domingo, 27 de dezembro de 2015

Brakan: Da Espada ao Nirvana

Por Edgar Franco
Texto de apresentação do álbum BRAKAN, de Mozart Couto, lançado pelas editoras Atomic & Quadrante Sul, em 2015.




Para mim foi um agradável desafio escrever o texto de apresentação dessa obra de fôlego daquele que é, sem nenhuma sombra de dúvidas, o maior quadrinista brasileiro do estilo capa, espada e magia. As histórias em quadrinhos de Mozart Couto encantam o público brasileiro desde o final da década de 70, quando iniciou sua participação no cenário brasileiro criando HQs para a lendária editora Grafipar. A exuberância, riqueza e beleza de seu traço une influencias múltiplas que vão de mestres da ilustração fantástica como Frank Frazetta e Boris Valejo, passando por quadrinistas como John Buscema e Alfredo Alcala e chegando a gênios da HQ europeia como Moebius, Caza e o argentino Juan Gimenez. A versatilidade de Couto e sua capacidade camaleônica como ilustrador, gerou nas duas décadas recentes obras com forte influência do estilo mangá, como pode ser visto nos álbuns Os Guerreiros de Ha-Kan e Samurai, lançados pela Atomic Books. Mas mesmo nessas obras é possível perceber a presença autoral do traço do mestre, pois certos detalhes e sutilezas únicas fazem de sua arte algo inimitável.

Acompanho o trabalho de Mozart desde os anos 80, e suas HQs de horror publicadas nas extintas revistas Mestre do Terror e Calafrio, da editora D-Arte, marcaram-me profundamente. Seu traço era algo mágico para mim e a densidade e atmosfera que ele criava em suas histórias - que sempre envolviam magos poderosos, ou monstros lovecraftinianos – fizeram tornar-me ainda mais apaixonado pelos gêneros da ficção científica (FC), fantasia e horror. Em meados da década de 80, quando acompanhava a produção de Mozart para as revistas de horror publicadas no país, fui surpreendido por uma edição nas bancas. Era o número 1 de Hakan, uma HQ de espada, magia, fantasia e toques de FC. Encantei-me com o trabalho, pois ele era tão bom quanto, ou até melhor que as HQs de Conan que eu acompanhava à época. A arte de Couto era de tirar o fôlego, sequências magistrais, épicas, quadrinhos dignos da exuberância de telas de Rembrandt, ou das capas de Frazetta.
Compreendi claramente que aquele era o universo visual no qual Mozart Couto mais explorava seu grande potencial artístico. E além dos desenhos extasiantes, o roteiro de Couto também era excelente.  Fiquei entusiasmado ao perceber que no Brasil tínhamos artistas desse calibre e torci para que Hakan, publicada pela editora Noblet, se tornasse um título mensal. Infelizmente a revista durou só três números, prejudicada pelo agravamento da recessão econômica no país.

Continuei acompanhando o trabalho de Mozart, sempre adquirindo todo e qualquer material que tivesse sua participação. A partir do fim dos anos 80 tornei-me também quadrinista e passei a colaborar com fanzines em todo o país, época em que percebi a grandeza e generosidade de Couto, que mesmo vivendo de seu trabalho como quadrinista e ilustrador encontrava tempo para colaborar com fanzines diversos como Historieta, Tchê, Mutação e Imaginação. Meus quadrinhos já caminhavam para a expressão poético-filosófica de influências místicas e transcendentes quando tomei outro grande choque ao deparar-me, em 1990, nas bancas com o álbum “O Viajante”, editado pela Ícone. Nessa obra ímpar, de proposta inovadora para a época, Mozart Couto apresenta a jornada iniciática de um homem, explorando magnificamente cenários fantásticos que conectavam influências de nossas culturas indígenas amazônicas a traços das culturas Inca, Maia e Asteca, somando a isso seus cenários abissais de verve lovecraftiniana. O trabalho apresentou algo importante da faceta autoral de Couto, seu envolvimento com a espiritualidade e com as buscas transcendentes. Algo que marca suas obras autorais desde então e o ponto chave desse álbum de Brakan, agora em suas mãos.

