quarta-feira, 27 de abril de 2016

Resenha do álbum " Transhuman Reconnection Ecstasy” do Posthuman Tantra, por Léo da Heresia


Arte Léo da Heresia
léo pimentel :|: pUNk [A]l-sUlUk & [A]m[A]te:|:d[A]:|:herESi[A], outono, cerrado, 2016
introito:
o espírito hiperconectado, em sua “vontade de poder” típica do século xxi, recusa aceitar um mundo caótico, frouxo, elástico e genial. este cujas frações saltam entre si plenas em incerteza e ao acaso. tais saltos lhes é insuportável, incompreensível, ingovernável e imodificável. tal espírito suporta e ama sistemas de regras, catalogações, hierarquizações, afirmativas e otimismos. és viciado em significados, negando, portanto, os efeitos da aleatoriedade na vida. acredita cegamente que a divisão da atenção em atividades simultâneas lhe dará, instantaneamente, um mundo completo e ordenado. és semeador de pareidolias, o que o torna uma vítima fácil de suas próprias expectativas. acredita cegamente que sua vida pessoal se concilia com sua vida profissional. és incapaz de processar as belezas da criatividade que nascem do ócio e da inutilidade. deste modo, o espírito hiperconectado torna-se incapaz de fruir dos despadrões, do extraordinário e do raro.

intermezzo:
há muito tempo:
que abandonei o ilusionismo da multitarefa e abracei com alegria a realização das múltiplas inutilidades;
que sorrio, com o mesmo sorriso que dou às crianças, dos constantes erros da intuição;
que desconfio de minha, já quase esquecida, capacidade de prever acontecimentos, dando mais atenção à minha capacidade de simplesmente reagir e agir a eles.
e assim, em auto abandono, me tornei pUNk [A]l-sUlUk, o de espírito hiper:|:desconectado e liberto de meu próprio arcabouço determinístico automático. e deste modo, onde o acaso é mais fundamental que a causalidade, ouvi o cd “transhuman reconnection ecstasy” da POSTHUMAN TANTRA, de meu grande amigo edgar franco.

inciso:
sim, ouvir um cd me é um acontecimento desconectado. não é trilha sonora para nada que eu esteja fazendo ou pensando. ouço música pela simples e inútil aposta de ver onde ela irá me levar. e chegando lá, a ouço novamente para que eu possa, agora emerso, me perder nela.

stretto:
pois bem, foi também há muito tempo que comecei a ouvir música como se esta fosse algum tipo de paisagem ou fração de uma: geo|musico|grafia. isso porque, certa vez, tomei emprestado uma sabedoria do agora falecido amigo meu, o saudoso pajé santxiê tapuya, do santuário dos pajés, que me disse que na mata, os ouvidos são os nossos olhos. é pelas vias da audição que podemos tanto saber:|:conhecer:|:reconhecer onde estamos geograficamente, paisagem, quanto saber se algum perigo se aproxima de nós, como por exemplo, uma onça faminta em busca de alimento: mapa:|:auditivo:|:em:|:escala:|:real. sabedoria esta, transfigurada, ou melhor, deformada por mim como um apontar ao horizonte: astrolábio:|:sextante:|:quadrante-mural audível. assim, cada música,  torna-se uma paisagem geo|musico|gráfica. e seguindo a caminhada:|:navegação:|:safári auditiva, se a referida música estiver contida em um álbum, este me pode ser-me apontado como uma região inteira. por vezes, um planeta inteiro.

portamenti:
“transhuman reconnection ecstasy” é um planeta fodástico muito massa de se visitar! logo de cara, um cafuzo, ou melhor, como diz silvia rivera cusicanqui, um ch'ixi, ideia aymara de algo que é e não é ao mesmo tempo, pós-humano em pajelança ciber:|:ciborgue nos convida:|:conduz a experimentar justaposições existenciais de opostos e contrastes. ciber & pajé sendo & não sendo, como um/uns terceiro(s) incluído(s) que não busca(m) seu fundamento numa dialética ; muito menos segue(m) uma lógica da negação ou da síntese.  viajante instigador que cria os locais de sua viagem ao se pôr a viajar... pois bem, convite aceito! viajemos! mas... se me permites uma retribuição solidária entre anfitriões... viajemos em meu barco pirata, aquele que outrora prestou um grande serviço ameaçando todo o sistema de exploração colonial: ameaça à manutenção das colônias, ao comércio marítimo, aos navios negreiros e à própria estrutura social vigente da divisão de classes, nacionalidades e raças.

ritornelo:
incríveis, sedutores e experimentais testes de rorschach para os ouvidos; cuidadosa ninfomania vertiginosa apta a desconstruir a calma da libido administrada pelo regramento humano:|:patriarcal:|:mercantil; no entanto, “all those moments will be lost in time, like a tears in the rain”... sim! suas paisagens musicais compõem:|:dispõem:|:propõem uma rede geográfica de topografias que me levaram a este ecossistema composto:|:disposto:|:proposto de crueza experimental, como em begotten, de erotismo natural e inocente como em barbarela e de um lirismo replicante, como em blade runner. mas não reduzido:|:restrito:|:recolocado a:|:por estes três pontos cardinais imaginados:|:imageados pelos ouvidos, e sim criação de maestria muito original de todo “como em”, já que não estamos sós neste pós-planeta contando quantas luas estão nascendo nesta aurora belamente invertida. criação desde a casa de máquinas pós-industrial que, há muito, aboliu a escravidão da humanidade relativamente inteligente que servia às suas máquinas relativamente estúpidas. e neste POSTHUMAN TANTRA as tramas que tecem suas paisagens musicais não são linhas nem pontos, como nos sonhos cartesianos do progresso, pois não são tramas unidimensionais. seus nós se desdobram por dimensões fractais de refinadíssimos fios sonoro-poéticos tecidos por mãos pós-históricas. desdobramentos os quais se pode encontrar neles a possibilidade de uma beatitude  rebelde dentro de um nascente cosmos indulgente. que não se ocupe deste tipo de cosmos se não for pelas vias de um futuro 2.0, ou de utopias de novas e outras imaginações.

desfecho in allegro con brio:|:sombrio:      

álbum filosofia espaço-temporal, álbum levado à meditação filosófica multidimensional por uma reflexão bilíngue e aforismática sobre a natureza de uma pós|natur|mortal|eza. o dionisíaco de seu júbilo e beatitude é dark: dionísio das sombras, enigmático e fugidio, que ama correr junto aos lobos negros radioativos pelas noites, alegremente dizendo sim ao cambiante mundo pós-humano. o apolíneo de seu júbilo e beatitude é trágico: apolo de alegria sombria, séria, mas não sóbria, que ama mergulhar junto aos polvos pelágicos, cujos tentáculos emitem luz negra, pelas profundezas abissais da celebração dos aspectos quiméricos e efêmeros da vida. viva a arte transmídia inventora de cosmos ingovernáveis! vivamos “múltiplos ciclos, num oroboros replicante”!