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terça-feira, 5 de setembro de 2023

[Leia na Íntegra ] LITANIA TRANSUMANIMAL: Ciberpajé cria quadrinho poético-filosófico de super-herói em parceria com Oscar Suyama

O talentoso quadrinhista paulistano Oscar Suyama, após conhecer-me em um encontro marcado para a Livraria Cultura em São Paulo - no qual trocamos quadrinhos e muitas ideias sobre vida, arte e criação - interessou-se em criar uma HQ em parceria comigo na qual ele se inspiraria em meu Universo Ficional da Aurora Pós-Humana e no contexto simbólico de meu ideário como artista-magista.

Suyama é o criador do reconhecido super-herói brasileiro CORUJA NEGRA, com o qual tem realizado inúmeras HQs com o seu traço dinâmico e fluido que encantou-me de primeira. Eu nunca criei um roteiro para uma HQ de super-herói então achei desafiador fundirmos nossos universos, o da Aurora Pós-Humana com o do Coruja Negra, gerando algo inusitado, uma HQ poético-filosófica de super-herói!

Pois bem, Suyama aceito o desafio e produziu uma sequência de 5 páginas unindo o Coruja Negra ao contexto da Aurora Pós-Humana e trazendo para a narrativa o meu totem Lobo/Lobisomem Transumano. Acompanhei extasiado a geração das páginas, em uma velocidade grande, pois ele fez uma por dia, e ao vislumbrar a última página pronta, imediatamente - em um transe artístico - escrevi o roteiro-aforístico poético-filosófico que acompanha as páginas amplificando seu sentido e força. A conclusão de tudo aconteceu exatamente às 11:11 (onze horas e onze minutos) do dia 4 de setembro de 2023. Nada é por acaso!

O título da HQ é LITANIA TRANSUMANIMAL, na arte de capa Suyama homenageou minhas composições, minha obsessão com a simetria e meu traço repleto de arabescos, o que muito me emocionou! A experiência criativa foi tão rica para ambos que já imaginamos juntos uma HQ longa do Coruja Negra na Aurora Pós-Humana.

Agora confiram na íntegra a nossa primeira aventura poético-filosófica do Coruja Negra na Aurora Pós-Humana:










Minha imensa gratidão ao grande Oscar Suyama por essa incrível parceria. Confiram na sequência as fotos do mágicko encontro que gerou a HQ "Litania Transumanimal".






sexta-feira, 31 de março de 2023

[Veja como Foi] Ciberpajé no Podcast SEM FREIO: em live mais longa de sua vida o mago-artista revelou múltiplos aspectos de seu ideário e filosofia criativa de arte, magia e vida

 

Em noite instigante, com a presença de grandes amigos interagindo no chat, o Ciberpajé foi entrevistado no Podcast Sem Freio, capitaneado pelo artista e ativista cultural Dimitri Kozma. Confira a entrevista completa nesse link.


A conversa fruiu por múltiplos aspectos de sua filosofia de vida, a conexão que ele faz do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-Humana com sua magia de autotransmutação e inúmeros detalhes que compõem o seu ideário peculiar de existência. A live durou 5 horas e 15 minutos, e está online para ser acompanhada pelos interessados, que também podem assistir só os trechos que lhe interessarem a partir da criteriosa divisão de tópicos feita por Dimitri Kozma:

