quarta-feira, 11 de março de 2015

Entrevista do Ciberpajé Edgar Franco, mentor da banda Posthuman Tantra ao blog “Dark Souls United”

Por Daniel Death (a.k.a Roderick Totentanz).
Leia a versão original em inglês no link 


1. Olá Edgar, é uma honra recebê-lo por aqui, gostaria primeiramente que você me explicasse como entrou no mundo da música experimental para que pudesse criar a entidade Posthuman Tantra. Quais foram suas primeiras influências?

A honra é toda minha! Comecei na música ainda bem cedo, tocando contrabaixo de forma autodidata em bandas de death metal de minha cidade natal Ituiutaba, MG. Eu tinha 16 anos e além das linhas de baixo, escrevia as músicas e desenhava logos, capas das demos, uma atividade que se ampliou pelo país e fora dele, pois com isso fiquei relativamente conhecido no underground e hoje somo mais de 100 capas de CDs criadas por mim para bandas do Brasil e do mundo. Com o tempo fui distanciando-me da música e dedicando-me mais às narrativas gráficas, HQs e ilustrações, mas retomei o interesse por compor em 1999, quando comecei a criar minhas HQtrônicas – histórias em quadrinhos eletrônicas - no mestrado em multimeios da Unicamp e queria desenvolver as trilhas sonoras para elas. Assim aconteceu o meu encontro com a música eletrônica e digital, comecei a utilizar softwares para produzir as trilhas sonoras e me encantei com as possibilidades da sonoridade digital. Obviamente passei a ouvir bandas que utilizavam sonoridades eletrônicas para criar ambiências obscuras e encontrei entidades como Abruptum, Merzbow, Brighter Death Now, Mental Destruction, Coph Nia e também comecei a curtir muito trilhas sonoras de mestres do eletrônico como John Carpenter e Mike Oldfield, além de minha admiração pelo progressivo de bandas como Tangerine Dream e King Crimson. O Posthuman Tantra surgiu durante minha pesquisa de doutorado em artes na USP, como parte da produção transmídia para meu universo ficcional da “Aurora Pós-humana”, o objetivo é e sempre foi criar ambiências sonoras para minhas ficções pós-humanistas, e a idéia é ser experimental, não estar preso a nenhum estilo ou tendência musical. O Posthuman Tantra em suas performances tem o grupo formado por mim, Ciberpajé Edgar Franco (musicista e performer), I Sacerdotisa Rose Franco (musicista e performer), Luiz Fers (Performer e Figurinista) e Lucas Dal Berto (VJ).

Foto José Loures

2. E como surgiu a idéia de gravação do primeiro álbum da banda, “Pissing Nanorobots”? Como foi o processo, você entrou em estúdio ou utilizou de tecnologias computadorizadas fora dele para a concepção do álbum?

Pissing Nanorobots foi um experimento ousado e visceral, utilizei apenas um computador Pentium 4 e alguns softwares e plug-ins de gravação para sua total composição e gravação, e o PC nem tinha uma placa de som especial. Foi algo totalmente caseiro, mas que surtiu um resultado inesperado e o álbum recebeu grande atenção fora do Brasil, com resenhas elogiosas em veículos importantes como o site bielorusso “The Machinist” que pontuou-o com a nota máxima. Até hoje é um dos trabalhos preferidos de muitos fãs da banda pelo mundo, mesmo depois de eu ter gravado outros álbuns com produção de qualidade e já somado mais de 30 horas de música lançadas pela banda
em 10 anos de existência. O álbum trata dos paradoxos existenciais das imbricações tecnológicas entre homem, biotecnologia, robótica, prostética e tecnofetichismo e as músicas são orgânicas e causam náuseas e tonteiras em muitos que se dispuseram a ouvi-lo na íntegra com bons fones de ouvido. Cuidado! (Risos).

3. Dentre tantos lançamentos, um que se destaca é a sua longa parceria com a grandiosa banda francesa Melek-Tha: como surgiu essa amizade entre você o grande Lord Evil?

