quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Confira a entrevista com o Ciberpajé ao Jornal Folha da Região de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro - por Anésio Neto

Ciberpajé em Ensaio "Bioma Cerrado", foto de Gabriel Tino
Entrevista dá colapso!
por Anésio Azevedo Costa Neto*

– Entrevistado: Edgar Franco, o Ciberpajé –

Conhecido nacional e internacionalmente, Edgar Franco é natural de Ituiutaba. É Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia, performance e histórias em quadrinhos e é mentor da banda Posthuman Tantra que em suas performances tem o grupo formado pelo Ciberpajé Edgar Franco (musicista e performer), I Sacerdotisa Rose Franco (musicista e performer), Luiz Fers (Performer e Figurinista) e Lucas Dal Berto (VJ).

01 – Anésio Neto: Como se deu sua paixão pelos Quadrinhos (HQs)?
Edgar Franco: Fui iniciado na narrativa sequencial pelo meu pai, Dimas Franco, um intelectual autodidata que introduziu as histórias em quadrinhos em minha vida ainda quando eu nem sabia falar. Desde muito cedo frequentava com ele a única banca e livraria de Ituiutaba à época, Livraria Barros. Aprendi a ler com os quadrinhos e nunca deixei de lê-los. Existe uma confusão tacanha que diz que quadrinhos são bons para incentivar a leitura de obras literárias, e aí a pessoa deixa de ler quadrinhos para se envolver com algo “sério”, a literatura. Isso é preconceito e imbecilidade de intelectuais retrógrados que não percebem a força e importância cultural das HQs, além da legitimidade única das Histórias em Quadrinhos como linguagem de possibilidades ilimitadas. HQ não é algo só para crianças e adolescentes, é uma forma de linguagem tão poderosa e ilimitada como a literária ou a cinematográfica, existem aspectos dos quadrinhos que não estão presentes em nenhuma outra arte narrativa, como aquele que chamo de “Percepção visual global”, em meu livro HQtrônicas (2008), ou seja, em uma revista em quadrinhos o passado, o presente e o futuro convivem em uma mesma temporalidade, pois ao ler um quadrinho, sua visão periférica continua percebendo os quadrinhos anteriores da narrativa – o passado – e também já vislumbra os quadrinhos posteriores – o futuro. A partir dos 12 anos, incentivado pelo amor às HQs e ao desenho, passei a desenhar meus próprios quadrinhos, publicando-os em fanzines, e depois revistas alternativas. Hoje, com 43 anos de idade, tenho mais de 2000 páginas de meus quadrinhos publicadas no Brasil e exterior, e já recebi premiações na área. Além de minha atuação como artista, também sou pesquisador, professor pós-doutor em artes, e tenho orientado diversas pesquisas de mestrado e doutorado sobre quadrinhos, no Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG – Universidade Federal de Goiás, onde sou professor.

Ciberpajé em Ensaio "Bioma Cerrado", foto de Gabriel Tino
02 - Como anda sua produção artística por agora?
EF – Ao longo dos anos fui ampliando minha atuação com artista e hoje sou o que pode se chamar de “artista transmídia”. Venho criando obras nas mais diversas mídias como: poesia, conto, aforismo, arquitetura (sou graduado na área), escultura, pintura, desenho, quadrinhos, HQtrônicas, fanzines, videoclipe, fotografia, videoarte, web arte, instalações interativas, música e performance. Tenho inclusive uma banda performática, o Posthuman Tantra, que já lançou CDs em países como França, Inglaterra, Suíça e Japão e tem se apresentado em eventos acadêmicos nacionais e internacionais, já tendo realizado performances em 4 regiões do Brasil. Em 2014 a banda completou 10 anos de existência e foi lançado pela gravadora inglesa 412 Recordings um tributo com 14 bandas realizando versões de minhas músicas como homenagem, incluindo bandas da França, Inglaterra, Colômbia e Brasil. Também em 2014 fui indicado ao troféu HQmix, o Oscar dos quadrinhos brasileiros, pelo álbum em quadrinhos BioCyberDrama Saga, obra criada em parceria com o premiado artista Mozart Couto. Lancei o álbum em quadrinhos Retrogênese, parceria com o desenhista Al Greco, e saiu o oitavo número de minha revista em quadrinhos solo “Artlectos e Pós-humanos”, publicada pela editora acadêmica Marca de Fantasia, também coloquei no ar a obra Canal666Br, trabalho de web arte que pode ser visto no endereço www.canal666br.com, e lancei um videoclipe da banda. Para 2015 tem muitas coisas sendo desenvolvidas nas mais diversas mídias, quadrinhos, web arte, performance, desenho. Sou muito produtivo, pois amo o que faço. É importante destacar que desde 2000 toda minha produção tem como base um universo ficcional que venho desenvolvendo, a "Aurora Pós-humana", um work-in-progress criado por mim desde o ano de 1999. Para ele já criei inúmeros trabalhos em múltiplas mídias com destaque para os quadrinhos. Nessa minha FC, imagine um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, quando milhares de pessoas abandonaram seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imagine também que neste futuro hipotético a bioengenharia tenha avançado tanto que permita a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Nesse contexto ficcional as duas "espécies pós-humanas” tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo, enquanto uma pequena parcela da população - uma casta oprimida e em vias de extinção -, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças.

03 - Como consegue conciliar sua vida acadêmica com a produção artística?
EF – Sou produtivo e criativo porque consegui conectar tudo que faço. Cada obra de arte que crio serve de base para minhas pesquisas sobre processos criativos, e escrevo artigos e livros a partir disso. Sou muito focado e não perco tempo com coisas idiotizantes que ainda ocupam a vida diária das pessoas como a televisão e seus programas alienantes. E detalhe, durmo cedo e acordo cedo, tenho uma alimentação balanceada, só consumo alimentos orgânicos e sou vegetariano restrito (não consumo nada de origem animal, nem seus derivados). Pratico uma arte marcial e outras atividades físicas. Busco o equilíbrio entre espírito, mente e corpo.

04 - Qual seu interesse na arte contemporânea?
EF - 90% daquilo que chamam de arte contemporânea é lixo intelectualizado baseado em conceitos pobres e desestimulantes. Não me interessa. Movimentos e tendências da arte não me interessam! A grande arte surge isoladamente, é fruto da inspiração de um artista ou coletivo e da capacidade técnica de transformar isso em poética. Mas a arte de qualquer tempo sempre tem 90% de porcarias, contra 10% de algo transformador.

Ciberpajé em Ensaio "Bioma Cerrado", foto de Anésio Azevedo Costa Neto
05 - O que um artista precisa ter, hoje em dia?

EF Um artista precisa ter coragem de ser ele mesmo, colocar-se em sua obra! Precisa abominar tendências, galerias, marchands, e a expectativa das pessoas. Arte genuína não tem nenhuma relação com entreter um público, ou criar um diálogo imbecil com seus pares. Agradar as massas, ou agradar os intelectuais acadêmicos do mundinho da arte é o mesmo lixo. O artista deve simplesmente ser, ser integral!

*Anésio Azevedo Costa Neto é Mestre em Artes pela UnB, graduado em filosofia pela UFU, professor da FTM/Ituiutaba, MG e escreve para o Jornal Folha da Região de Ituiutaba e Pontal do Triângulo Mineiro - onde esta matéria foi publicada.