00:00 – Intro 10:00 – Início da carreira 26:00 – Fanzines 32:00 – Influências 39:00 – Visceral 44:00 – Críticas 47:30 – formado em arquitetura 52:00 – Comentários 56:00 – Música / Rock / Heavy metal, começou a tocar baixo 01:03:00 – Religião * 01:06:00 – Satanismo * 01:08:00 – Dogmas * 01:12:00 – Likes * 01:14:00 – Filme: Afogando em Números 01:15:00 – “Like no sexo” * 01:21:00 – Bom Jovi / Paixão é doença / Música define seu estado de espírito 01:35:00 – Como podemos lidar com uma sociedade tão moralista e dogmática? 01:41:00 – Alcool * 01:49:00 – Carros * 01:53:00 – Dogmas 02:02:00 – Pensamento censurado na Universidade / Substâncias Psicodélicas em Doutorado 02:11:00 – Mestre dos Quadrinhos 02:15:00 – Vegano 02:17:00 – Cogumelo 02:23:00 – Psicodélicos - Cogumelo versus Maconha 02:35:00 – Ayahuasca e outras substâncias 02:37:00 – Ritual de Presença / Escrita automática * 02:49:00 – Como fomentar o contato com a arte nesse cenário? 03:00:00 – Comentários 03:10:00 – Série Merli / Barcelona contra Turista 03:12:00 – Arte com Inteligência Artificial 03:21:00 – Inteligência Artificial e solução para humanidade * 03:27:00 – Arte com Rede Neural 03:30:00 – Catarse - Licanarquia: o Lobisomem clássico do mestre Toninho Lima encontra a Aurora Pós-humana de Ciberpajé 03:39:00 – Álbum BioCyberDrama, desenhado por Mozart Couto 03:58:00 – Comentários 04:14:00 – Heavy Metal 04:17:00 – Se arrepende de alguma coisa que fez? 04:24:00 – Nada é seu * 04:28:00 – Legado * 04:38:00 – Liberdade 04:43:00 – Transmutação em Ciberpajé 05:01:00 – Você já se sentiu abandonado? Houve algum momento em que você sentiu que não havia ninguém que te desse um apoio? Você se já se sentiu totalmente sozinho? Se sim, como lidou com isso? 05:14:00 – Encerramento


Palavras da artista psicodélica Nina Bruniero que acompanhou a live na íntegra:

"Salve salve Ciberpajé, foda a entrevista de ontem. Valeu mais que anos de terapia. Aquilo foi uma aula livre de arte e de como viver nessa sociedade narcisista. Disse e repito, você é um patrimônio cultural nacional vivo! Seu trabalho é de grande valor! Grande abraço psicodélico!"

Assista na íntegra o podcast nesse link ou reproduzido abaixo:






sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Premiação Nacional de Licanarquia é destaque no site e instagram da FAV/UFG



O site da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG) destacou a notícia da premiação do álbum Licanarquia - com roteiro do Ciberpajé (Edgar Franco) e arte de Toninho Lima - no "Prêmio Canal Milhas & Milhas da HQ  Independente 2023".

 Confira a matéria nesse link, ou no fac-símile abaixo.



Acesse a notícia no Instagram da FAV/UFG, abaixo fac-símiles das postagens.






segunda-feira, 15 de agosto de 2022

[Resenha] Álbum em quadrinhos LICANARQUIA: olhares latentes que adentram a alma e as entranhas com força descomunal! Por Raquel Alves de Freitas Nunes

Fazer resenhas quadrinhísticas é pra mim ainda um grande desafio. Inicio essa experiência com o intuito de romper essa barreira. Confesso que foi algo surpreendente, proporcionado pela análise do álbum em quadrinhos Licanarquia, com roteiro de Ciberpajé e arte de Toninho Lima, uma edição da Atomic Editora que teve financiamento coletivo pelo Catarse. Busquei entender um pouco do universo ficcional da "Aurora Pós-Humana" que engendra a obra e do mito do lobisomem. 

No livro percebe-se que o lobo e suas expressões se confundem com instintos humanísticos. Um  contexto fantasioso e futurístico onde a hegemonia é desfeita e abre-se espaço para a heterogênese através da evolução tecnológica das espécies. Aqui , natureza, humanos e outros seres cósmicos se unem em resposta à necessidade de transformação constante. 

