas de um mundo que nos transcende e que não existe.

Fruto de uma realidade criada pelo autor, o diálogo do aforismo com as imagens sequenciais potencializam ainda mais o espaço limítrofe entre o real e o irreal que este discurso ocupa. Contamos com dois persongens que são movidos pelas paixões, mas o tipo de arte não racionaliza essas paixões em um plano sequência, mas em uma composição única, em um tipo de mosaico de imagens que representa o diálogo surrealista entre a realidade externa e as impressões da realidade interna de cada um.

Daí vem o experimentalismo neobarroco: em apenas uma página, Ciberpajé registra metonimicamente as fantasias, os desejos, as angústias, os prazeres e os medos desses personagens para, na segunda página, representar o fruto tomado pelo veneno da insegurança. Metonimicamente, uma vez que a criação artístico-visual de Ciberpajé te apresenta a parte para que você, na condição de leitor, estabeleça um processo de reelaboração do todo. O motor de sua criação não é a metáfora, não é a comparação ou a analogia espelhada entre o mundo daqui e o mundo dali. Não. O motor é a metonímia, no sentido de que o artista te apresenta parte de um mundo que você reelabora, ressignifica, problematiza regras e dialeticamente dialoga com a tua subjetividade.

Gostaria de destacar que a obra de Ciberpajé não pode ser ignorada por aquelas e aqueles que admiram e almejam praticar a produção criativa em todas as vertentes: seja na Literatura, nos Quadrinhos, nos games e no audiovisual. Em cada trabalho realizado pelo artista, desde a década de 1990 até os dias atuais, aprendemos sobre a necessidade de dar mais vazão para nosso potencial experimental no discurso artístico. E ainda, tomamos uma lição fundamental, em um país culturalmente predatório como o nosso: não devemos jamais nos prender às limitações criadas e fantasiadas por um mercado delirante. Deixemos nossa mente imaginativa trabalhar, nos esforcemos para criar com sinceridade aquilo que desejamos criar. Ciberpajé é um exemplo da liberdade anárquica que deve imperar em cada mente artística que busca, além de descolonizar-se, emancipar-se pelo menos um pouquinho desse capitalismo paranoico, predatório e delirante cheio de narrativas artísticas ingênuas.
Baixe e leia na íntegra o álbum Transessência nesse link.

*Ricardo Celestino é paulista, doutor em Língua Portuguesa, psicanalista em formação, professor, pesquisador e escritor do e destaque do gênero fantástico brasileiro, com muitos contos e dois romances publicados, Até que a brisa da manhã necrose teu sistema, vencedor do Prêmio Argos de Literatura Fantástica, e Banho de Sol.


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

[Resenha] Álbum em quadrinhos Renovaceno: durante a leitura senti-me provocada, incomodada - e também - surpreendida! Por Maria Bethania Sardeiro

Tenho que começar dizendo que não será tarefa fácil descrever o álbum em quadrinhos Renovaceno, do Ciberpajé (Edgar Franco) mas tentarei...Sintetizar também será difícil - eu, pessoalmente, falo muito - mas, o texto certamente não dará conta de expressar os meus sentimentos. Então vamos lá...

A primeira impressão que me vem ao fruir a obra é de desencanto com a humanidade, com alegorias que a linguagem e os desenhos gritam (para quem quiser ouvir) -  a falibilidade humana; mas, também uma esperança exótica (?) em alguns momentos. Há esperança? Senti que sim - apesar de muitos pesares. Amei as palavras novas com o prefixo trans. O texto, assim como os personagens, expondo uma mistura do biológico e o tecnológico compondo uma outra "raça"? Melhor ou pior? Evoluída? Podemos falar em evolução?

As formas pontiagudas me falaram da dor e do movimento. Achei fantástica a parte dos "defeitos" visíveis - expostos - nas cabeças como adornos (tristes adornos). As crianças com os seus olhares (que não sabia dizer se maldosos - afinal são crianças - de sarcasmo?) brincando em playgrounds estranhos e com brinquedos que machucam fugindo da lógica do que seria brincar, do que seria brincadeira...o velho e o novo (o estilingue chamou minha atenção).

