terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Ouroboros Cogumelo: 26 anos depois

(26 anos depois: Ciberpajé com os dois discos do Mutilator e a camiseta exclusiva. Foto da I Sacerdotisa)

No final da década de 1980 a Cogumelo Records era uma gravadora mítica para mim. Sou mineiro, do triângulo, e comecei a ouvir heavy metal em 1985 e naqueles tempos as informações sobre a cena eram raras e difíceis. Quando a Cogumelo Records, de Belo Horizonte, começou a lançar os materiais de bandas brasileiras, foi algo mágico. Eu recebia o catálogo da loja por correio e praticamente vi nascer de longe uma das cenas mais importantes do metal mundial. Os discos eram caros, então eu e meus amigos comprávamos poucos, e sempre que adquiríamos um, gravávamos fitas para todos e também faziamos as chamadas "tape trades" (trocas de fitas cassete) pelo correio. Lembro-me da emoção de ouvir o vinil compilação "Warfare Noise I" em 1986 e simplesmente enlouquecer com a visceralidade e força de Chakal, Holocausto e Sarcófago, mas a banda que mais marcou-me pela crueza e sonoridade foi o Mutilator. 
Dois anos depois gravei de um amigo o impactante "Immortal Force", primeiro álbum da banda, hoje um verdadeiro clássico do Death Trash metal que marcou definitivamente a banda na história do metal brasileiro e mundial. Lembro que na fita que gravei eu desenhei o logotipo da banda, como sempre fazia, com todos os detalhes, incluindo o 666 na foice, ouvir música era um ato estético para mim e foi nessa época que também comecei a criar música. Em 1989, fui pela primeira vez a Belo Horizonte visitar uma tia, na viagem além dos pontos turísticos que eu queria ver, como o complexo da Pampulha, a principal atração turística era minha visita à loja física da "Cogumelo Records", estava em êxtase com a possibilidade de conhecer o local, ver todos aqueles discos reunidos e queria comprar o segundo álbum do grande Mutilator, "Into The Strange", que tinha sido lançado há pouco e que não tinha ainda tido a chance de ouvir. Juntei o dinheiro do disco e até separei na carteira, era sagrado, fazia parte do ato ritualístico de visitar o "templo" do metal mineiro e sair de lá com um petardo. 
E assim foi, lembro-me de chegar na loja e uma turma de "metaleiros" estarem lá dentro e alguns de fora, passei uma hora ali, olhando cada disco, sentindo a atmosfera, e ao final sai de lá com o desejado segundo vinil do Mutilator, ansioso para ouví-lo. Lembro-me de levar no colo o disco, na viagem de ônibus de volta, preocupado com a possibilidade dele quebrar! Ouví-lo, já em minha cidade, Ituiutaba, foi um delírio, o disco apresentava uma banda mais melodiosa e madura, mas ainda cheia de força e peso, perdi a conta de quantas vezes ouvi esse petardo, decorando cada riff. Infelizmente pelas circunstâncias da vida e do destino, o Mutilator acabou e deixou como legado para o mundo essas duas incríveis obras. 
Ao longo dos anos estive outras vezes em Belo Horizonte, mas em circunstâncias que me impediram de voltar à Cogumelo, ou na época em que a loja física esteve fechada, mas durante a segunda metade da década de 1990, época do decretado "fim do vinil", garimpei em sebos de cidades que visitei e com amigos vários dos vinis lançados pela Cogumelo nos anos de ouro, infelizmente nesse tempo nunca consegui adquirir o primeiro álbum do Mutilator em vinil. Em 2014, conversando com um aluno e grande amigo de Goiânia, o Guga Valente, descobrimos que ambos temos essa fascinação pelo Mutilator, e Guga veio me contar que conseguiu comprar em um sebo de Brasília o vinil "Immortal Force"! Alguns dias depois recebi de Guga um presente incrível, uma camiseta criada artesanalmente por ele com o logotipo clássico do MUTILATOR. Fiquei emocionado com o presente, e voltei a ter em mente a ideia de completar minha "coleção" do Mutilator com o primeiro disco. Descobri na Internet que tinha sido lançada pela cogumelo uma edição comemorativa em vinil do desejado álbum, e o melhor, uma versão picture! Mas também sabia que voltaria à Belo Horizonte em 2015 para participar do FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, então fiz um plano mental, retornar à loja da Cogumelo Records 26 anos depois para completar minha coleção do Mutilator e rever a loja. Assim foi feito, convidei alguns amigos especiais, também amantes do metal - Rubens César Baquião, Matheus Moura, Guilherme Silveira, Vizette Priscila Seidel, e Kadi seguimos a pé pelo centro de BH procurando o novo espaço da loja, depois de algumas buscas infrutíferas chegamos ao segundo piso de uma galeria e lá estava a loja, e o mais emocionante foi encontrar lá o grande amigo Charlie Curcio, da banda lendária STOMACHAL CORROSION, que tive a honra de conhecer pessoalmente. 

Tela original da arte da capa do disco "Rotting" do Sarcófago, obra de Kelson Frost. 
Foto de Rubens Baquião

Curcio trabalha na loja e nos atendeu com muita atenção ao lado do lendário "João" dono do selo que revelou os grandes nomes do metal Brasileiro. Ao fundo da loja - para meu delírio completo - 2 telas originais das capas de dois dois mais importantes discos lançados pela cogumelo: Schizophrenia (SEPULTURA) & Rotting (SARCÓFAGO). A arte de capa de "Rotting" é para mim a mais bela e blasfema da história do black metal e seu criador, o genial Kelson Frost, o maior capista de metal do país, ver essa arte de perto foi uma grande emoção. Vasculhei com calma as prateleiras da loja, e tinha confiança que encontraria o cobiçado vinil lá, e logo estava com ele em minhas mãos. Saí da loja com o primeiro disco do Mutilator, e refletindo sobre minha vida 26 anos depois, quando a cobra mordeu o rabo, e eu me sinto ainda mais forte, vivo e grato pela oportunidade de continuar na jornada.

O Ciberpajé e o grande Charlie Curcio (Stomachal Corrosion), diante da lendária loja da Cogumelo, em Belo Horizonte. Foto de Rubens Baquião.

26 = 2+6 = 8