Todo em preto e branco, as imagens que poderiam ser abstratas, se concretizam a partir da interpretação de onde a narrativa pode de fato nos conduzir. Enxergar as sombras e as mazelas. Revelar as futuras possibilidades. Os 04 capítulos intitulados com os seguintes temas:  a fome, a sede, o medo e o tudo, formam uma sequência instigante de necessidades e sensações. Luzes e sombras se apresentam aqui em perfeita simetria. Preferi aqui separar a descrição desses capítulos para melhor entendimento:

A FOME:  Neste capítulo percebe-se a procura pelo que alimenta a sua alma. Os olhos perseguem um cenário fantástico compostos por troncos secos, retorcidos, cactos e muita aridez. Tudo em preto em branco reforçando ainda mais o nosso poder de concentração nos detalhes dessa disputa pela sobrevivência das espécies. O lobo e o lobisomen  aqui buscam  sua presa de forma voraz. Começa aqui um desafio entre essas espécies.

A SEDE: É a realização dos seus instintos humanísticos. É a disputa pelo poder  mediante a conquista do objeto de  desejo e ao encontrá-la, protegê-la  dos perigos mundanos. Desperta-se aqui o aspecto mais humano através da bravura e da generosidade impulsionada pela amorosidade contemplativa.

O MEDO : O medo pode paralisar? Pode! Mas  também pode revelar a nobreza de espírito. A vontade de se transformar. Transfigurar. A tecnogenética como peça fundamental nesse processo. A ficção como aliada exponencial da transmutação do ser humano. Ser homem?Ser bicho?Tornar-se fera! O imaginário sai do ficcional e acaba sendo real. Rompe barreiras. Conceitos. Preceitos. Respeita a liberdade por parte de quem teme sua presença.

TUDO: O uivo da fera se apresenta aqui em sua máxima expressividade. O alcance do topo. Dono de mundo. Do universo. Do cosmos. O renascimento acontece a partir da libertação dessas espécies. A metamorfose da expansão da consciência é consolidada através de uma sequência de olhares latentes que adentram a alma e as entranhas  com força descomunal composta por uma belíssima e fascinante narrativa visual. 

Raquel Alves de Freitas Nunes - É apaixonada por arte e cultura e ativista cultural em Goiânia 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

[Festival Internacional] "The Wolf Copulating with the Forest": animação experimental inspirada em experiência psicodélica e criada em IAs pelo Ciberpajé é selecionada para o Festival Internacional de Cinema Randfilmfest, da Alemanha

A animação experimental "O Lobo Copulando com a Floresta",  inspirada em uma experiência visionária com a ingestão do enteógeno Ayahuasca e criada completamente em redes neurais e inteligências artificiais no contexto do Grupo de Pesquisa CRIA_CIBER (FAV/UFG), foi selecionada pela curadoria da nona edição do Randfilmfest - Festival Internacional de Cinema que acontecerá na cidade de Kassel, na Alemanha, entre os dias 15 e 18 de setembro de 2022.

"O Lobo Copulando com a Floresta" (The Wolf Copulating with the Forest) é uma animação experimental que integra uma série de 5 animações curtas todas inspiradas nas visões e sons experienciados pelo Ciberpajé em uma noite de lua cheia na natureza em uma roda sagrada de ingestão do enteógeno Ayahusca. A experiência, que durou cerca de 12 horas, envolveu a ingestão de 3 doses da substância em intervalos de cerca de 4 horas e produziu inúmeras visões e sensações que foram devidamente anotadas e relatadas em um caderno de anotações do Ciberpajé após a experiência. O resultando artístico inicial dessa experiência foi a história em quadrinhos NUASKA, publicada no álbum em quadrinhos Enteogênicos (Ciberpajé - Editora Criativo, 2019) com cinco páginas - cada uma trazendo uma das imagens/visões das 5 fases da experiência percebidas pelo artista, e o EP musical do projeto Posthuman Tantra também chamado NUASKA (ainda ínedito) com 5 faixas musicais que tentam recriar as sensações auditivas da experiência.


