segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

[Resenha] EP Ciberpajé - Ruído Roxo: reflexões sobre os ruídos que nos cercam, por Adaor Oliveira

Arte do Ciberpajé


No novo EP Ruído Roxo (ouça-o aqui) do Projeto Ciberpajé, que renova a parceria com o musicista Amyr Cantusio Jr., já logo no começo percebe-se algo suave, como uma canção de ninar, que segundos depois ganha extrema força e traz esse Ruído Roxo, ou melhor, vários ruídos. São os ruídos que nos cercam nesse momento negacionista em que vivemos, nesse momento anticiência, de apreço pelo senso comum e pelas desinformações vindas pelas correntes de notícias falsas do WhatsApp. Parece que o Brasil se tornou apenas ruídos, as vozes da ciência, da lógica, da filosofia, da arte, perderam espaço para ruídos que não dizem nada, só nos levam cada vez mais ao abismo da imbecilidade.

Já a faixa Poética Inexistência levou-me ao universo musical de Loreena McKennitt e ao pensamento existencialista de Sartre, pois o nosso não-existir, nossa finitude que nos leva aos braços da morte, ainda é algo incômodo na nossa sociedade judaico-cristã, que tem na vida eterna sua base fundamental. Ou seja, reprima seus sentimentos e desejos aqui e ganhe o céu para a eternidade. Bem ao estilo daquela frase de Caetano Veloso: o mau é bom e o bem, cruel.

Estilhaços e Peças traz a questão do tempo, algo que lembra Bachelard e Bergson, além da fluidez da escrita de Santo Agostinho, que também trata do tema. Na verdade, serve para lembrar-nos que o tempo não existe, que o instante não existe, que não há ontem e nem amanhã. O tempo horizontal e o tempo vertical não se conversam, não há diálogo entre eles. Pelo contrário, são completamente antagônicos, e é isso que gera grande parte das angústias humanas. Quem soube trabalhar essa questão com maestria foi Clarice Lispector, que prende o expectador com seu estilo único de dar ao tempo interno, psicológico, a importância que ele merece, mostrando o quanto ele destoa das horas marcadas pelo relógio.

Em Sigilo Mortal, as variáveis dos sons, dos ritmos, das melodias, mostram o quanto a morte é a mutação final do nosso corpo, que vai se decompondo muito rapidamente, mostrando o quanto não somos nada. Lembro-me de uma frase que eu sempre lia, quando ia a Uberaba, visitar o saudoso Chico Xavier: antes do orgulho, egoísmo e ambição, lembra-te que és pó.

E a batida mais rápida trazida por Nada Refinada Crueldade, aponta o quanto nosso ritmo está sempre acelerado, como corremos de um lado para outro, sem nem perceber ou se dar conta do quanto isso lembra a alienação dos meios de produção, como exemplificou Marx. Ou seja, não pensamos, apenas agimos mecanicamente. E sim, nossa crueldade uns com os outros só tem crescido, principalmente porque a população tem a chancela de um presidente que exalta a violência, que incita as pessoas a resolverem questões na base do feito e não do diálogo. Essa crueldade não é natural, ela é incentivada. Hannah Arendt mostrou que não existe natureza humana, que tudo é aprendido através de estímulos, e esses estímulos são apreendidos ou não.

E arte da capa, com suas simbologias mágicas e esotéricas, é o complemento perfeito para esses sons encantadores, que nos levam a viajar nos encantos da Nova Era. Enfim, essa é uma ótima maneira de começar a simbologia do ano novo.

*Adaor Oliveira é Filósofo e Educador

Ouça o EP Ciberpajé - Ruído Roxo clicando na arte original da capa abaixo:



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