segunda-feira, 19 de julho de 2021

[Entrevista] Ciberpajé fala das obras artísticas pandêmicas "Conversas de Belzebu com seu Pai Morto" (HQ e EP) ao artista e pesquisador doutor Rafael Senra



Em julho de 2021, Edgar Franco – também conhecido como Ciberpajé – lançou uma HQ e um EP musical com o mesmo nome. Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto faz referência tanto ao disco gravado em parceria com o músico e produtor Alan Flexa (e lançado pela Lunare Music - ouça-o aqui) quanto à HQ de 11 páginas que saiu na revista Atomic Magazine 1 (adquira a revista neste link).

Tive a honra de ouvir o disco e ler a HQ, e fiquei intrigado com a existência dessas duas obras, que parecem contar a mesma narrativa em mídias diferentes. O deleite que tive com a apreciação de ambas acabou levando a um bate papo fantástico com Edgar, reproduzido logo abaixo. Tentei fazer com que as perguntas orbitassem entre tópicos relacionados as duas versões de “Conversas”..., e também às características transmidiáticas de sua obra. Além da honra de ter feito essa entrevista, pude também esclarecer diversas dúvidas antigas a respeito do processo de criação desse fabuloso multiartista.

Nossa prosa segue abaixo, e espero que gostem! Boa leitura!


1 – Em um início de entrevista, pede-se para que a pessoa se apresente, e eu farei isso com uma pergunta talvez inusitada para começar. Lá vai: você se considera mais um artista transmidiático, visual, ou um autor de quadrinhos?

Sem dúvidas sou um artista transmídia e me nomeio assim já há uns 10 anos, antes do termo transmídia tornar-se uma moda – inclusive utilizado de forma errada na maioria das vezes.

Eu comecei minha trajetória artística como ilustrador e quadrinhista com 12 anos de idade, e já nessa época também escrevia poesias compulsivamente, o que me levou a conectar minha expressão poética aos meus quadrinhos gerando o que vim a chamar posteriormente de “Quadrinhos poético-filosóficos”, um gênero genuinamente brasileiro de quadrinhos do qual sou um dos pioneiros e que tem sido estudado por muitos pesquisadores, já merecendo inclusive uma coleção de livros acadêmicos dedicada a ele A Coleção Quadrinhos Poético-filosóficos editada pela Marca de Fantasia e já com 11 títulos, sendo 3 deles de minha autoria (2 em parceria com a pesquisadora de minha obra IV Sacerdotisa Danielle Barros) e outros 4 dedicados a analisar minhas criações.

Então, em certa medida tornei-me mais conhecido por meus quadrinhos, no princípio, mas já era musicista desde os 16 anos, quando influenciado pelo heavy metal iniciei tocando baixo em bandas de minha cidade natal, e mais tarde criei o projeto musical Maldoror, e participei da banda Essence (que tinha em suas fileiras outro quadrinhista poético-filosófico, o Gazy Andraus). Vim a consolidar minha atuação como musicista quando retomei os estudos musicais em 1999, interessado em criar as trilhas sonoras para minhas HQtrônicas – durante a minha pesquisa de mestrado em multimeios na Unicamp, e passei a criar faixas a partir de sintetizadores e plug-ins digitais.

Isto culminou em 2004 na criação do projeto musical Posthuman Tantra – já no contexto do universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana e durante meu doutorado em artes na USP. A partir deste momento, em que eu seguia criando quadrinhos, HQtrônicas e poesias/aforismos, a música passou a integrar de forma consistente a minha produção artística, e a recepção ao meu trabalho musical com o Posthuman Tantra extrapolou de longe minhas expectativas, tendo o primeiro CD demo - Pissing Nanorobots - sido muito bem recebido na Europa com resenhas elogiosas. Isso permitiu-me estabelecer contato com inúmeros musicistas e gravadoras do exterior, culminando nos contratos que assinei com a gravadora Suíça Legatus Records, que lançou dois discos do Posthuman Tantra, e com a gravadora inglesa 412Recordings, que lançou 4 discos e um tributo ao Posthuman Tantra.

Arte de capa do CD "Pissing Nanorobots", do Posthuman Tantra (2004) 


Meus quadrinhos, apesar de terem sido publicados em algumas edições independentes no exterior, não tinham um respaldo expressivo por lá, já o Posthuman Tantra abriu o leque de possibilidades e conexões nos cinco continentes. Isto levou-me naturalmente para os palcos, mas eu não queria só fazer apresentações musicais ao vivo tocando e cantando, queria uma experiência audiovisual para quem fosse assistir ao Posthuman Tantra, transformando então cada música em um ato performático que conta uma história no contexto da Aurora Pós-humana e inclui efeitos visuais de mágica eletrônica, realidade aumentada (fomos os pioneiros no Brasil a usar o recurso em shows), interação com vídeo, figurinos especiais, e obviamente a one-man-band no estúdio, para as performances tornou-se um grupo com vários integrantes do meu grupo de pesquisa Cria_Ciber (FAV/UFG), incluindo orientandos meus de iniciação científica, mestrado e doutorado, no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual.

Ciberpajé performando com o Posthuman Tantra

Desde então a performance passou a fazer parte do rol de minhas expressões – já performei ao vivo em 4 regiões do Brasil, e somando agora com os festivais on-line são mais de 50 apresentações performáticas realizadas. O aspecto performático trouxe consigo a criação de videoclipes e videoartes, games, web arte, instalações artísticas interativas e finalmente de animações. Atualmente minha produção artística se dá em todas essas linguagens e suportes, mas tem como ponto de convergência o meu universo ficcional transmídia da Aurora Pós-humana.


2 – Em paralelo à sua carreira artística, você é professor de artes na UFG. Existe uma convergência entre as atividades que você desenvolve como pesquisador, docente e entre seus projetos artísticos?

Eu estabeleci uma estratégia para conectar diretamente todas as minhas criações artísticas e minha atuação como docente e pesquisador. A primeira atitude foi migrar para a pesquisa em artes – sou graduado em arquitetura e urbanismo pela UnB – e realizar mestrado e doutorado na área, com pesquisas ligadas diretamente ao que faço como artista.

Assim, fiz o mestrado em multimeios na Unicamp com a pesquisa pioneira sobre os quadrinhos no contexto digital da hipermídia, o que gerou o livro HQtrônicas: do Suporte Papel à Rede Internet – uma obra de referência no Brasil para quem vai estudar o assunto, mas a pesquisa teórica foi acompanhada por uma produção criativa como quadrinhista, desenvolvendo minhas primeiras HQtrônicas que foram encartadas no CD-Rom que acompanha as duas edições do livro. Essas HQtrônicas: Neomaso Prometeu, e Ariadne e o Labirinto Pós-humano, já são ambientadas no universo ficcional da Aurora BioCyberTecnológica, que posteriormente – no meu doutorado - foi chamada de Aurora Pós-humana.