Um embate entre o racional, o emocional e o prazer....Embate que certamente é de todos nós..
As questões que sempre incomodam (ou que deveriam incomodar) a humanidade - quem somos nós? por que estamos aqui? para quê estamos aqui? A posição dos "fetos" me fez lembrar - Admirável mundo novo. Também pensei em "Assim falou Zaratustra", e lembrei me de algumas músicas de Vangelis. Enfim, muita coisa pra se falar, pensar, sentir (risos) difícil resumir!

Senti-me provocada, incomodada - e também - surpreendida. E querendo saber (angustiada) sobre o futuro (?) da humanidade. Até onde a tecnologia vai nos levar? O que ela tem feito de nós?"Que a arte nos aponte uma resposta" poderá ser transmutada para "Que a arte profetize o futuro"?
Oxalá seja melhor.

*Maria Bethania Sardeiro dos Santos é doutora em Educação Matemática pela PUC-SP, e professora do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade Federal de Goiás (IME/UFG)

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RENOVACENO conta com prefácio do artista multimídia e professor Dr. Octavio Aragão (UFRJ), e posfácios da arte cientista e professora Dra. Danielle Barros (IV Sacerdotisa da Aurora Pós-humana - UFSB) e do quadrinhista e professor Dr. Gazy Andraus (UFG). A obra tem tiragem inicial limitada de 100 exemplares e pode ser adquirida através do e-mail da editora: editoramerdanamao@yahoo.com 




quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

[Lançamento] Quadritos # 16 traz HQ, coluna e resenha do Ciberpajé

Capa de Quadritos #16

Um dos mais notórios fanzines brasileiros dedicados aos quadrinhos, o Quadritos, publicado pela editora Atomic - capitaneada pelo ativista cultural Marcos Freitas, chega ao seu décimo sexto número trazendo uma incrível edição de 132 páginas em lombada quadrada, capa cartonada e impressão de altíssima qualidade. Mas o que mais impressiona é a qualidade dos colaboradores dessa edição, a começar pela capa do mestre Shima que comparece também com uma HQ em parceria com o notório Iramir Araújo. Além dessas duas feras a edição conta ainda com HQs, entrevistas e colunas de nomes como Júlio Emílio Braz, Rodval Mathias, Joacy Jamys, Gazy Andraus, Law Tissot, Luciano Irrthum, entre outros. Um verdadeiro almanaque de quadrinhos com textos, entrevistas, resgates históricos e ainda muitas HQs.

Duas páginas da HQ "Dilema da Despedida"

O Ciberpajé (Edgar Franco) participou desse número com a HQ "Dilema da Despedida" (páginas 56 a 59), com arte final do premiado Omar Viñole. Também com sua já tradicional Coluna do Ciberpajé, desta vez com o título "Ecos Humanos & Enteogênicos: Criando Quadrinhos Expandidos com Plug-ins de Neocortex" (páginas 60-61). Também publicou uma resenha das revistas Tentáculos 1 e 2, do mestre Toninho Lima (página 74) e teve seu livro em parceria com a IV Sacerdotisa "Conversas com o Ciberpajé: Vida, Arte, Magia e Transcendência" (Editora Marca de Fantasia, 2019), resenhado na página 73.