No momento o Ciberpajé está desenvolvendo o novo desdobramento artístico da experiência visionária, uma série de cinco animações experimentais criadas completamente com o auxílio de inteligências artificiais, utilizando os relatos escritos e rascunhos desenhados como base para a geração das sequências visuais que compõem as animações. As músicas utilizadas nas animações são as cinco faixas do EP Nuaska e cada uma delas representa uma das fases definidas pelo artista a partir de suas visões e sensações. A primeira animação a ser concluída foi "The Wolf Copulating with the Forest" (O Lobo Copulando com a Floresta), baseada na segunda fase da experiência e com 2 minutos de duração.  Nela a música e as imagens buscam traduzir poeticamente as sensações sonoras e visões desse momento específico da experiência.

"The Wolf Copulating with the Forest" tem direção, animação em rede neural e edição realizadas pelo Ciberpajé (a.k.a. Edgar Franco), música do Ciberpajé criada para seu projeto musical Posthuman Tantra com masterização de Alan Flexa no Estúdio Zarolho Records, em Macapá. A animação é uma produção do Grupo de Pesquisa Cria_Ciber (FAV/UFG), Goiânia, Brasil, 2022.

O Randfilmfest é um festival alemão dedicado a filmes fora do eixo e experimentais. Há nove anos, visitantes de todo o mundo vão a Kassel para experimentar uma programação com filmes de ruptura em uma atmosfera especial. Diretores e atores de destaque, performances fascinantes, uma seleção de filmes escolhida a dedo e discussões com o público que só existem no Randfilmfest.Os requisitos principais da curadoria do festival para a seleção dos filmes é que eles devem ser "estranhos, selvagems, e muito experimentais". O Ciberpajé e o Grupo de Pesquisa Cria_Ciber (FAV/UFG) estão honrados com a seleção para esse notório festival de cinema de ruptura! 


quinta-feira, 23 de junho de 2022

[Resenha] Álbum em quadrinhos Licanarquia, de Ciberpajé e Toninho Lima: a coragem do humano quando atende ao chamado do ser. Por Carla Fernandes

Carla Fernandes com seu exemplar de Licanarquia em mãos

Não consigo pensar em Licanarquia sem me lembrar um pouco da Metamorfose do Kafka, e o horror que assombra os humanos ao serem vistos como animais. Lembrar de sua natureza animal, é perder a condição de sua finalidade social, cujo objetivo é elevar-se ao topo de uma base estruturada em racionalização. O estado puro e natural do ser é visto como uma inadequação a ser superada para se atingir um fim.

É prazeroso ver na história para além desse conflito, a coragem do humano em seguir sendo incompreendido o seu caminho incomum, quando atende ao chamado do ser. O percurso por atender ao chamado e resgatar suas partes para se tornar íntegro, só se torna possível através do pulso selvagem que o torna parte do todo.

Licanarquia me faz lembrar o quão poderoso é nosso estado puro, esse estado que nada pretende superar porque em sua totalidade apenas resta a generosidade em cumprir o papel de ser humano.




* Carla Fernandes é arquite e artista

terça-feira, 21 de junho de 2022

[Resenha] Álbum em quadrinhos Licanarquia: um bravo brado retumbante e insurgente sobre o que nos separa cada vez mais da vida. Por Fredé CF

Fredé CF com seu exemplar de Licanarquia em mãos

Após um tempo de espera, que foi prolongado por intempéries e imprevistos ligados à dificuldade de produzir arte independente em um país que boicota estruturalmente (direta ou indiretamente) qualquer tentava de criação e difusão de obras autênticas, me chegou um pacote da Atomic Editora, confira o meu unboxing do pacote neste link.

Meus olhos brilharam, meu coração disparou e corri pra abrir a encomenda. Me deparei com um material incrível! Uma produção gráfica belíssima, caprichada e bem recheada de obras sensacionais, entre elas: a) uma edição impressa de “Licanarquia”; b) um livretoZine de HQforismos Mágickos do Ciberpajé intitulado “Uivos do Lobo Selvagem”; c) um outro livretoZine chamado “Criando Licanarquia”, que traz entrevistas com Toninho Lima e com o Ciberpajé sobre seus processos criativos da obra em questão, além de um texto que tece um panorama sobre a Aurora Pós-Humana e a deslumbrante FotoHQ “Naturae (capítulo 1 - O sonho dos deuses)”, feita com esculturas pelo Ciberpajé; d) um zine dobrável de HQforismos chamado de “Uivo” nº4; e) um marcador de página; f) um postal; g) um adesivo e; h) dois posters alucinantes.