Pois bem, no doutorado em artes na USP fui estudar o fenômeno pós-humano e a parte artística da tese envolvia o aprimoramento da Aurora Pós-humana já como um universo transmídia suscitando criações musicais, de quadrinhos, uma obra interativa de web arte, e HQtrônicas. Desde então já situei-me como artista transmídia e passei a buscar minha entrada em uma universidade pública onde eu pudesse continuar minhas pesquisas e criações artísticas neste campo, com enfoque nos processos criativos e nas poéticas artísticas.

Ciberpajé com o álbum em quadrinhos BioCyberDrama Saga, parceria com Mozart Couto. Uma das obras emblemáticas da Aurora Pós-humana

Esse desejo consolidou-se quando passei no concurso para professor adjunto na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, e já de imediato tornei-me docente do Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual, na linha de pesquisa Poéticas Artísticas e Processos de Criação, onde criei o grupo de pesquisa Cria_Ciber. Com isso consegui conectar diretamente minha produção artística transmídia à minha carreira como docente e pesquisador, pois toda essa produção entra diretamente no Currículo Lattes e recebe um qualis da área de artes.

Na faculdade de artes visuais eu leciono disciplinas teórico-práticas diretamente relacionadas com minhas criações, sendo elas Arte e Tecnologia, e Histórias em Quadrinhos de Autor. Amo estar na universidade pois isso sempre me dá mais energia e entusiasmo para criar ao tomar contato com tantas pesquisas incríveis, principalmente de meus orientandos. Nos 13 anos que atuo na pós já formei 15 mestres, 6 doutores e 2 pós-doutores, além de ter orientado dezenas de TCCs e iniciações científicas. Devo todas essas oportunidades ao ensino público e de qualidade das universidades federais e estaduais pelas quais passei e que foram fundamentais para minha formação e crescimento profissional. Sigo como ferrenho defensor da universidade pública, gratuita e de qualidade!


3 – Vamos entrar agora nas perguntas sobre seus quadrinhos. Eu fiquei curioso sobre sua técnica que utiliza IA (inteligência artificial) para dar um outro tipo de textura ao trabalho. Como funciona?

Trata-se do uso de redes neurais para aplicação de texturas em imagens e os algoritmos dessas redes neurais são chamados de Neural Style Transfer, é uma técnologia em franca expansão. Comecei a utilizar essa técnica há 4 anos, e como qualquer outra técnica/tecnologia, através de inúmeros experimentos – 90% descartados - fui aprendendo como dialogar com as IAs a partir de minhas buscas estéticas para as artes. A técnica consiste na mixagem de uma imagem a outra, sendo que a segunda imagem entrará com a textura (e se for desejado a colorização da primeira) que se aplicará à primeira.

Página de abertura da HQ na revista Atomic Magazine #1


Busco texturas através de minhas fotos de elementos da natureza e outras artes e desenhos previamente criados por mim. Vou estudando os resultados, até chegar em um que me satisfaça. Para a HQ Conversas de Belzebu com seu pai morto, eu buscava texturas de enraizamentos em tons sépias outonais que reforçassem a ideia de ocaso trazida pela narrativa, depois de dezenas de experimentos cheguei a algo que agradou-me. É importante dizer que todos os desenhos da HQ foram realizados previamente com técnica de grafite sobre papel, inclusive com sombreamento em lápis 6B, o que a rede neural acrescentou nesse caso foram as texturas e tonalidades de cor.


4 – Na página 5 da HQ, o desenho das raízes da árvore tem ao lado imagens do que parecem ser folhas secas de uma árvore. Essas folhas parecem reais! Elas são colagens, ou também foram geradas pela técnica dos “desenhos + IA”?

Você é mesmo detalhista e observador! Nesse caso a IA não fez magia não – até porque não faz mesmo, é só mais um recurso como pincel e tinta e softwares gráficos. Ali são folhas de uma árvore de meu jardim que eu colei sobre o desenho a grafite antes de aplicar as texturas finais. Faz parte de meus múltiplos experimentos gráficos recentes, os outros capítulos da HQ que estão em processo trazem diversos experimentos visuais unindo desenho, objetos, fotos e aplicação de texturas em redes neurais.

Arte colorida do Ciberpajé para a contracapa da revista Atomic Magazine #1

5 – Você começou sua carreira produzindo no método, digamos, “analógico” (papel, lápis, nanquim), e, de uns anos para cá, você tem se valido da tecnologia digital para trazer novas dimensões de layout para seus trabalhos. Essa mesma tecnologia digital integra seus trabalhos musicais. Diante disso, vem a pergunta: qual sua relação filosófica e poética com o mundo digital? No conceito da “Aurora Pós-Humana”, a tecnologia digital ocupa um papel?

Sigo um apaixonado pelo desenho em suporte papel, inclusive todas as minhas artes nascem primeiro no papel e só depois digitalizo. Nunca me acostumei com as mesas digitalizadoras, gosto mesmo é de desenhar no papel, e sigo criando HQs também praticamente sem recursos digitais, como na minha revista anual Artlectos & Pós-humanos (Marca de Fantasia), já com 13 números publicados.

Capa da revista em quadrinhos Artlectos & Pós-humanos #13

Inclusive durante meu recente pós-doutorado em artes na Unesp realizei – pela primeira vez – uma experiência muito instigante, criei um álbum em quadrinhos feito totalmente a partir de esculturas criadas por mim, foi desafiador, esculpir personagens e criar cenários, também trabalhar a iluminação para gerar as fotografias das sequências, o álbum tem 60 páginas e chama-se O Sonho dos Deuses, ainda não foi publicado.
Página do álbum em quadrinhos "O Sonho dos Deuses" (no prelo)

Mas, como já destaquei, encontrei nesses 4 anos recentes uma possibilidade nova e que comecei a experimentar e gostar dos resultados plásticos e estéticos e só agora estou me aventurando a criar HQs agregando esses recursos de redes neurais, até então estava usando só para ilustrações. Devo dizer que as IAs ainda são muito limitadas, usam estratégias para irem aprendendo lentamente o que desejamos, então não existe nenhuma mágica no processo. É algo que demanda tempo para ir entendendo como o algoritmo funciona, é como aprender uma técnica de pintura.

Tenho visto essas técnicas serem utilizadas para o mal, criando deep fakes que possibilitam a difusão de fake news, ou também para o mundo do entretenimento insosso, mas podemos subverter – em certa medida – as suas destinações e utilizá-las para criar arte. Penso ser uma atitude ciberpunk subverter essas tecnologias para criação de arte autoral underground.

Quanto à tecnologia digital como um todo, tenho algumas restrições gerais à superexposição humana à linguagem binária que em seu cerne é indutora de extremos – pois sua base é o sim ou o não, o zero ou o um, a dicotomia, os extremos. Por isso creio na necessária evolução de uma computação quântica que dê um salto em relação ao atual binarismo dessa linguagem.

