domingo, 25 de janeiro de 2015

Resenha de Retrogênese para o Jornal Folha da Região - de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro

Colapso Cultural!
Resenha – Álbum em quadrinhos Retrogênese: Roteiro de Edgar Franco e desenhos de Al Greco
por Anésio Azevedo Costa Neto*
Passando de mero entretenimento para as massas, na primeira metade do século XX, a um meio efetivamente legítimo de expressão, as histórias em quadrinhos (HQs) vêm conquistando cada vez mais, a passos largos e firmes, seu devido respeito no panteão das artes visuais. No cenário brasileiro, alguns quadrinistas (e por que não “artistas”?) despontam como precursores de estilos de desenhos e roteiros que muito acrescentam ao legado deixado pelos grandes mestres além mar, como Will Eisner, Garth Ennis & Steve Dillon e Allan Moore. Dentre os exemplos brasileiros, gostaria de destacar os artistas e pesquisadores de um gênero de HQ inteiramente nacional, denominado Poético-filosófico, que têm em Edgar Franco e Gazy Andraus seus precursores. Já no cenário editorial recente, posso destacar o trabalho impecável de Guilherme Silveira e Matheus Moura, realizado sob sua  nova editora, a Reverso. O cenário de produção atual é, portanto, profícuo e extenso, e tentar abarcar todo ele demandaria um trabalho homérico. No entanto, gostaria de me debruçar sobre um trabalho recém-publicado pela editora Reverso, Retrogênese (2014), cujo roteiro é de Edgar Franco, o Ciberpajé, e os desenhos do artista Al Greco.
Arte exclusiva e dedicatória na capa do exemplar do álbum em quadrinhos "Retrogênese" do amigo Anésio Azevedo Costa Neto feita pelo Ciberpajé

Muito têm se falado sobre o trabalho multimídia do Ciberpajé Edgar Franco: HQs, performances musicais, desenhos e vídeos, mas pouco se fala sobre a pessoa de Edgar. Conheço ele há 10 anos, mais ou menos, e durante esse período pude conviver não só com ele, mas com toda sua família. No mundo contemporâneo, onde as raízes das pessoas são podadas à todo custo pelo valor das falsas aparências, o que vemos pode ser facilmente tomado como verdadeiro. Mas, no caso de pessoas honestas e sinceras consigo mesmas, essas mesmas raízes projetam os meandros do abismo que se reflete em nós. Esse é o caso de Edgar. Todo seu trabalho constela e unifica sua personalidade a ponto de passarmos a conhecer um pouco mais de sua essência em suas obras. Não toda, mas partes importantes e de grande significado.
Em sua obra anterior, BioCyberDrama Saga, percebemos o ímpeto da interface homem/máquina/Natureza sem que essa relação interceda um sujeito determinado. Ou melhor: nota-se a completa dissolução de conceitos humanistas não só pelo mergulho tecnológico do homem na natureza, mas, em tese, pela vontade de ser Natureza. A obra, ao seu fim, nos traz um ser que engendra em si esse princípio e que de modo algum parece se distrair com as bordas limítrofes de nosso entendimento sobre o homem, a Natureza ou o Cosmos. Os limites ficaram pra trás, na tentativa de resistir ao que o homem é e sempre será: uma linha, entre o animal e o além-de-si-mesmo, que não é compreendido conforme nossas leis do intelecto, mas, sim, de acordo com regras cósmicas. Será o “Pós-humano”?
Devaneios à parte, é necessário dizer que ninguém melhor do que o próprio Franco para criar suas HQs – do roteiro à arte final. Mas será mesmo? Assim eu pensava até me deparar com os desenhos feitos por Mozart Couto para o álbum BioCyberDrama Saga. Não quero me delongar muito nos méritos de Couto, mas deve-se dizer que ele chegou a produzir para diversas editoras do eixo Rio-São Paulo recebendo, em 1986, o Prêmio Angelo Agostini de melhor desenhista da Associação de Quadrinistas e Cartunistas de São Paulo. Em 1993, entrou no mercado norte-americano colaborando em revistas das editoras Marvel Comics, DC Comics, Acclaim Comics, Dark Horse Comics e Image Comics, desenhando conhecidos personagens como Mulher Maravilha, Thor, Hulk e Elektra. Até aí, eu, impressionado com os desenhos de Couto, acreditei que, sim, poderia haver alguém que entende visualmente a mente-conceito de Edgar Franco. Mais ninguém, talvez?

Página interna de Retrogênese ilustrada por Al Greco

Conforme dito acima, Retrogênese, álbum mais recente de Franco, é ilustrado por um desenhista mineiro chamado Al Greco. Eu já o conhecia “por ouvir falar”, haja vista sua fama como tatuador em Uberlândia. No entanto, não conhecia seus desenhos. Me surpreendeu ver que a arte de Al Greco fusiona-se ao estilo de Franco: o caráter experimental de ambos os artistas conflui numa grande, prazerosa e harmoniosa obra de arte. No caso do traço de Greco, notei certa alusão aos próprios desenhos de Franco, mais, talvez, pela busca de um diálogo conceitual com os trabalhos deste. No entanto, Al Greco é muito mais na HQ do que mero “ilustrador”: o traçado se firma enquanto busca de fusão do sujeito a algo maior do que si, como podemos notar na primeira parte do álbum, “Surgir ou nascer”. A compreensão visual do roteiro de Franco eleva a história a uma jornada épica do ser que, em busca do verdadeiro eu, não tem medo de se atirar nas fissuras de si (segunda parte, “O chamado do abismo”).
O contraste entre o claro e o escuro acentua a exploração visual do espaço representado e nos faz divagar na imensidão de um universo criado para a aurora de uma nova (pós-)Humanidade. Al Greco não é um “mero ilustrador”, ele é algo mais, é o elemento de experimentação de Franco elevado à máxima potência, é a dissolução das formas do mundo – formas essas interpostas pelo Ego – necessárias e inerentes à qualquer viagem psiconauta em busca da elevação espiritual.
Definitivamente, a publicação dessa dupla se firma como uma das mais proeminentes obras artísticas de 2014. O único ponto negativo nessa história toda é o número de páginas: 36. Gostaria de ver um outro álbum épico de Edgar Franco desenhado por Al Greco. Fica a dica para os artistas.


O Mestre em Artes Anésio Neto com seu exemplar de Retrogênese em mãos com arte exclusiva do Ciberpajé na capa.
*Anésio Azevedo Costa Neto é Mestre em Artes pela UnB, graduado em filosofia pela UFU, professor da FTM/Ituiutaba, MG e escreve para o Jornal Folha da Região de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro - onde esta matéria será publicada.