Extasiado com tantos materiais incríveis de qualidade impecável, comecei a mergulhar na obra que une terror e ficção científica de maneira visceral.
 
Após ler e me admirar com os encartes que vieram anexos, adentrei a fruição da edição impressa de “Licanarquia”, que já na capa estampa uma bela arte de Toninho Lima colorizado em tons de azul, dourado e lilás por Edgar Franco com a utilização de experimentações psicodélicas com redes neurais, transcendendo, expandindo, transmutando e transportando a representação clássica do Lobisomem ao universo ficcional da Aurora Pós-Humana do Ciberpajé.

Antes do início do primeiro ato/capítulo intitulado “Fome”, há desenhos e rascunhos sombrios em preto e branco, negativos e positivos, expondo uma dualidade perspectívica angustiante intrínseca ao processo criativo exposto, o que me gerou certo suspense sobre o que iria enfrentar. As artes dos inícios dos capítulos são espelhamentos inquietantes, como um teste de Rorschach que você deve se submeter antes de adentrar aos meandros do que virá transformar sua mente. O olhar para si no espelho sombrio da humanidade. 

O tratamento das artes do Ciberpajé com redes neurais imputa uma psicodelia em preto e branco nessas aberturas de capítulos, o que, como um arauto do caos, nos convida a adentrar pelas texturas e camadas de seu universo ficcional.

O trabalho de contrastes, de luz e sombra, a mise-en-page, os enquadramentos, diagramação, o ritmo narrativo, expressões e onomatopeias nos fisga, pela imaginação articulada entre as sarjetas, para dentro do terreno inóspito e sombrio da narrativa. As entranhas da obra se expõem de maneira chocante já nas sequências iniciais, na ação das caças frenéticas narradas imageticamente pelo primeiro capítulo. A lua está cheia. Escancarada. Escarrada. O tom está dado. O ambiente adentrado. Não há mais volta. Fugir é pior. É impossível fugir de si mesmo. Só nos resta apreciar o inebriante instante fragmentado no breu iluminado pelo reflexo da luz que flui em refluxo pela lua e ascende o sangue jorrado de carniceiros cadáveres. Os limites entre a vida e a morte são glorificados e exaltados pelo expurgante uivo licanárquico.
 
“Quando o lobo uiva, não existe mais lobo, só o uivo”. Perseguição ou proteção? Deslocamento de expectativas, problemas de si mesmo lançados ao outro. Abdicação do poder de ser pleno, transferindo-o sob forma de aceitação ao outro. O outro não é o si. O que o outro vê não condiz com você. A culpa, o medo, a fúria, a hipocrisia e o ressentimento recalcado de uma sociedade fundada por padrões estéticos e morais que ignora suas sombras.
 
Dilaceramentos ciborgues surgem em uma tentativa de combater o domínio seco do binarismo tecnocrata. Binarismo esse provocado por si mesmo. Auto-sabotagem! Necessidade de adequação a ideais de luxo e felicidade fomentados pelo que há de mais bizarro e destrutivo. A repugnância servil de integrar uma sociedade hipercapitalista que se funda pela extração de recursos e geração de lixo e dejetos. Cada vez mais se tornam diluídas as fronteiras entre o carbono e o silício, o instintivo animal, visceral, natural, ancestral e os distúrbios de recalques e ressentimentos coletivos fomentados pelo medo de dar vazão aos sentimentos e emoções que nos caracterizam enquanto bicho. Vergonha. A vergonha deslocada pela moral. Cadáveres urbanos. Humanos. Vampiros socioambientais. Múmias e zumbis que decretam guerras com discursos sobre a paz. A única saída talvez seja o retorno ao ancestral. Animal.
 