Também tenho restrições aos algoritmos das redes sociais baseados no aspecto obscuro da psicologia de Skinner e Pavlov, ou seja, estímulos negativos produzem muito mais engajamento do que os positivos. Mas tanto na música quanto na arte visual utilizo-me das ferramentas que acredito poderem amplificar as intenções poéticas e estéticas de minhas obras, venham elas de onde vierem.

Na música utilizo muitos sons analógicos que são remodulados digitalmente para gerarem outras sonoridades, e uso também sintetizadores e plug-ins digitais de simulação de instrumentos – nesse caso são recursos que me permitem criar sons que não poderiam ser criados por mim, pois não teria como comprar um órgão, por exemplo.

Em um caso específico criei, em parceria com o musicista Eufrásio Prates, um EP musical que utiliza a IA do Google para gerar todos os sons finais. Eufrásio é um grande conhecedor de música e redes neurais e criou as faixas de nosso EP Holofraktaforismos todas a partir de minha voz remodelada na IA do Google, é um experimento muito forte e que surpreendeu-me!

Na Aurora Pós-humana, no auge do universo ficcional, o digital ainda tem grande força, incluindo entidades abiológicas como os Digigods – grandes IAs que controlam a rede Internet futura, e alguns seres humanos já nem existem em corpos biológicos, tornando-se extropianos avançados – blocos de informação e consciência capturados de seus sistemas nervosos e que vivem no digital. Como sempre, utilizo tais estratégias para refletir sobre nossa relação atual com as tecnologias, a humanidade e a biosfera, realizando o “deslocamento conceitual” proposto por P.K.Dick. “Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto” é uma HQ sobre o presente, mas que está situada no ocaso pós-humanista da Aurora Pós-humana, no qual amplifico muito o cenário catastrófico atual.


6 – Excelente resposta. Nunca tinha pensado nessa relação entre os códigos binários e o extremismo que tem crescido no mundo contemporâneo. É uma constatação filosófica feita a partir de uma dinâmica tecnológica totalmente presente em nosso cotidiano. Permita-me então aprofundar o raciocínio em uma nova pergunta: você acha que o digital veio para superar o analógico?

Enquanto formos seres atávicos e compostos por matéria de base carbônica, criaturas encarnadas, o analógico, o material, o substancial, continuarão tendo um profundo sentido existencial para nossa espécie. Nossa própria forma de obtenção de energia é através da trituração de matéria de base orgânica, somos organismos que dependem de outros organismos. Percebo que conhecemos muito pouco ainda da complexidade do que somos para simplesmente abandonarmos a dimensão material da existência humana, pois os múltiplos campos energéticos e as ressonâncias morfogenéticas que nos compõem seguem sendo grandes e profundos mistérios que algumas filosofias transcendentes e a física quântica mal arranharam. O digital é só mais uma fase de transição comunicacional e de nossa experiência, outras virão se não nos autodestruirmos antes, mas o analógico seguirá conosco por eras ainda.


7 – Gostaria de saber agora um pouco da sua carreira musical. Me impressiona o tamanho da sua discografia! Você sabe de cabeça quantos EPs já lançou? Me fale um pouco sobre sua faceta musical.

A discografia do Posthuman Tantra é bem grande, tenho um home estúdio onde gravo todas as faixas e as mixo, só a masterização que é feita por outros. E como trata-se de uma one-man-band isso facilita muito as coisas no que condiz ao tempo para criar e gravar. O Posthuman Tantra nasceu em 2004, portanto é uma banda já com 17 anos de existência.

Neste tempo foram lançados 2 álbuns oficiais em CD pela gravadora Legatus Records (Suíça), 3 CDs, 2 Split CDs e o tributo ao Posthuman Tantra pela 412Recordings (Inglaterra), um CD pela Terceiro Mundo Chaos Records (Brasil), um Split CD pela Anaites Records (Brasil), e 2 EPs pela Sonoros Records (Brasil), e outros 4 EPs por gravadoras de países como Itália, França e Suécia.

Arte de capa do Ciberpajé para o CD do Posthuman Tantra - Neocortex Plug-in (2007), lançado na Suíça pela Legatus Records

Vale destacar também as 7 Boxes somando ao todo 15 CDs lançadas na França em parceria com a lendária banda de death ambient Melek-tha, além da participações em mais de 40 coletâneas dos 5 continentes do planeta – pelo menos 20 delas com faixas inéditas – e um split CD lançado no japão pela Sabbathid Records.

Fiz uma conta esses dias e são mais de 30 horas de música do Posthuman Tantra já criadas em seus 17 anos de existência. Acaba de ser lançado o novo split da banda, desta vez uma parceria com a Alice Psicodélica, pela gravadora Depressive Noise Records, incluindo uma versão física limitada em uma box muito especial. Nesse split as músicas do Posthuman Tantra são totalmente analógicas e gravadas com instrumentos inusitados como berimbau de boca, udo, e apitos indígenas. A banda tem essa característica experimental que irrita alguns fãs mais conectados com minhas músicas no estilo dark ambient, pois não tenho amarras de estilo para criar os sons. Neste novo split – chamado Lucha (ouça-o aqui) - as faixas têm influências de mantras, de música de monastérios e do grande Daminhão Experiença!

Arte de capa do Ciberpajé para o Split CD "Lucha", do Posthuman Tantra e Alice Psicodélica, ouça-o neste link

Já no Projeto Musical Ciberpajé, que nasceu em 2014, em 7 anos foram editados 36 EPs e 1 CD, com participação de musicistas das 5 regiões do Brasil e dos países: Chile, França, Colômbia, Suíça, Inglaterra e Canadá. Esses EPs e o CD podem todos ser ouvidos no Bandcamp do projeto.

Também destaco minhas participações em mais de 30 álbuns musicais de amigos musicistas. Enquanto eu tiver energia criativa, e espero que isso aconteça até minha morte, seguirei criando músicas para os meus projetos e participando como convidado em projetos de amigos. A música que crio é visceral, autoral e iconoclasta como toda minha arte.


8 – É um notável legado! Me diga, quando você produz seus discos, existe algo esteticamente semelhante aos efeitos visuais de IA que você emprega no plano sonoro? Algum tipo de recurso/aplicativo/plugin ou algo que, sonoramente, seja equivalente às texturas das suas HQs?

Isso aconteceu só em um disco específico que já citei. Vou explanar em mais detalhes o processo criativo do EP Ciberpajé – Holofraktaforismos, parceria minha com euFraktus X.

Arte de capa do Ciberpajé para o EP Holofraktaforismos

A semente criativa do EP Holofraktaforismos (ouça-o aqui) foi uma experiência minha de ENOC (estado não ordinário de consciência) com o uso do enteógeno Psilocybe cubensis. Essa experiência visionária gerou uma série de desenhos inspirados nas visões obtidas durante o tempo em que ela durou, eu considero essas artes como frutos de uma hipertecnologia ancestral, sendo o cogumelo cubensis um “plug-in de neocortex” muito mais poderoso que qualquer das I.As existentes atualmente.