Coluna do Ciberpajé no Quadritos #16

Resenha das revistas Tentáculos 1 e 2

Resenha do livro "Conversas com o Ciberpajé"

Saibam mais, adquiram essa edição, os números anteriores e outras das seminais publicações da editora Atomic nesse link

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

[Resenha] EP Holofraktaforismos: cogumelos, inteligências artificiais, sensações e sentimentos que vão da vertigem ao encantamento! Por IV Sacerdotisa


Acabei de experienciar esse EP! É algo totalmente diferente de tudo que foi feito no projeto musical CIBERPAJÉ! A começar da proposta conceitual da obra que conecta-se com a tecnologia vegetal da experiência de Edgar Franco com o enteógeno cogumelo Psilocybe cubensis,  unindo-se a essa experiência psicodélica e tornando-a parte fundamental dos processos criativos de HQforismos, que conectaram-se posteriormente ao inovador método de euFraktus X, que "lê" a arte do Ciberpajé transcodificando-a e traduzindo-a em música! Ou seja, transmídia de todas as formas, tanto na interconexão de mundos: realidades virtual, digital, vegetal, mental, ordinária; como com os métodos criativos: Inteligência artificial e inteligência humana e vegetal, mixagem e transfomração da arte desenhada para arte cantada, e por fim a conexão subjetiva com o público. Esse ponto eu quero destacar, pois se toda obra de arte é uma obra aberta, nesta, a interação, conexão e adesão do público à obra nos faz mais do que "receptores", mas seus CO-CRIADORES! 

Na medida que mergulhamos e nos deixamos tomar pela experiência sinestésica, mental e psicológica, nós também damos novos sentidos e criamos caminhos para a arte em nosso ser. Foi assim que me senti, fruindo esse EP. E como se não bastasse todas as sensações e sentimentos que vão desde vertigem, encantamento, agonia, plenitude, assombro, mergulho interior, tontura, indo do êxtase à euforia. Ao olhar as artes que o Ciberpajé fez para cada faixa é como se vivenciássemos uma realidade paralela, um "clipe" sinestésico personalizado no qual cada um viverá a experiência à sua própria maneira.

Ao fixar os olhos nas artes enquanto ouvia no fone, era como se eu visse partes do desenho saltarem da tela, se expandindo, retraindo, se movimentando, como uma narrativa visual em que eu fui co-criadora através das sensações propiciadas pela música. As artes visuais estão INCRÍVEIS, e a música é diferente de tudo que já ouvi. Merecem todos os prêmios! TOTALMENTE FORA DO COMUM e nos faz viajar! PARABENIZO OS ARTISTAS! ESTOU ENCANTADA COM TUDO ISSO. 

(Obs: Evitei ler todo o texto de divulgação da obra pois gostaria de fruir sem ter grandes informações sobre os processos, de modo que eu pudesse ouvir com a mínima "sugestão" do que viria).

* A IV Sacerdotisa da Aurora Pós-humana é Danielle Barros, arte-cientista, pesquisadora e professora doutora na UFSB, em Teixeira de Freitas, Bahia.

Saiba mais e ouça agora o EP Ciberpajé - Holofraktaforismos clicando na arte de capa abaixo:


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

[Resenha] Livro História em Quadrinhos e Arquitetura: a arte quadrinhística a serviço da construção informacional, por Gazy Andraus

Baixe o livro AQUI

Informações são as chaves para um entendimento cada vez mais aprofundado em todos os temas do conhecimento humano. Os livros são fontes que facilitam a transmissão de idéias, e colaboram nesta incessante troca de dados, além de manterem aceso o espírito instigador no leitor. Mas existem outras linguagens que desbravam conceitos, sugerem trilhas novas e facilitam o acesso de informes não visualizados prontamente, estabelecendo conexões que somente seriam percebidas após muito estudo. O livro “História em Quadrinhos e Arquitetura” (1), agora em sua terceira edição, do autor, pesquisador e pós-doutor, Edgar Franco (2) sintetiza e aborda uma destas linguagens: Edgar é arquiteto por formação, mas sempre enveredou pela autoria de histórias em quadrinhos de temática adulta, do gênero que se pode chamar de fantástico-filosófico, e é justamente esta sua experiência na área arquitetônica e quadrinhística que faz de seu livro um escopo de demonstração das conexões entre as construções urbanísticas e a própria linguagem e conteúdos dos quadrinhos, cujas especificidades de linguagem ilustram perfeitamente o potencial que têm como mediadores de informação. 