Aos mistérios indecifráveis do Lobo, que indicam um mergulho no abismo desconfortante da alma, na loucura de querer viver o agora, dissociado de significações vazias impostas por vermes e fatos desfactualizados que não condizem com a essência do existir, do fruir, do integrar-se enquanto cosmos em uma completude que reside nas nuances de sua liberdade consigo mesmo.
 


O lobo torna-se enfim, contra tudo e contra todos, ele mesmo o que sempre foi, é e será. O Lobo! Desinstitucionalizado. Imprevisto. Impregnado de vida e cosmos. Em silêncio, suas garras e presas canídeas penetram a jugular da humanidade e incorporam a alma de Gaia, se hibridizando com aquilo que destoa dos padrões normativos e alienantes do mundo distópico social. Muito além do humano. Muito além da utopia. Muito além da vida. Muito além até da loucura. Nos cantos encantados, nas intersecções entre o tudo e o nada, reside a essência e o brilho do fogo reluzente do olhar ao luar, que guia o sonho do Lobo que um dia, fora de si mesmo, tentou ser homem. Pelo fogo se assistirá a derrocada da covardia humana em insistir em extinguir a vida cósmica em favor da morte técnica, pregada como “desenvolvimento” associado ao capital. O desamor da desconexão consigo mesmo. A eterna luta humana contra aquilo que se é.
 
“Licanarquia” surge como um bálsamo, um oásis, um alento, um lamento ou melhor dizendo, como um bravo brado retumbante e insurgente sobre o que nos separa cada vez mais da vida. Um rosnar sobre aquilo que nos aparta da essência animal, desconectando-nos de Gaia e tornando-nos carcinomas psicóticos que se espalham pelo planeta por projéteis mercadológicos seduzidos pela ganância de destruição em função de uma ideia torpe de progresso.
 
“Licanarquia” alerta à destruição de nós mesmos em função de um sistema sem vida. Uma autoaniquilação. Um suicidio coletivo que configura-se como cerne horrorífico da narrativa da obra. A saída é o mergulho solitário nas próprias sombras, assumindo-se como animal que, mesmo negando, ainda somos.
 
A obra me fez pensar bastante sobre transformações, movimentos, metamorfoses…mas não pra fora, pra dentro! A maior forma de fruir a vida pelo amor próprio de se tornar o que se é/está no agora, a única coisa que existe. O metAMORfosear por dentro. Os universos interiores que transbordam no que nos cerca. O sair da ilha pra poder ver a ilha, mas sair pra dentro, já que a ilha é de dentro pra fora. A exaltação da subjetividade, do amor próprio e da ciência de nada ser para então ser tudo. Deslocar-se daquilo que nos desloca de nós mesmos.
 
O monstro Lobisomem chama a atenção para olhar as sombras e a importância de compreender-nos como seres indecifráveis, indefiníveis, incontroláveis, permeados por nuances infindáveis de emoções e sensações que escapam de padrões impostos pela razão. Não seria essa a beleza da vida? As incoerências, as discordâncias, as “imperfeições” diante daquilo que tenta nos estabelecer e determinar como “perfeitos”. O que é ser perfeito? Perfeito pra quem? Perfeitos pra quê? Não somos produtos, absolutos, determinados. O que torna a existência mais deslumbrante é a diferença, a alquimia, a subjetividade, a unicidade, a magia de ser raro diante do tudo e, enfim, do nada ser. O mo(n)strar-se sincero, essencial. Essa raridade cósmica é deslumbrante e, ao mesmo tempo, reveladora sobre nossa insignificância frente a imensidão da existência infinita dos universos (internos e externos a cada um de nós). Somos instantes. Nós. A serem desatados. Passamos. Constantemente. Inexoravelmente. Por isso a importância de curtir essas passagens. A arte possibilita que essas passagens sejam mais sublimes e permeadas por transcendências dimensionais, como em “Licanarquia”.
 
A obra urge pela importante ideia de integrar-se ao planeta por inteiro (corpo, mente e espírito) como forma crucial, iconoclasta e visceral de combater e se desprender, no presente, das expectativas criadas, das (des)esperanças e, sobretudo, do doloroso horror do que se tornou ser humano.