Tempos depois da experiência usei algumas dessas artes para criar uma série de HQforismos (gênero de quadrinhos poético-filosóficos que une um texto aforístico a uma imagem que dialogue com ele) que trouxessem em seu escopo as sensações de profunda conexão com o cosmos e de indignação com a desconexão com a natureza que reina no mundo contemporâneo.

Os 6 aforismos em preto e branco realizados foram inicialmente publicados no fanzine Uivo#5 e depois integraram o álbum em quadrinhos Enteogênicos (Editora Criativo). Quando surgiu a oportunidade de realizar a parceria com o musicista visionário e maestro euFraktus X (Eufrásio Prates), eu pensei na possibilidade de criar um desdobramento sonoro para os 6 HQforismos enteogênicos frutos daquela experiência atávica. Eufrásio aceitou o convite e o desafio para a criação de músicas holofractais baseadas na gravação das minhas vozes recitando os aforismos.

O musicista utilizou nessa criação sonora softwares abertos de Inteligência Artificial (Google TensorFlow) e sua invenção, uma suite de software livre chamada HITS Holofractal Interactive Transducer System. Nas palavras do próprio euFraktus X: "Meu código interpreta as sutis curvas da fala do Ciberpajé e as passa numa equação fractal que gera os números que se tornam notas midi, ou seja, matematicamente normalizados numa escala de 0 a 127. Isso torna-se a base dos synths."

Nas 6 faixas experimentais, a linguagem falada desintegra-se para tornar-se sons e a experiência semântica da leitura dos aforismos torna-se uma experiência cognitiva de outra ordem, gerando atmosferas que transcendem o verbal e integram-se à essência ciberxamânica da proposta do EP. Ouçam o EP nesse link: https://ciberpaje.bandcamp.com/album/holofraktaforismos

9 – Nas suas redes sociais e em alguns eventos virtuais recentes, você tornou públicos os acontecimentos envolvendo o falecimento de seu pai. Esse fato foi uma influência decisiva para seus novos EP e HQ? Se sim, você tenta ser fiel ao que houve, ou você se permitiu acrescentar elementos estéticos e filosóficos a partir de dados reais?

O falecimento de meu pai, Dimas Franco, vitimado pelo genocídio neofascista da Covid-19 no Brasil, foi um dos fatos mais trágicos de minha existência. Meu pai era meu mentor intelectual, meu melhor amigo e meu maior incentivador, sempre tive um amor declarado por ele e inclusive dedicando-lhe muitas de minhas obras. E com ele eu tinha minhas conversas filosóficas e metafísicas mais densas e profundas.

Como eu, sua visão sobre a espécie humana ia da percepção de nosso lado luminoso, da empatia e compaixão profunda, até as sombras do egoísmo e egolatria que resultaram na destruição gradativa da biosfera. Ele se emocionava de chorar com os atos nobres, mas se entristecia ao ver a crueldade humana. Ao perceber o crescimento do neofascismo no Brasil, que tomou nosso governo de assalto, ele dizia: “A humanidade não deu certo”, de uma forma melancólica. E ele acabou sendo vítima dessa banda podre humana.

Conversas de Belzebu com seu Pai Morto surgiu inicialmente do desejo de inserir de forma simbólica e iconográfica o arcano XV do Tarô, o diabo, no contexto de meu universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. Na narrativa, após o fim da espécie humana, essa criatura nasce de forma metafórica e onírica no crepúsculo pós-humano, em um planeta Terra desolado. A história coloca-o em diálogo – na verdade um monólogo – com seu pai morto, metáfora da humanidade.

Mas, como destaquei no início dessa resposta, a motivação mais profunda para a criação da série foi a perda trágica de meu maior interlocutor filosófico e amigo, meu amado pai Dimas. Durante décadas discutimos assuntos metafísicos e reflexões sobre a espécie humana, Gaia e seus destinos. Com seu desaparecimento, ao desejar conversar sobre esses temas sinto profunda vacuidade. A série é composta por 6 HQs de 11 páginas cada uma, somando 66 páginas, e sua criação utiliza princípios mágicos de transmutação e inspiração enteogênica.


10 – Você acredita que a história Conversas de Belzebu com seu Pai Morto e o EP de mesmo nome possam ser consideradas uma obra transmídia? (mesmo sabendo que essa história específica faz parte de um projeto maior)

A minha Aurora Pós-humana é composta essencialmente de obras transmídia, pois eu realizo HQs, HQtrônicas, contos, poemas, performances artísticas, animações, videoartes, videoclipes, instalações artísticas, esculturas, e álbuns musicais que trazem narrativas diferentes e novas, mas todas contextualizadas no universo ficcional mágicko transmídia da Aurora Pós-humana. Exploro suportes diversos para narrar histórias das múltiplas fases de meu universo.

Capa do EP Ciberpajé - Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, ouça-o neste link


Nesse contexto, tanto a HQ quanto o EP são obras transmídia pois inserem-se nas produções artísticas da Aurora Pós-humana! Mas se olharmos para elas como obras isoladas – o que não deve ser feito – podem ser consideradas como duas narrativas em suportes diferentes contando a mesma história no contexto transmídia da Aurora Pós-humana. O interessante é que são obras independentes – como todas as outras criações para a Aurora Pós-humana, mas neste caso possuem uma conexão inusitada – ainda inédita no universo ficcional – pois contam a mesma história!

Minha ideia era essa mesmo, pensar a narrativa em dois contextos diferentes, em um deles, o visual, eu teria o controle total dos resultados, no outro, eu abriria para a parceria com outro artista, nesse caso o musicista Alan Flexa, para que ele incorporasse também sua visão da história.


11 – Além de Conversas..., você tem outras HQs que dialogam ou convergem com seu trabalho musical?

Tenho muitas HQs que se conectam diretamente a obras minhas em outras mídias, mas não trazem a mesma história. Destaco o número 13 da revista Artlectos & Pós-humanos que traz 2 HQs: Lupus Diem, e Lupus Crepusculum, diretamente conectadas a 2 atos performáticos do Posthuman Tantra: Lupus Noctis e Quilombot Mantra, que por sua vez conectam-se diretamente a 3 EPs musicais do Projeto Ciberpajé: Lobo Infinito (parceria com Melek-tha, da França), Madrugada de Lilases Pedras Adornada (parceria com Nix's Eyes, de Brasília), e Loucos ou Deuses (parceria com Sábila Orbe, do Chile) e por sua vez esses EPs estão diretamente conectados a duas animações pioneiras no Brasil a utilizarem redes neurais e Neural Style Transfer: O Enterro dos Deuses (assista neste link), e (In)Finitum; finalmente estas animações conectam-se à HQescultura “O Sonho dos Deuses”.