Foi algo curioso e natural, eu era fã do Melek-tha e tinha dois CDs da banda, encontrei o endereço postal de Lord Evil em seu site e enviei a ele - sem nenhuma pretensão - o primeiro álbum do Posthuman Tantra, “Pissing Nanorobots” e uns fanzines meus. Lord Evil me escreveu dizendo que ficou entusiasmado com a sonoridade da banda e com minha arte e convidou-me imediatamente a realizarmos um álbum junto. Então fizemos a parte I da “Quadrilogia Kelemath”, que narra a invasão de uma espécie pós-humana vinda da galáxia de Sirius e que envolveu música e cards criados por mim. O sucesso dessa primeira parte nos levou a desenvolvermos as outras 3 partes subsequentes, sempre lançadas em boxes especiais na França e com tiragens limitadas e numeradas. Depois disso fizemos outras parcerias incríveis como nos álbuns triplos “Asylum of Slaves” e “Necronomicon Gnosis”, lançados também na França e com músicas das duas bandas e outras criadas em parceria por nós dois. Lord Evil tornou-se um amigo e espero criar outras obras em parceria com ele no futuro. O status global do Posthuman Tantra como banda subiu muito devido à essas parcerias, pois o Melek-tha é um culto global! Depois das parcerias com Lord Evil recebemos a proposta de assinar com a gravadora Suíça Legatus Records, em 2007, e iniciamos uma parceria que tem rendido bons frutos.

Foto Ciberpajé Edgar Franco

4. E conte-nos mais sobre a concepção da Quadrilogia Kelemath.

Foi um trabalho muito prazeroso de se fazer, Lord Evil me deu total liberdade criativa e traçamos um plano geral para a saga de invasão à Terra, baseei-me em meu universo ficcional da “Aurora Pós-humana”. As quatro boxes, que levaram 4 anos para serem gravadas e lançadas, uma por ano,  narram estágios dessa invasão, até a total dizimação da espécie humana na parte final com o sugestivo e simples título de “The End”. As boxes somam mais de 12 horas de música e mais de 20 cards criados por mim, com meus desenhos retratando criaturas e outros elementos da invasão. Elas tiveram tiragem limitada e numerada, por isso tornaram-se itens de colecionador. Foi até feita uma tiragem limitadíssima de 25 cópias de uma box reunindo as quatro partes! Apesar da dificuldade pra conseguir esses itens originais hoje em dia, já vi a quadrilogia completa disponibilizada em muitos blogs e sites para download, principalmente em servidores russos.

5. Sabemos que você é um artista multimídia, e que um dos seus maiores destaques fora do projeto musical, é o seu trabalho com artes, sendo que você pessoalmente fez a arte da capa de várias coletâneas e inclusive a capa de renomadas bandas de metal brasileiro. Qual a sua maior influência? Nota-se a olhos vistos que HR Giger é uma delas, mas gostaria de citar outras?

Sim, tenho trabalhos em múltiplas mídias, desde instalações interativas, passando por sites de web arte e chegando às ilustrações e quadrinhos, inclusive mantenho a revista em quadrinhos anual “Artlectos e Pós-humanos”, publicada pela editora Marca de Fantasia, que já está no número 8, e traz HQs curtas que se passam no meu universo ficcional da “Aurora Pós-humana”. Essa revista foi premiada com o Troféu Nacional Bigorna para os melhores do quadrinho brasileiro em 2009. Ano passado lancei o álbum “BioCyberDrama Saga”, pela Editora da UFG, uma parceria com o lendário quadrinhista Mozart Couto, a obra foi indicada ao Troféu HQmix 2014 de melhor Edição Especial Nacional. Minhas influências são múltiplas e não ficam restritas ao escopo das artes plásticas, considero-me influenciado por cinema, literatura, quadrinhos, música, poesia, escultura e todas as formas possíveis e impossíveis de expressão. Mas vou falar apenas de Giger aqui, pois é um momento triste, perdemos um dos maiores gênios da arte. A primeira vez que vi a arte de H.R.Giger fiquei fascinado e deslumbrado, suas imagens eram ao mesmo tempo repulsivas e sagradas, eróticas e grotescas, sensuais e macabras. Os mundos que ele criava eram únicos, cosmogonias arquetípicas que vislumbravam aspectos transcendentes de nossa espécie. Sua obra visionária motivou até artigos de Stanislav Grof, um dos criadores da psicologia transpessoal que via na arte de Giger aspectos pregnantes do chamado "trauma perinatal". Em 2009 estive na cidade do mestre, Gruyère, na Suíça, e passei 4 horas visitando seu deslumbrante museu, uma das experiências de mergulho artístico mais fascinantes da minha vida, pois era o museu que eu mais sonhava em conhecer em toda a Europa e o amigo Mike Vonlanthen, proprietário da gravadora “Legatus Records”, me deu esse inestimável presente na época que fui à Suíça para acompanhar a masterização do segundo álbum do Posthuman Tantra lançado pela Legatus. Desenhei no livro de visitas do "Museu H.R.Giger" uma arte em homenagem a ele e minha gratidão por existir e nos brindar com sua obra magnífica. Tenho certeza que ele leu, pois ia sempre ao museu. Depois da emocionante visita ao museu, fomos ao Bar H.R.Giger, e lá tirei muitas fotos, algumas utilizadas em matérias sobre o Posthuman Tantra, como na entrevista para a revista Comando Rock # 86. O grande mestre iconoclasta Giger tornou-se encantado, receba minha reverência e minha gratidão por transformar-me através de sua obra.

