segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Resenha sobre Biocyberdrama Saga por Edgar Indalecio Smaniotto


Esta coluna era publicada na revista impressa Scarium Megazine. Como a Scarium infelizmente deixou de ser publicada desde o número 26, a partir deste número do Somnium passa a ser publicada neste fanzine virtual. O objetivo continua o mesmo: resenhar publicações diversas de literatura especulativa.
BioCyberDrama Saga, de Edgar Franco e Mozart Couto (Editora UFG, 2013), tem por tema a singularidade; um evento tecnológico que possibilitará o surgimento de inteligências artificiais e a possibilidade de que o homem seja capaz de tomar para si mesmo as rédeas de sua evolução, que chamamos de transhumanismo.
O arquiteto, mestre em multimeios e doutor em artes visuais Edgar Silveira Franco é um pensador multimídia e escritor de ficção científica, construiu sua obra dedicada a reflexões sobre pós-humanismo, biocibertecnológia e manipulação genética.
Desenvolveu o universo ficcional Aurora Biocibertecnológica, que pretende discutir o pós-humanismo, genética, biotecnologia, transumanismo e inteligência artificial.
A Aurora se passa em um futuro no qual a tecnologia humana possibilitou avanços fantásticos no campo da genética, robótica, inteligência artificial e outras ciências correlatas. Neste futuro hipertecnológico já é possível a transferência da consciência humana para chips de computador, gerando os chamados Extropianos; máquinas com consciência humana. Já a bioengenharia avançou ao ponto de permitir a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, dado origem aos intitulados Tecnogenéticos, seres híbridos. Ao lado destes transhumanos, ainda sobrevive uma pequena parcela da população humana normal, conhecida como os Resistentes. Existem também as Inteligências Artificiais (androides e redes computacionais), ou seja, os Artlectos (neologismo de artificial e intelecto).
Biocyberdrame Saga é uma história em quadrinhos que se passa neste universo ficcional. O álbum traz uma apresentação do falecido professor Elydio dos Santos Neto; é uma longa apresentação, que contextualiza todo o universo ficcional de Edgar Franco e suas ideias sobre o momento tecnológico da humanidade e o transhumanismo. Este material compreende quase quatro dezenas de páginas, e talvez seja uma boa ideia o leitor ir direto à página cinquenta, ler as duzentas páginas de quadrinhos, e depois voltar e ler a apresentação da obra; isso pode evitar estragar algumas surpresas.
A trama se desenvolve em torno de Antônio, nascido na cultura resistente, e que está indeciso se vai se tornar um tecnogenético; para isso ele vem estudando com Orlane (quimera de homem e canguru hermafrodita), que o leva para escutar um líder religioso tecnogenético sobre o misticismo totêmico. Já Tetsuo é um tecnogenético que deseja ser um extropiano. Edgar Franco explora muito bem os dilemas éticos e existenciais que se colocam frente a Antônio, que se encontra dividido entre três possibilidades distintas de ser humano: tecnogenético, extropiano ou resistente.
Neste universo há artistas que se dedicam a unir todas as culturas, bem como radicais que desejam impor seu modo de vida, principalmente algumas alas tecnogenéticas, extropianas e resistentes. Amores não correspondidos, centros cirúrgicos clandestinos, cultos e atentados criam a dinâmica da história, que termina com uma adaptação futurística de “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Pense no nome do personagem principal: Antônio; e que ele vai se tornar conselheiro e guia dos resistentes.
O álbum traz algumas histórias em quadrinhos curtas extras: o anexo A é uma série de desenhos apresentando a complexa variedade de possibilidades teconogenética e extropiana; o anexo B traz a história curta Hightech, que contextualiza as tradições xamânicas brasileiras dentro deste universo; o anexo C traz a HQ Igualdade, neste caso a igualdade religiosa alcançada pelos extropianos. Por fim, o anexo D – Biocyberprocesso –é o tradicional estudo de desenvolvimento artístico dos personagens, tão comum em álbuns de quadrinhos atualmente.
A arte de Mozart Couto, um dos grandes nomes das HQs brasileiras, é um diferencial e tanto neste álbum; personagens e cenários estão magistralmente representados. O universo ficcional de Edgar Franco é um dos mais originais dentro da ficção científica brasileira, e também um dos mais polêmicos, por tratar de questões éticas e existenciais pós-modernas sem nenhuma censura. Uma leitura instigante, da qual é impossível sair sem uma profunda reflexão sobre a condição humana, ou pós-humana.
Quando pensamos em ficção científica, além dos ícones básicos (alienígenas, naves espaciais, mutantes, guerras intergalácticas, exploração espacial, robôs, e etc.), também pensamos, em termos literários, em prosa. Mas não é apenas em narrativas que se expressa à ficção científica, podemos encontrar boa ficção científica em linguagem poética (ou de quadrinhos, como vimos acima). Vale lembrar que um dos primeiros textos de ficção científica brasileiro foi justamente o livro de poemas “Eu, e outras poesias” (1912) de Augusto dos Anjos; mas, apesar de tão ilustre antecessor, pouco se fez no Brasil em matéria de poesia e ficção científica. Até agora apenas o decano da ficção científica nacional André Carneiro tinha se dedicado com maior constância a uma ficção científica poética.
(Edgar Indalecio Smaniotto)

Resenha publicada na Revista Somnium n° 110 – Novembro de 2014, p. 90-91.

Baixe e desfrute essa leitura!