Animação O Enterro dos Deuses, de Ciberpajé e C.N.S., assista neste link

Cartaz da animação (In)Finitum, de Ciberpajé, Amante da Heresia, Luiz Fers e C.N.S.

É fundamental destacar que todas essas obras são independentes e trazem narrativas inéditas, no entanto a conexão entre elas gera outra grande narrativa unindo então estes múltiplos suportes e linguagens: quadrinhos, performance, aforismos, ilustração (capas e encartes dos Eps), música, animação e escultura. Estes produtos artísticos específicos foram fruto de meu segundo pós-doutorado em artes realizado em 2019-2020 no Instituto de Artes da Unesp e intitulado Posthuman Tantra & Artlectos e Pós-Humanos: Processos Criativos Transmídia em Performance e Quadrinhos. Estou preparando um livro fruto dessa pesquisa.

12 – O músico Alan Flexa recebeu alguma orientação sua para seguir um tipo de arranjo musical ou de textura musical específica? Ele leu a HQ antes de compor?

Fiz questão de não passar a HQ para ele ler, não queria uma contaminação da visualidade na sonoridade neste caso, o que mais me interessava era a narrativa.

Passei o texto para Alan, dividindo-o em 4 atos – para gerar as faixas a partir das atmosferas suscitadas por esses atos, tive que pensar nesses blocos de texto que tivessem uma coerência intrínseca, pois na HQ – que tem 11 páginas – essa divisão não acontece. Alan Flexa é um grande musicista, a única coisa que falei para ele é que imaginava um clima de trilhas sonoras de filmes de terror e suspense das décadas de 70 e 80 como no clássico O Exorcista e nos filmes de John Carpenter.


Flexa decidiu por criar as atmosferas em sintetizadores e plug-ins, mas utilizou-se também de gravações analógicas de cordas e outros instrumentos para gerar efeitos sonoros. Ele conduziu os climas musicais a partir da entonação de minhas vozes pré-gravadas e do texto das faixas. Fiquei impactado ao ouvir o resultado, impressionado em perceber como Alan criou algo muito mais denso do que eu esperava.

Essas surpresas que às vezes tenho com o Projeto Musical Ciberpajé me fazem amar cada vez mais criar EPs com amigos e convidados, pois a base que estrutura o projeto é a liberdade criativa. Quando os musicistas podem ser eles mesmos – e só convido para parcerias pessoas que admiro como artistas e seres humanos – inevitavelmente surgirão grandes obras! Minha eterna gratidão ao Alan Flexa que tem sido um grande parceiro musical nesses anos de Projeto Ciberpajé e que tenho a sorte de ter como amigo, pois é um dos maiores musicistas do Brasil.


13 – Alan é realmente um músico e produtor sensacional. Você acha que as escolhas musicais, melódicas, de timbre e de arranjo dialogaram com os recursos visuais da sua HQ?

Eis o grande aspecto transcendente que está além e aquém das nossas perspectivas racionais. Quando fui reler o primeiro capítulo da HQ Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, tendo como condutor o EP musical de mesmo nome, eu tomei um susto! As obras fruídas juntas ganharam uma nova dimensão e força. Também achei incrível como a sonoridade dialoga diretamente com as sequências visuais amplificando sua atmosfera. Finalmente, encantei-me com o tempo das músicas e como ele introduz pausas sagazes na condução da leitura. Foi emocionante perceber a sinergia das obras em suportes diferentes.


14 – A HQ foi feita só por você, e o EP foi feito em parceria. Você acha que a parceria musical trouxe desdobramentos inesperados para o EP? Ou, apesar da parceria, você tem a mesma unidade estética e conceitual pensada em relação à HQ?

O Projeto musical Ciberpajé tem essa característica conceitual de grande força: as bandas e parceiros musicistas convidados têm liberdade total para criar as ambiências sonoras para os aforismos, por isso temos as mais diversas expressões musicais no projeto: rock, heavy metal, doom, black metal, new age, progressivo, noise, sludge, hardcore, dark ambient, dungeon synth, witch house, post rock, entre outros.

Como salientei escolho os convidados a partir de meus gostos musicais e minhas afinidades artísticas, inclusive você foi meu parceiro criativo em um dos EPs que gosto muito, o Aqualupus! A única coisa que peço aos parceiros criativos é que meus aforismos fiquem audíveis, mas mesmo esse pedido foi subvertido no EP Holofraktaforismos.

No caso de Conversas de Belzebu com seu Pai Morto, eu ainda sugeri uma sonoridade para o grande Alan Flexa quando ele perguntou-me – já que é um musicista eclético com capacidade para trafegar por múltiplos estilos sempre com qualidade – mesmo assim o que ouvi no álbum surpreendeu-me muito, são múltiplas camadas e sutilezas sonoras que só podem ser captadas com um fone de ouvido profissional.

A unidade estética existente entre HQ e EP é o texto – o monólogo de Belzebu – que os conecta diretamente, o resto é uma nova perspectiva poética que se agrega ao conceito geral com a participação singular de Flexa.

Confiram no Youtube uma breve fala minha sobre a HQ e o EP Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto:


* Rafael Senra se define como “um escritor que desenha e canta”. Já lançou quatro discos (dois solo e dois com o projeto Alfa Serenar), além da graphic novel Balada Sideral (editora Bartlebee, 2014). Também pela Bartlebee, lançou o livro Dois Lados da Mesma Viagem em 2013. É professor de Literatura na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

sexta-feira, 16 de julho de 2021

[Lançamento] Lucha: novo Split CD reúne Posthuman Tantra & Alice Psicodélica em lançamento da Depressive Noise Records

Capa do Split, arte do Ciberpajé

O Posthuman Tantra, banda do Ciberpajé, acaba de lançar sua nova obra musical. Desta vez trata-se de um Split CD realizado em parceria com a emblemática banda brasileira de noise psicodélico "Alice Psicodélica", um dos projetos iconoclastas do musicista e ativista underground El Dinali. Ouça o Split Lucha neste link.

O álbum é um lançamento da gravadora alternativa dedicada ao noise e à música extrema Depressive Noise Records, que mantém um respeitável canal no Bandcamp com mais de 20 lançamentos exclusivos e tem contribuído muito para o cenário underground realizando também versões físicas em CD, mini CD e K7, com tiragens limitadas de alguns de seus lançamentos.