Foto I Sacerdotisa Rose Franco

6. Voltando ao campo musical, qual é o seu trabalho ou participação favorito?

É quase um clichê dizer isso, mas as obras são como filhos, é difícil eleger um trabalho do Posthuman Tantra que eu considere o melhor, todos têm para mim sua importância e retratam fielmente o momento da banda e de minha experiência de vida. Portanto elejo como o melhor trabalho aquele em que estou envolvido no momento, pois ele reflete o que sou agora. Estou gravando meu terceiro álbum pela Legatus Records, “The Cybershaman’s Rising”, envolvido com o processo criativo já há mais de dois anos, não tenho pressa, mas trabalho com muito entusiasmo nele. O mesmo vale para as participações especiais, já participei de mais de uma dezena de álbuns, e os convites partem inclusive da cena metal brasileira, só pra citar algumas bandas em que realizei participações especiais em CDs: Lycanthropy, Scibex, Psychotic Eyes, Alpha III, Maldoror, Each Second, Melek-tha (França), Xa-mul (Inglaterra), Kenji Siratori (Japão), entre muitas outras.


7. Como não poderia deixar de ser, sabemos que você tem influências dentro do heavy metal e suas variadas vertentes: gostaria de citar algumas bandas que te influenciaram?

Sim, gosto muito de heavy metal, nas mais diversas vertentes, indo do melódico ao black metal, assim como de rock em geral e música erudita. Algumas bandas de metal que considero influências para o Posthuman Tantra e que obviamente gosto imensamente são – vou citar apenas 11, pois a lista é imensa: Celtic Frost (e agora o Tryptycon do grande Tom Warrior), Katatonia, Anathema, Marduk, Type O Negative, Omen, Manilla Road, Sarcófago, Medicine Death, Taurus, Mutilator, e por aí segue!

Foto José Loures

8. E o que você tem a dizer sobre a banda Alpha III? Acredito que Amyr Cantúsio Jr seja um dos artistas mais injustiçados da música Brasileira, não? Como surgiu essa amizade?