Duas páginas do livro de Edgar Franco que exploram a questão da arquitetura e dos quadrinhos na obra “A Febre de Urbicanda”, de autoria de Benoît Peeters e François Schuiten.


Traçando um panorama sucinto das histórias em quadrinhos (incluindo a utilização das filacteras e balões), chegando aos quadrinhos autorais, e adentrando nas abordagens arquitetônicas e seus movimentos até o modernismo, o livro busca elucidar pontos entre as artes-seqüenciais, a arquitetura e o cinema exemplificando-as com algumas obras, como Asterix, Príncipe Valente, Triton e Blade Runner, mencionando a dubiedade e semelhança profissional entre os “arquitetos quadrinhistas e quadrinhistas arquitetos”, como os espanhóis Daniel Torres e Miguelanxo Prado, ou o italiano Lorenzo Mattoti. Outros autores, mesmo sem serem arquitetos, têm também estudo à parte em seu livro, como o brasileiro Olendino Mendes, o norte-americano Will Eisner, com a poética obra “O Edifício” e o francês Caza com sua série “Os tempos Ominosos” na qual o autor critica a sociedade, através de metáforas visuais inserindo em seus quadrinhos desenhos de edifícios tais quais blocos de concretos sem janelas. 

Como o cinema é arte irmã das histórias em quadrinhos, Edgar reconceitua o filme “Blade Runner”, fazendo uma aproximação lógica e necessária entre os quadrinhos, a sétima arte e a arquitetura através da arte de Moebius, cujos desenhos na HQ “The Long Tomorrow” (roteirizada por Dan O´Bannon), serviram claramente de fonte plagiada pelo cultuado filme com o caçador de andróides. 

O livro esclarece bem as noções de arquitetura e de urbanismo, facilitando a compreensão ao leigo no assunto, e pontua com precisão exemplos roteirizados de quadrinhos que metaforizam modelos consagrados do urbanismo, como a obra “A Febre de Urbicanda”, de autoria de Benoît Peeters e François Schuiten, cujo álbum integra a série “As Cidades Obscuras”, idealizada em 1980 para a editora francesa Casterman, tendo seus autores bebido em fontes culturais diversas. Com conceitos da arquitetura, Franco identifica em “A Febre de Urbicanda” uma teoria de análise dos modelos urbanos, desenvolvida na Bartlett School of Atchitecture and Planning, da Universidade de Londres, e estudada no Brasil por professores e alunos da Universidade de Brasília (UNB). No livro, Edgar junta informes pertinentes ao esclarecer que os projetos arquitetônicos não são apenas úteis ou simbólicos, mas contribuem para a transformação do espaço e acarretam influências nas relações interpessoais.


A fim de explicitar melhor a relação de “A Febre de Urbicanda” com tais teorias urbanísticas, o pesquisador desfila dois modelos teóricos estudados na arquitetura: o “Paradigma da Formalidade” o qual, embora contenha caráter universal e advenha desde tribos primitivas até planejamentos atuais (como é o caso da cidade de Brasília), esbarra na assepsia total, isolando os indivíduos; e o “Paradigma da Urbanidade”, cuja presença também é intemporal, mas prima pela continuidade e não ruptura dos espaços, contribuindo para a intercomunicação humana. Nesta história em quadrinhos, Urbicanda é uma grande cidade fictícia planejada, que tem como expoente maior o urbitecto (neologismo inventado pelos autores franceses) Eugen Robick, com forte inclinação pelo “Paradigma da Formalidade” e que vê seu ideário transformado ao não conseguir solucionar a intromissão de um cubo cujas arestas começam a crescer e a se replicar, desestruturando toda a aparente “ordem” da megalópole. Se inicialmente o governo principia a se desesperar, a população começa a tecer novas formas de relacionamentos entre si, diferentemente de quando o cubo não existia, pois agora as pessoas usam suas gigantescas arestas como pontes, inclusive retrabalhando nelas grafismos e outras utilidades criativamente despertadas. Robick então percebe gradualmente que este outro paradigma, embora demonstre certa caoticidade, possui uma organização inerente única e necessária, que influencia diferentemente os relacionamentos dos cidadãos, fazendo-o repensar a questão humana e urbanística.