O Posthuman Tantra participa do Split com 5 faixas e norteou o conceito da obra que foi intitulada "Lucha", termo hindi que significa "aquele que olha fixamente para você", e em espanhol significa "Luta". A ideia foi refletir sobre um detalhe curioso e fundamental da linguagem digital e das conexões em telepresença, as pessoas já não se olham mais nos olhos, pois a câmera sempre fica acima quando você olha para o outro, para ver o outro você não pode mais olhá-lo nos olhos, ao mesmo tempo esse impossibilidade do olho no olho é amplificada pelo binarismo - compondo a essência intrínseca da linguagem: 0/1, sim/não - que em sua natureza extremista induz polarizações. O extremismo mais hediondo estimulado por esta condução binária é o crescimento exponencial do neofascismo em nosso país e no mundo. Aqui entra o segundo significado do título do álbum "Lucha" no sentido de "Luta", a luta da arte - mesmo em sua condição muitas vezes quixotesca - contra a ascensão do neofascismo.

Em suas composições para Lucha, o Ciberpajé buscou uma sonoridade quase 100% analógica em gravações espontâneas e ritualísticas em um único take. Para isso ele criou uma atmosfera mágicka de ENOC (estado não ordinário de consciência) e entrou em transe meditativo durante as gravações, influenciadas por mantras tibetanos, por vocalizações da mongólia e pelo musicista brasileiro Daminhão Experiença. Nas músicas foram utilizados os instrumentos udu, berimbau de boca e uma série de apitos indígenas. A sonoridade das faixas distancia-se muito da atmosfera Dark Ambient mais característica do Posthuman Tantra. As 5 faixas da banda no split são: Ciclope Caolho (baseada em HQ de mesmo nome criada pelo Ciberpajé), A Floresta Íntima, Lobo Transdigital, Fantasmas Binários, e Zentropia.

Já o icônico Alice Psicodélica participa do split com uma longa faixa, Paralisias do Olhar Fixo, de quase 18 minutos, caracterizada por sua música noisedélica autoral e pregnante. Foi completamente composta e gravada tendo como base sons e instrumentos analógicos.  

A arte de capa e o projeto gráfico do encarte do álbum foram criados pelo Ciberpajé a partir de desenhos inspirados nas visões do transe durante o ritual de gravação de Lucha. Confira abaixo as páginas do encarte.




Em breve será lançada uma edição limitadíssima em BOX CD de Lucha! Enquanto isso ouça o álbum no Bandcamp da Depressive Noise Records.





quinta-feira, 15 de julho de 2021

[Resenha] HQ & EP Musical "Conversas de Belzebu com Seu Pai Morto": nós já vivemos em um ocaso pós-humano! Por IV Sacerdotisa

 

Arte do Ciberpajé

Depois de "lerouvir" ou "ouviler" o lançamento duplo (HQ + EP) mais recente do Ciberpajé, é preciso dar um tempo para digerir a mensagem da obra. De qualquer forma ouso tecer alguns comentários logo após vivenciar essa experiência.

Contracapa da revista Atomic Magazine #1 com arte do Ciberpajé baseada no capítulo 1 da HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto, publicada neste número. Adquira a revista neste link

Primeiro, para contextualizar, “Conversas de Belzebu com seu pai morto” é uma obra transmídia que se passa na Aurora Pós-Humana em um período denominado “Ocaso Pós-humanista”, uma das eras do multiverso ficcional criado pelo Edgar Franco (a.k.a. Ciberpajé). Sobre o EP musical com 4 faixas e a HQ de 11 páginas, ele diz que trata-se de: “um monólogo de Belzebu com o cadáver de seu pai enforcado em uma árvore. O pai é, simbolicamente, a espécie humana que se autodestruiu” (...) a obra “surgiu inicialmente do desejo de inserir de forma simbólica e iconográfica o arcano XV do Tarô, o diabo, no contexto do universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. Na narrativa, após o fim da espécie humana, essa criatura nasce de forma metafórica e onírica no crepúsculo pós-humano, em um planeta Terra desolado. (...) em um monólogo – com seu pai morto, metáfora da humanidade.

Ou seja, a narrativa traz esse pano de fundo, um planeta dizimado, com a humanidade extinta. A humanidade é o pai desse demônio Belzebu. Cada fala é carregada de forte simbolismo, e quando lemos/ouvimos temos a estranha sensação de dejavú, como se compreendêssemos que esse é um possível futuro que nos aguarda caso a espécie humana continue sua saga hiperconsumista e gananciosa, que degrada tudo e todos.

O demônio é um “fruto-filho” que nasce dessa longa gestação (período da ação antropogênica no planeta), como demonstrado na HQ, aqui o mito da criação não surge da complementação entre opostos (masculino e feminino), mas da “fricção alucinada dos falos-mísseis”, cristalizado na energia-egrégora da guerra, opressão, poder e dominação.

O filho demônio nasce órfão, e sua existência só se concretiza com o perecer do seu pai, humanidade. Belzebu é solitário, pois desfruta da herança do desolamento, do nada, da inércia, da brisa nuclear, da terra estéril. Um silêncio gritante, que denuncia o genocídio que a humanidade decretou, executou e condenou a todas as espécies, reinos, domínios, classes, filos, a elementos bióticos e abióticos. Como o Ciberpajé pontua, a HQ e o EP são obras independentes, porém, uma vez "lendoouvindo-os", é difícil não concebê-los de forma inseparável e osmótica.

Capa do EP com 4 músicas criado pela parceria do Ciberpajé com o musicista Alan Flexa. Ouça-o na íntegra neste link

Uma das influências marcantes no processo criativo foi reverenciar as conversas filosóficas e metafísicas que o Ciberpajé tinha com seu pai Dimas Franco, e como o Sr. Dimas dizia, embora se assombrasse com a incrível capacidade humana de amar incondicionalmente, na mesma medida, temia até onde o egoísmo humano poderia levar a todos. Percepção sábia de alguém que tinha plena consciência de que o tamanho da nossa luz é também, o tamanho da nossa sombra.

Interessante a representação da morte da humanidade, um enforcamento, o que denota o aspecto destrutivo e suicida da nossa espécie. A morte abordada aqui não é apenas a “física”, mas a morte dos ideais. Quando Belzebu fala “quando seu ímpeto desbravador e sonhador terminou...”, mostra o fim da pureza, da luz, dos sonhos e realizações. Em seguida, a pulsão egoísta levou a humanidade a se desconectar gradativamente da sua própria natureza, das outras espécies e da natureza ao redor. Perdendo assim, o contato cósmico com a mãe criadora, nutridora, Gaia. Assim começou o fim.

A humanidade passou a cultuar outros deuses: dinheiro, ganância, extremismo religioso, poder, guerras, etc. A existência barulhenta da humanidade foi sendo paradoxalmente transformada em um mundo silencioso: com o calar dos pássaros, das abelhas, das espécies em extinção, com o fim dos gemidos de outros humanos que pereceram de fome e dor, em absurda e brutal desigualdade.

Entre as belas passagens de transformações e estagnações, a brisa nuclear decreta: “tudo é perfeito”. O odor putrefato mantém Belzebu focado, talvez para lembrar-lhe sempre (ao estilo “memento mori” ou o “nunca mais”, do corvo de Poe), em como NÃO SER. Já que esse pai, humanidade, não é um exemplo a seguir.