Amyr é um grande amigo com o qual já realizei importantes parcerias, uma honra inominável para mim, pois o considero um dos maiores tecladistas da história do rock, um gênio sem precedentes, mágico criador de melodias. Já conhecia a obra magistral de Amyr através de alguns vinis que tinha adquirido do Alpha III, sua banda, e em 2007, quando do lançamento do meu primeiro álbum pela “Legatus Records”, o “Neocortex Plug-in”, enviei um pacote promocional com o CD para a extinta revista “Rock Hard Valhalla”. Cantúsio era redator da revista e foi incumbido de fazer a resenha de meu CD, e escreveu uma resenha sensacional, compreendeu perfeitamente a proposta e deu nota 9 para o álbum, ele entrou em contato comigo e ainda realizou um entrevista que foi publicada juntamente com a resenha. Houve uma identificação imediata entre nossas propostas e surgiu a possibilidade de criarmos juntos devido à nossas afinidades estéticas, filosóficas e mágicas. A primeira parceria foi o álbum “Gothik Kama Sutra” do Alpha III & Posthuman Tantra, no qual tive a chance de criar faixas em parceria com esse gênio da música, de lá pra cá realizamos outras parcerias e Amyr acaba de gravar uma faixa para o tributo ao Posthuman Tantra que será lançado pela gravadora “412 Recordings”, da Inglaterra. Um artista genuíno e do calibre de Amyr não está preocupado com reconhecimento e sim em criar sempre, ele segue lançando álbuns e compondo e tem um público fiel que acompanho sua obra que está além de seu tempo e só será devidamente desfrutada por gerações futuras. Amyr Cantúsio Jr é um exemplo dos grandes artistas geniais que seguem à margem no underground, que dão ao mundo o que ele precisa e não o que ele deseja.
N.D.E. O Tributo "Posthuman Tantra: Ten Years of Posthumanity"foi lançado em novembro de 2014 pela gravadora inglesa 412 Recordings e incluiu a participação de 14 bandas prestando sua homenagem ao Posthuman Tantra.

Flyer divulgação do Tributo de 10 anos do Posthuman Tantra

9. Como são as performances do Posthuman Tantra? Em que lugares em com quais equipamentos você costuma se apresentar?

O Posthuman Tantra pretende ser um casamento constante entre as minhas criações visuais, o universo da música eletrônica e as performances transmídia. Desde sua criação, em 2004, a banda já participou de dezenas de compilações em quatro continentes e lançou álbuns no exterior, em países como França, Suíça e Japão; além de ter se apresentado em quatro regiões brasileiras durante eventos acadêmicos nacionais e internacionais. As performances ao vivo do Posthuman Tantra configuram-se como apresentações multimídia. Elas contam com vídeos exclusivos feitos com minhas artes, aplicações computacionais e eletrônicas e ações artísticas exclusivas criadas por mim em parceria com os integrantes do grupo de pesquisa CRIA_CIBER, que eu coordeno e está ligado ao “Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da FAV/UFG”. O uso de efeitos computacionais em realidade aumentada confere um caráter “cíbrido” às performances, criando os chamados ambientes cíbridos - que integram simultaneamente o real e o virtual. O Posthuman Tantra foi uma das primeiras bandas do mundo a usar esse recurso no palco. As performances do grupo envolvem fortes aspectos tecnognósticos e propõe aproximações entre transcendência e hipertecnologia através de uma contextualização baseada na ficção científica e contextualizada no universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. Ao mesmo tempo, repudia a assepsia das imagens publicitárias que induzem ao consumo e à destruição da biosfera perpetrada pelas multinacionais auxiliadas pelas grandes agências publicitárias globais. Os atos das performances são encarados como “ciberpajelanças”, pois unem de maneira singular aspectos da cultura ancestral nativa das tribos brasileiras, sobretudo suas percepções transcendentes através da incorporação de totens míticos animais e vegetais nos rituais de cura e energização, às novas perspectivas pós-humanas abertas pela criação e incorporação de mundos digitais, cosmogonias computacionais possibilitadas pelo amplo universo das imagens numéricas e da hipermídia. O ciberpajé da performance hibridiza o mundo das realidades vegetais  - acesso às cosmogonias míticas através do uso de enteôgenos -  com o das realidades cíbridas - criação de cosmogonias digitais -, gerando um novo corpus transcendente. Aliamos ao contexto da ciberpajelança aspectos tecnofetichistas amplificados com base na interconexão acelerada entre o ser humano e novas tecnologias como robótica, telemática, realidade virtual e transgenia. Propondo um deslocamento conceitual para um futuro vislumbrado onde a sexualidade envolve novos servomecanismos sexuais, híbridos humanimais transgênicos, inteligências artificiais sensuais e taras ancestrais. Desde 2010 quando iniciamos as performances ao vivo, já somamos mais de 20 apresentações em eventos de caráter acadêmico como o “ART# Encontro Internacional de Arte e Tecnologia” (Museu da República, Brasília), e importantes festivais de música alternativa como o “Woodgothic Festival” e o “Goiânia Noise Festival”, já passamos por 4 regiões brasileiras, só não nos apresentamos ainda na região norte. O set de palco do Posthuman Tantra conta com 3 computadores, controlador midi Ozone, sintetizadores Korg, mesa de 4 canais, datashow e alguns instrumentos acústicos, além de todos os figurinos exclusivos e dispositivos para efeitos de mágica eletrônica.