*Fredé CF (a.k.a. Frederico Carvalho Felipe) é artista transmídia, criador do universo ficcional MekHanTropia, pesquisador, professor e doutorando no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da UFG, em Goiânia.

[Resenha] Licanarquia: um convite ao encontro da própria essência, um verdadeiro reencontro com seu eu selvagem em meio ao caos! Por Kesia Ramos

 


Licanarquia: da inadequação na ordem ao reencontro com seu eu selvagem em meio ao caos


Licanarquia é o álbum colaborativo entre Ciberpajé (Edgar Franco - roteiro) e Toninho Lima (desenhos), que foi financiado pela plataforma Catarse durante o ano de 2021 e recebebe o selo da Editora Atomic. A narrativa foi inspirada por uma viagem de Ciberpajé em direção à Ituiutaba, sua terra natal. Na estrada ele avistou um lobo-guará morto e isso o impactou. Impactou de tal forma que o resultado disso vai além de Licanarquia, é um aglomerado de narrativas de seu processo criativo (fanzines, entrevistas, anexos etc.) que proporcionou a imersão do leitor sobre a expectativa do recebimento do álbum e que culminou na experiência imagética da leitura deste.

Apesar da história ter sido elaborada tempos antes, eu considero que o processo de recepção da obra perpassa por uma estética relacional, onde leitores interagem de forma a criar narrativas outras, nas quais o Lobo retratado de forma autobiográfica pelos artistas não é mais o Ciberpajé. É aí que o artista entrega seu Eu para o mundo e o expectador sai do lugar de passividade a fim de transmutar o tema apresentado, passando a compor a obra. O lobo trata-se na verdade de uma persona presente no mais íntimo de cada um daqueles que se atrevem a adentrar no mundo da Aurora Pós-Humana.

Cabe dizer, que os anexos são parte importante por rememorarem aspectos formativos e evolutivos de Ciberpajé como artista, e isso ajuda a compreensão por parte do leitor iniciante de suas obras até o mais assíduo. O álbum possui mais imagens do que textos, talvez numa tentativa de expressão máxima de conexão entre visualidades e código (e porque não desenhista e roteirista).

Ao ler essa história fui invadida pelos sentimentos de melancolia e angústia mixados com real necessidade de renovação pessoal. Para além da transmutação eu percebi que é necessário um ato mágico, criativo para que a esperança e a vida tenham um propósito singular que subverta a ordem vigente que dita a cada indivíduo como ele deve se sentir, se apresentar ao mundo, se vestir, falar, pensar, agir, trabalhar, ser etc. e tantas outras categorias cujo único propósito é promover a inadequação, a segregação e a exclusão social. Essas categorias ditam espaços, determinam quem os ocupa e banalizam o diferente.

Durante a leitura de Licanarquia você irá encontrar as seguintes partições: fome, sede e medo. Cada um desses elementos compõe a vida tanto daqueles que estão aprisionados ao sistema quanto aos que já assumiram seu rompimento com ele. O que difere então a fome, a sede e o medo de uma pessoa que se acomodou com a ordem para aquela que reencontrou seu eu selvagem? Acredito que a resposta para esta pergunta está contida nas páginas 44 e 48 (ver imagens abaixo). Nela vejo que a resposta perpassa o abandono dos velhos hábitos, a dor da perda na reconciliação com o passado e o presente, e o rompimento com a angústia sobre o futuro, bem como a necessidade animalesca e primitiva da fome de si e do mundo. Por fim, uma renúncia à normatividade de uma prisão mental já cômoda de apenas habitar o mundo e não o perceber em suas potencialidades.

Licanarquia é um convite a encarar esse processo num rasgar-se em si mesmo ao encontro da própria natureza, da própria essência, um verdadeiro reencontro com seu eu selvagem em meio ao caos.

Quadrinho da página 44 de Licanarquia

Quadrinho da página 48 de Licanarquia

KESIA RAMOS é  artista, zineira, professora de Artes Visuais e Mestranda em Artes.