Ao nascer, Belzebu conheceu a melhor amiga do seu pai, a morte, a ceifadora. Na obra, a figura da morte aparece como benevolente, afinal, a ceifadora surge como uma possibilidade de fim, e só a partir do fim, algo pode vir a nascer, um recomeço.

E através desse novo mundo inóspito, o filho chama o pai para uma conversa, sem culpa, sem amor, para refletir sobre a única coisa que há, o nada. A morte, ao sair de cena, abre caminho para o ovo da criação, a vida. A esperança que surge do Nada. Enfatizando assim, o caráter cíclico da Existência.

De fato, a obra nos brinda com uma sensação de presenciar as conversas do Ciberpajé com Sr. Dimas, mas não transpondo o pai Dimas na humanidade e o Ciberpajé no Belzebu, e sim como uma representação filosófica do teor de algumas das intermináveis conversas que "EdgarDimas" tinham. Sim, interminável foi um termo que me veio para me referir às conversas entre eles e foi adequado, porque mesmo que Sr. Dimas não esteja mais nesse plano, Edgar genialmente encontrou uma forma de continuar essas conversas através de sua arte intermundos.

E nós continuamos sendo agraciados pelos frutos que essa amizade eterna nos proporciona.

A obra também pode ser aplicada ao agora. Ao vislumbramos a vida na perspectiva de não haver passado-presente-futuro, e que no agora vivenciamos de tudo, penso que em alguma medida, já vivemos em um ocaso pós-humano.

Com o passar do caos da pandemia, no mesmo silêncio gritante que Belzebu presenciou (o silêncio que denuncia o genocídio), aqueles que tiverem sobrevivido à pandemia vão refletir sobre o ocaso que ficou. Com uma nova chance de vida, um alívio, mas sem poder sorrir sinceramente, choraremos ainda mais as dores das perdas de vidas tão preciosas e especiais, as quais muitas delas se foram sem sequer passar pelo ritual do luto.

Choraremos a dor de constatarmos que essas vidas se esvaíam enquanto o poder desnegociava vacina, buscava propina em meio aos mortos, sorria e imitava pessoas agonizando com falta de ar, providenciando sacos pretos ao invés de respiradores e uma chance de vida. Impunes. A geração que ficar fará o papel do Belzebu, buscando encontrar sentido nos escombros e em buscar uma nova vida sem nunca se esquecer da lição cruel que o “pai” pandêmico nos deixou.

Aproveito para deixar minha solidariedade a todos que perderam pessoas amadas pela COVID19, sei que está completando quase um ano da passagem do Sr. Dimas. Que haja conforto e luminosidade nos corações de todas as famílias, que a justiça terrena seja feita e uma nova fase no planeta se faça.

Por fim, mencionar que trata-se de uma obra que pode ser "lidaouvida" de forma independente, mas como fiquei sabendo que virão novos capítulos, aguardo com curiosidade a continuação.

A mixagem e audição do EP foi extremamente intensa, com efeitos sonoros que nos conduzem a um outro tempo-lugar, ambientando perfeitamente a leitura da HQ. A HQ, por sua vez, com uma beleza visual incrível, com a estética das redes neurais que trazem arquétipos ancestrais e o simbolismo da conexão com tudo, na mescla de elementos e seres que compõem os desenhos, articulando ainda fotografia, ilustração, quadrinhos, inteligência artificial e tecnognose.

A IV Sacerdotisa Danielle Barros e o Ciberpajé em arte criada por Edgar Franco a partir de foto no evento de quadrinhos Entre Aspas, Leopoldina, 2017

Parabenizo imensamente ao Ciberpajé e ao musicista Alan Flexa por mais essa criação, literalmente transmidiática, articulando o universo musical do Posthuman Tantra e artes visuais nos quadrinhos poético-filosóficos, proporcionando ao leitor o contato com uma criação completa, singular e profunda.

Adquira a revista Atomic Magazine #1 neste link, e ouça o EP na íntegra neste link.

* A IV Sacerdotisa é Danielle Barros, arte cientista e professora doutora na UFSB

Ciberpajé é um dos instrutores da "Oficina de Empoderamento Poético On-line 2021", inscreva-se gratuitamente

Estão abertas as inscrições para a "Oficina de Empoderamento Poético On-line 2021". O Ciberpajé tem a honra de integrar o grupo de docentes desta edição totalmente gratuita e on-line. Vejam detalhes de como se inscreverem nas informações abaixo. A oficina é um projeto que conta com o patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura - FAC da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF.


Nesta edição digital da oficina, os participantes terão aulas com renomados professores e artistas da palavra que nos conduzirão por uma jornada de autoexperimentação literária. A Oficina é gratuita, as vagas são limitadas e as inscrições serão feitas exclusivamente pelo formulário disponível na bio do Instagram @poetamarinamara .

Inscreva-se até 20/07/2021 e boa sorte! A lista com os nomes das pessoas selecionadas para a Oficina de Empoderamento Poético On-line será divulgada dia 23/07/2021, ao pôr-do-sol, no instagram Poeta Marina Mara .

SOBRE A OFICINA

A Oficina de Empoderamento Poético foi idealizada pela poeta Marina Mara e já circulou por vários estados do Brasil. A Oficina tem como foco instigar nossa poesia essencial, lapidar nosso estilo próprio de expressão literária, compartilhar técnicas de escrita afetiva e criativa.

Os participantes da Oficina receberão Certificado e terão um poema publicado gratuitamente pela AVÁ Editora em uma antologia com ISBN.
*** Este projeto conta com o patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura - FAC da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF.

CONHEÇA NOSSO PLANO DE VOO E TRIPULAÇÃO

MARINA MARA - Aulas 1 e 2, dias 3 e 6 de agosto - 19:30 às 20:30hs
- Check in para o voo rumo ao seu Empoderamento Poético
- Apresentação da tripulação e dos passageiros
- A pílula azul e a pílula vermelha da Poesia Autoral

CIBERPAJÉ - Aulas 3 e 4 , dias 10 e 13 de agosto - 19:30 às 20:30hs
- Criação lírica e estética de nosso universo
- O autor como protagonista de sua jornada
- Ferramentas e linguagens para publicação literária

THIAGO DE BARROS - Aulas 5 e 6, dias 17 e 20 de agosto - 19:30 às 20:30hs 
- Jogos experimentais para criação literária
- Em busca da poesia multiplataforma.
- Videopoemas. A poesia na tela e na palma da mão.

NATÁLIA ANICETO e AVÁ EDITORA - Aulas 7 e 8, dias 24 e 27 de agosto - 19:30 às 20:30hs
- Publicação independente
- A importância do projeto gráfico para o livro artesanal
- Registros e direitos autoral
- Circulação e distribuição de poesia por feiras e saraus
- Encadernação e acabamento Manual.