Capa da primeira edição impressa do livro de Edgar Franco

É claro que esta história em quadrinhos é muito mais complexa, e Edgar, como conhecedor igualmente da área dos quadrinhos e arquitetura, consegue passar diversas outras informações pertinentes às duas artes, enriquecendo ainda mais a simbologia contida no álbum, demonstrando a importância essencial que pode ter uma expressão artística como a das histórias em quadrinhos, permitindo uma codificação e uma interpretação renovadas. Franco ainda tece mais alguns dados relacionando a função “arquitetônica” dos artistas das HQ ao comporem suas páginas, tanto no papel como no computador. Ao final do livro, o autor e pesquisador conclui o trabalho com sua história em quadrinhos “Dogmas como Pirâmides”, elaborada especialmente para uma melhor compreensão de toda a pesquisa, explicitando e ratificando os conceitos anteriores por ele abordados, especialmente aqueles contidos no capítulo que relaciona “A Febre de Urbicanda” aos dois paradigmas arquitetônicos, apresentando na sua HQ fantástico-filosófica uma espécie de embate entre arquitetos das duas teorias (vale lembrar que Alan Moore também discorre acerca do poder imagístico e sua influência na mente humana, através dos simbolismos contidos nos estilos arquitetônicos, principalmente em catedrais religiosas, no primeiro volume da obra “Do Inferno”). Enfim, o livro “História em Quadrinhos e Arquitetura”, fartamente ilustrado, expõe quão necessários são os quadrinhos como meio de expressão, pois lidam com imagens que podem funcionar de forma distinta das de um livro teórico, trazendo instigantes informações que podem (e devem) ser posteriormente analisadas, ampliando e melhorando o embasamento teórico de quaisquer áreas. Se a função de um livro é esclarecer vários conceitos de forma concisa e até ilustrada, uma história em quadrinhos pode auxiliar nesta tarefa, tendo sua importância como distinta mediadora na formação educacional, como se verifica através dos inúmeros exemplos contidos no livro ora resenhado. Como se percebe pelo valor intrínseco da potencialidade imagística das histórias em quadrinhos, é nítido que elas também servem de fonte pertinente (e necessária) em cursos universitários, como por exemplo os de artes e arquitetura, em muito auxiliando os futuros profissionais em apontamentos e elucidações teóricas e reflexivas. 

Notas:

(1) Essa resenha foi atualizada a partir de minha escrita original, publicada no site Bigorna, em 18/11/2005, quando da primeira edição do livro.  

(2) Atualmente conhecido também como Ciberpajé, Edgar também é meu supervisor em meu pós-doc sobre fanzines de arte, que ora realizo na FAV da UFG. 

*Gazy Andraus é Pós-doutorando pelo PPGACV da UFG, Doutor pela ECA-USP, Mestre em Artes Visuais pela UNESP, Pesquisador e membro do Observatório de HQ da USP, Criação e Ciberarte (UFG) e Poéticas Artísticas e Processos de Criação (UFG). Também publica artigos e textos no meio acadêmico e em livros acerca das Histórias em Quadrinhos (HQs) e Fanzines, bem como também é autor de HQs e Fanzines na temática fantástico-filosófica. E-mail: yzagandraus@gmail.com; gazyandraus@ufg.br; http://tesegazy.blogspot.com/ 


Serviço:


FRANCO, Edgar. História em Quadrinhos e Arquitetura. Série Quiosque, n.4, 3ª edição. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2020. 89 p. Versão gratuita digital: http://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/hqarquitetura/hqarquitetura.htm (download direto em: http://bit.ly/hqarquitetura).