Dez anos depois de ler “O Viajante”, eu jamais imaginava que teria a chance ímpar de trabalhar ao lado daquele que sempre considerei um dos maiores artistas da HQ brasileira. No ano 2000, após ler um fanzine de minha autoria, BioCyberDrame, Mozart demonstrou-se entusiasmado pela temática e honrou-me com o convite para realizarmos um trabalho conjunto. A parceria culminou no lançamento pela editora Opera Graphica do álbum BioCyberDrama em 2003, pelo qual Couto recebeu o Troféu Ângelo Agostini de melhor desenhista e eu fui indicado ao troféu HQMix de melhor roteirista. Em 2013, foi lançado pela Editora UFG, o álbum BioCyberDrama Saga, dessa vez trazendo a saga completa do personagem Antônio. Somando mais de 250 páginas a obra foi indicada ao HQMix de melhor edição especial nacional. Acredito que o entusiasmo de Mozart em desenvolver esse trabalho comigo foi justamente a temática proposta na obra: tratar de buscas transcendentes em um cenário hipertecnológico repleto de criaturas pós-humanas.

Ao ler Brakan, essa nova obra de fôlego de Mozart, deslumbrei-me com a sofisticação cinematográfica de muitas das sequencias de ação do álbum – apresentando o refinamento ainda mais primoroso desse que é um dos maiores ilustradores do gênero capa e espada do planeta. Mas fiquei ainda mais impactado pelo roteiro que mostra o personagem, de verve guerreira e bárbara, iniciando uma jornada iniciática na busca de transcender seu ego e viver em paz consigo mesmo. O poder físico, bélico e a crueldade sendo substituídos pelo caminho em direção ao Satori.

Esse álbum de Brakan, personagem originalmente criado por Mozart em 1986, mostra o artista em sua melhor forma. Tudo é esplendoroso, a começar pela visceralidade da capa, cheia de movimento e força, mostrando a fúria de Brakan em sua fase como guerreiro. O Emissário da Escuridão, primeiro capítulo da saga, é um exercício de estilo do mestre, apresentando uma sequência de batalha entre o personagem e um demônio abissal com angulações inusitadas, planos irretocáveis e belos escorços. O principal vilão da história é apresentado, assim como outros importantes personagens da trama. Sequências de batalha como as das páginas 19 e 20 são impressionantes. A densidade produzida pelo jogo magistral de claros e escuros criado pela pena de Couto segue no segundo capítulo. Certas páginas são telas épicas como os quadrinhos das páginas 48 e 49. Mozart Couto experimenta com múltiplas possibilidades de arte final, indo de seu traço mais tradicional - apresentado no segundo capítulo com mais hachuras - para algo mais direto com fortes contrastes claro-escuro no início do terceiro capítulo. Mesmo diante dessas mutações de traço é impossível não reconhecermos o desenho do mestre. Páginas como as das sequencias 84, 85, 86 e 92, 93, 94 são uma prova definitiva de que você tem em mãos um álbum de um dos maiores narradores gráficos desse país. Poucos ilustradores no mundo conseguem criar cenas de batalhas medievais com tanto refinamento e força.

A partir do quarto capítulo, as batalhas de Brakan irão mudar de foco, e sua jornada iniciática começa. Mozart desconstrói a herança tradicional dos heróis das fantasias medievais de capa e espada, e FC criados por mestres como Robert E. Howard, Edgar Rice Burroughs, Alex Raymond e outros, todos baseados em capacidades físicas superiores e destreza, e sempre motivados a batalhar contra um mal iminente usando a força bruta e a habilidade no manuseio de armas. A perspectiva desse herói bélico ocidental é desconstruída pelo quadrinista ao investir na revolução silenciosa de seu personagem, resgatando da cultura oriental outra visão de herói: o herói pacífico, iluminado, aquele que alcançou o nirvana e venceu a égide do ego. Essa jornada iniciática apresenta a
mesma beleza plástica dos desenhos dos primeiros capítulos e reitera o caráter autoral, artístico e poético dessa magistral história em quadrinhos. Brakan é uma obra que merece muitas releituras para percebermos as sutilezas ricas presentes em sua arte e roteiro.