quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Resenha sobre Retrogênese por Alexandre Winck

Muito se engana quem pensa em fantasia, ficção científica ou mesmo terror como apenas fugas da realidade cotidiana em nome do entretenimento vazio. Embora muitas vezes caia nesse erro, as boas obras do gênero sempre contêm metáforas sobre a vida real: sociais, políticas, religiosas, psicológicas, existenciais, etc. A trilogia do "Senhor dos Anéis" tem várias referências à Segunda Guerra Mundial e à industrialização, entre outros temas; "2001 - Uma Odisseia No Espaço" é um verdadeiro poema visual sobre a evolução do ser humano; Por isso, não se deve estranhar que a fantasia e ficção científica sejam usadas para apresentar ideias filosóficas, e somente no Brasil desenvolveu-se todo um gênero de quadrinhos voltado a isso, a HQ poético-filosófica ou fantástico-filosófica.
Capa interna de Retrogênese com arte de Edgar Franco
Edgar Franco é um dos grandes expoentes desse gênero e retorna a ele em "Retrogênese", feita em parceria com o artista Al Greco. Apesar dos conceitos abstratos que trabalha, e da arte com elemento surreais, que não segue a narrativa convencional dos quadrinhos, é uma história de fácil compreensão. Se você ainda não é iniciado nesse tipo de obra, pode ler que não vai ficar com aquela sensação de "não tem pé nem cabeça". Fala do ciclo da existência e da integração - e desintegração - do ser humano com a natureza, com o todo. Já inicia pela cena de abertura, com um planeta em formato de ovo e um ser humanóide que nasce de um ovo ligado à terra por um cordão umbilical. Apesar dos elementos de ficção científica, aqui a exatidão científica é o de menos, são imagens puramente metafóricas, poéticas.
O ser que nasce, na sua inocência, parece se misturar ao planeta, como se fossem um só. Sua existência é natural, pura, instintiva. È à medida que cresce, que descobre as ambições e anseios, o medo, a ânsia, é que o ser se desliga dessa pureza inicial, e precisa reencontrá-la.
Apesar de Franco também ser um artista brilhante, que desenha ele mesmo a maioria de seus trabalhos, encontrou uma feliz parceria com Al Greco. Sua arte tem uma fluidez que completa a beleza poética das imagens propostas pelo autor, ao mesmo tempo em que suas ricas hachuras reforçam os elementos mais sombrios e angustiantes, e também o visual orgânico, natural.
No final, o leitor pode ver as indicações de cena feitas por Edgar e comparar o que o roteirista escreveu com o resultado final ilustrado.
"Retrogênese", apesar de sua beleza, não é HQ comercial. Sua ficção científica não tem batalhas de naves espaciais. É uma obra que usa a narrativa poética e metafórica para estimular a reflexão, para o leitor tirar suas próprias conclusões. Se você já conhece e aprecia esse gênero de HQ, é leitura obrigatória. Se você não conhece, mas anda farto da mesmice e futilidade da grande maioria das obras comerciais, está aí a oportunidade de ler algo diferente e estimulante. 
*Alexandre Winck é escritor, roteirista e editor da revista Contos do Absurdo
Serviço:
Retrogênese
Roteiro: Edgar Franco - Desenhos: Al Greco 
Editora Reverso / Novembro de 2014 / 36 páginas / Formato 21x28 cm 
Papel couchê 115mg / P/B / Capa em alta gramatura.
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Matheus Moura ou com o autor Edgar Franco.