 
Foto José Loures

10. Seu trabalho inclui além de música, um híbrido de audiovisual quase que inédito e além dos padrões brasileiros: existem outras pessoas por trás da sua música pós-humanista?

É importante ressaltar que em estúdio o Posthuman Tantra é uma one-man-band, eu componho e gravo todos os instrumentos e vozes, eventualmente contando com a participação de alguns convidados especiais. Mas nos palcos o Posthuman Tantra é um trabalho em conjunto, a concepção, criação e direção continua sendo minha, mas conto com a participação efetiva de muitas pessoas para a produção geral e nas performances. A única pessoa fixa na equipe de palco é a I Sacerdotisa da Aurora Pós-humana, Rose Franco, musicista e performer que esteve em todas as performances realizadas até o momento. Os demais integrantes são pesquisadores do grupo de pesquisa CRIA_CIBER, a maior parte deles orientandos meus de iniciação científica, mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da UFG – Universidade Federal de Goiás, em Goiânia – universidade em que eu leciono. Muitos fazem apenas uma participação esporádica fotografando uma das apresentações ou auxiliando-me na edição de um dos vídeos do show, outros estão conosco há muito tempo, como o genial figurinista e performer Luiz Fers, que cria em parceria comigo todas as indumentárias, máscaras e demais acessórios utilizados nas performances. Fers já está trabalhando conosco há quase quatro anos, sempre presente nas performances atuando também como auxiliar de palco, a sua pesquisa de iniciação científica em artes visuais, orientada por mim, foi a criação de parte dos figurinos do Posthuman Tantra. Além de Luiz, dezenas de outras pessoas colaboraram e colaboram com o Posthuman Tantra e recebem os devidos créditos à época de suas participações, meu agradecimento sincero a todos eles. Eventualmente pessoas que não integram o grupo de pesquisa também colaboram com a banda, como o animador George Chiavegato, que desenvolveu em parceria comigo a animação que está presente no ato final do show.

Foto José Loures

11. Conte-nos como aconteceu a censura na dita faculdade Unievangélica? O que realmente ocorreu e o que você pensa de instituições de ensino em que a diretiva é censurar a arte ao invés de fortificá-la? O que você acredita que possa ter ocorrido de tão ofensivo?

No dia 22 de outubro de 2013 tivemos nossa performance interrompida na quarta música (de 8 programadas) durante o “Congresso Internacional de Pesquisa, Ensino e Extensão da UniEvangélica de Anápolis/GO”. Ao final do quarto ato, intitulado "Iniciação sexual com um robô multifuncional", a organização do evento acendeu as luzes do auditório e numa atitude de explícita censura bradou do fundo do auditório que a apresentação estava encerrada, causando enorme constrangimento em toda a equipe do Posthuman Tantra. O tempo da apresentação tinha sido combinado previamente com a organização e teríamos ainda mais de 25 minutos, o que daria para completar o set. Após a atitude inquisitória de censura explícita, tentei ponderar mas não fui ouvido e declarei então para todos os presentes que estávamos sendo censurados, tudo está registrado em vídeo que pode ser visto no canal do Posthuman Tantra no Youtube. O Posthuman Tantra foi convidado pela organização do evento, que ao realizar o convite deveria saber do que se trata nossa performance artística - existem vídeos, fotos e detalhes sobre ela em nosso canal do Youtube, Myspace e Facebook. A apresentação foi programada com os mesmos atos que têm sido apresentados em 4 regiões brasileiras, em eventos nacionais e internacionais de pesquisa. Inclusive , no dia 20 de setembro de 2013, realizamos uma apresentação na UEG (Universidade Estadual de Goiás) em Anápolis com excelente recepção e resposta do público presente. Não bastasse o ato de censura e todo o constrangimento que passamos ainda ocorreu uma pressão para que deixássemos o palco o mais rápido possível. O Posthuman Tantra é uma ação artística que integra as investigações do grupo de pesquisa CRIA_CIBER, cadastrado no CNPq e ligado ao Programa de Pós-graduação (mestrado e doutorado) da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, do qual sou professor permanente. Todos os integrantes presentes no palco eram pesquisadores do grupo de pesquisa. Um episódio triste, que denota uma atitude discriminatória e arcaica de uma instituição universitária diante de uma apresentação de caráter artístico que se propõe a gerar reflexões e promover diálogos. Uma universidade deve estar aberta à "diversidade", ao "universo de saberes possíveis". Esclareço que o Posthuman Tantra não se liga a nenhum dogma e continuaremos nossa saga ainda com mais entusiasmo e energia! Destaco ainda que no dia 5 de novembro de 2013 foi enviada - pela coordenação do Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual, da FAV/UFG, uma moção de repúdio à censura ao Posthuman Tantra que aconteceu durante o Congresso Internacional de Pesquisa, Ensino e Extensão da UniEvangélica de Anápolis/GO. A Moção foi encaminhada aos coordenadores do evento que assinaram o convite impresso feito à Edgar Franco e equipe, sendo eles: o Reitor da UniEvangélica, o Prof. Msc. Carlos Hassel Mendes da Silva; o Prof. Dr. Francisco Itami Campos, Pró-reitor de Pós-graduação, Pesquisa, Extensão e Ação Comunitária; o Chanceler da UniEvangélica, o Sr. Geraldo Henrique Espíndola; e o Pró-reitor Acadêmico Prof. Ms. Marcelo Mello Barbosa. Nunca obtivemos nenhuma resposta à essa moção de repúdio e nenhum esclarecimento daquela instituição. Quanto a ser ofensivo, acredito que o que assustou os organizadores foi sua mentalidade medieval e despreparada que não teve o mínimo cuidado de tentar compreender o contexto de nossa performance e as reflexões críticas sobre as relações entre homem e tecnologia. Para mentes tacanhas representamos uma iconoclastia profunda, somos os arautos da dúvida que abalam as estruturas dos dogmas, que ameaçam tirar os incautos de seus úteros acolhedores, das mentiras seguras em que estão mergulhados. Muitas pessoas saem impactadas de nossas performances e a recepção é sempre extremista, ou gostam muito ou odeiam, e as duas reações nos interessam. Esse ato de censura foi uma prova para nós de que o que fazemos tem relevância, não criamos arte para entreter idiotas, criamos arte para nos expressarmos diante das mazelas desse mundo, assim é, assim será.

Foto José Loures

12. E para terminar, gostaria que você nos dissesse se tem algum plano ou convites para apresentações fora do Brasil, pois acredito que os fãs Norte Americanos, Europeus e Australianos estejam interessados em suas performances! Muito obrigado pelo tempo concedido, abraço pós humanista!

Já recebemos sim alguns convites, de promotores da Inglaterra e da Suíça, nesse caso para realizarmos turnês com algumas datas, incluindo shows na Alemanha e França. Os convites não se efetivaram simplesmente por questões de agenda, pois sou professor universitário e para uma turnê nesses moldes propostos preciso estar em período de férias, assim como tenho que acertar as agendas dos outros integrantes, todos com seus trabalhos fixos. Estamos em negociação ainda com alguns promotores europeus, mas por hora prefiro não dar detalhes enquanto não estiver com tudo acertado. No entanto, tenho como certo nos apresentarmos na Europa, onde está a maior base de fãs do Posthuman Tantra e um sonho pro futuro é o Japão, onde acredito que nossas performances ao vivo serão muito bem recebidas. Agradeço a oportunidade de ser entrevistado por você e convido os interessados em saber mais sobre o Posthuman Tantra a buscarem nossa comunidade no facebook, nosso canal no youtube e a visitarem meu blog “A Arte do Ciberpajé Edgar Franco” em http://ciberpaje.blogspot.com.br/ 

Grande abraço pós-humanista do
Ciberpajé (Edgar Franco).


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