PARTICIPE DO  SARAU DE FORMATURA NO INSTAGRAM @POETAMARINAMARA - SÁBADO (28/08) ÀS 20h!

sexta-feira, 9 de julho de 2021

[Lançamento] "Conversas de Belzebu com seu pai morto": músicas de novo EP do Ciberpajé e nova HQ trazem a pandemia na Aurora Pós-humana


Foi lançada, pela editora Atomic (SC), a revista em quadrinhos Atomic Magazine #1, que traz 5 novas séries de conhecidos quadrinhistas brasileiros, sendo eles Law, Ciberpajé, Gazy Andraus, Laudo e Emir Ribeiro. Nesse volume foi publicado o capítulo 1 da HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto", e acompanhando este lançamento, a Lunare Music (SP) lança o EP de mesmo nome, trazendo uma parceria entre o projeto musical Ciberpajé e o musicista Alan Flexa - ouça-o aqui

Contracapa da revista Atomic Magazine #1 - arte do Ciberpajé para a HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto"

“Conversas de Belzebu com seu pai morto” surgiu inicialmente do desejo de inserir de forma simbólica e iconográfica o arcano XV do Tarô, o diabo, no contexto do universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. Na narrativa, após o fim da espécie humana, essa criatura nasce de forma metafórica e onírica no crepúsculo pós-humano, em um planeta Terra desolado. A história coloca-o em diálogo – na verdade um monólogo – com seu pai morto, metáfora da humanidade. Mas a motivação mais profunda para a criação da série foi a perda trágica sofrida pelo Ciberpajé de seu maior interlocutor filosófico e amigo, seu amado pai Dimas Franco, uma das vítimas da Covid-19. Durante décadas eles discutiram assuntos metafísicos e reflexões sobre a espécie humana, Gaia e seus destinos. Com seu desaparecimento, ao desejar conversar sobre esses temas, o Ciberpajé experiencia profunda vacuidade, e rememora que a percepção que seu pai tinha sobre nossa espécie ia de uma admiração quase incondicional por nossa capacidade de amarmos e sentirmos compaixão, a um temor de aonde nosso egoísmo poderia levar-nos. A série será composta por 6 HQs de 11 páginas cada uma, somando 66 páginas, e sua criação utiliza princípios mágicos de transmutação e inspiração enteogênica. Conheça o capítulo 1 da HQ "Conversas de Belzebu com seu pai morto", adquirindo a revista Atomic Magazine #1 neste link. A revista tem formato 20x28cm, capa  colorida Triplex 300g, 84 páginas, Couché fosco 115g e lombada quadrada. A tiragem Limitada está com um desconto de lançamento de 22% no valor.


 
Confira um vídeo do Ciberpajé falando dos lançamentos neste link, ou abaixo.


Arte de capa do EP, por Ciberpajé

Já o EP do Projeto Ciberpajé, “Conversas de Belzebu com seu pai morto”, uma parceria com o musicista Alax Flexa (AP), apresenta-nos, em quatro atos sonoros, o monólogo de Belzebu com o cadáver de seu pai enforcado em uma árvore. O pai é, simbolicamente, a espécie humana que se autodestruiu. Essa obra musical é independente, mas está diretamente ligada ao primeiro capítulo da história em quadrinhos (HQ).

Tanto a HQ quanto as músicas são ambientadas no universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”, em um período final chamado de “Ocaso Pós-humanista”. O Ciberpajé utilizou-se da arquetipia do Arcano XV do Tarô, o Diabo, no caso Belzebu, como um de seus alter-egos, o amante da vida experienciando uma provação, caracterizada pelo niilismo que, por vezes, tem dominado suas reflexões sobre a nossa espécie em meio ao caos absoluto sociocultural, ambiental e político de nossa era pandêmica.

Alan Flexa criou faixas densas e atmosféricas, inspiradas em trilhas sonoras de horror e ficção científicas de mestres como John Carpenter , e também nas obras de Mike Odfield, sobretudo Tubular Bells - que foi trilha sonora do filme O Exorcista.  Essas trilhas climáticas embalam a voz do Ciberpajé interpretando Belzebu em seu monólogo nas faixas da obra. O EP Ciberpajé - Conversas de Belzebu com seu pai morto - é dedicado ao saudoso Dimas Franco e a todas as vítimas da hecatombe genocida contemporânea no Brasil. Ouça-o aqui

Abaixo seguem as páginas do encarte do EP, incluindo o monólogo de Belzebu.








quinta-feira, 1 de julho de 2021

Vídeo destaca o pioneirismo do Ciberpajé e de Gazy Andraus na criação de curso livre de "histórias em quadrinhos de autor" no Brasil, em 1995

O novo vídeo do canal Gazine, capitaneado pelo quadrinhista e pesquisador doutor Gazy Andraus, apresenta um diálogo seu com o Ciberpajé (Edgar Franco) contando sobre as experiências de criarem e ministrarem juntos um curso de "Histórias em Quadrinhos de Autor", tratando já da importância do aspecto artístico e autoral dos quadrinhos no ano de 1995. O curso foi inicialmente ministrado no Espaço Cultural 508 Sul - hoje Espaço Cultural Renato Russo - em Brasília, no ano de 1995. Posteriormente foi ministrado em Goiânia nos anos de 1996 e 1998 com apoio da Fundação Jayme Câmara.

Além dos detalhes sobre as experiências de ministrarem os cursos, o vídeo conta com incríveis depoimentos de 3 alunos, um de cada ano. O primeiro deles é o artista transmídia e doutor pelo Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG),  Amante da Heresia (Léo Pimentel), que realizou o curso em 1995 em Brasília e - incrivelmente - reencontrou-se com o Ciberpajé anos depois e veio a ser seu orientando de doutorado no PPGACV da FAV/UFG. Tento também a chance de contar com Gazy Andraus como co-orientador - já que Andraus no momento realiza pós-doutorado no PPGACV FAV/UFG sob supervisão do Ciberpajé. O segundo depoimento é da artista e arte educadora Bibiane Bron Aki que destaca a importância para sua formação de ter realizado o curso em 1996. O depoimento final é o da artista, pesquisadora e professora doutora Adriana Mendonça, que realizou o curso em 1998, e hoje é doutora pesquisando gravura e fanzine e também é professora da FAV/UFG, sendo parceira do Ciberpajé e de Gazy Andraus na realização do evento Ciberpajelanças.

O Ciberpajé agradece ao seu irmão na arte pela grande amizade de uma vida, e aos ex-alunos e hoje amigos e parceiros que deram seus depoimentos no vídeo. Ao final foi incluída uma propaganda televisiva de div ulgação do curso de 1998 feita pela Fundação Jayme Câmera e que destaca quadrinhos e ilustrações de Gazy Andraus e Edgar Franco. Confira o vídeo na íntegra neste link, ou abaixo: