segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Arquivo X: Somando temas sérios inspirados pela ciência de ponta às bizarrices do inóspito. Entrevista ao Ciberpajé Edgar Franco, para o "Jornal O Hoje", por José Guilherme Abrão.

Capa do livro de Ariadne Rengstl


JORNAL O HOJE 01 - Primeiro, como você conheceu Arquivo X e o que te atraiu?

Ciberpajé - Sou um criador aficionado pelas possibilidades amplas da ficção científica como canal poderoso para discutir questões emergentes em nossa sociedade e no mundo contemporâneo. A FC é hoje uma das formas narrativas multimidiáticas mais contundentes a questionar a nossa realidade e a nossa relação cada vez mais intrincada com as tecnologias recentes. Séries como Black Mirror e Real Humans conseguem tocar profundamente em problemas fundamentais, nos quais mesmo a filosofia contemporânea derrapa. Antes de conhecer Arquivo X, eu já era um apaixonado por séries de TV das décadas de 60, 70 e 80 que lançavam mão da FC, da Fantasia e do Mistério para criar histórias envolventes e questionadoras. A mais fascinante delas foi Twilight Zone, que estreou nos EUA em 1959, e foi chamada de "Além da Imaginação", no Brasil, teve continuações nas décadas de 80 e 90. Outras séries notórias com esse enfoque foram The Outher Limits e The Amazing Stories. Arquivo X é, na verdade, o resultado da somatória do mote dessas séries, que tinham episódios fechados com começo meio e fim, com o grande sucesso que as séries televisivas com personagens fixos começou a fazer. Assim temos 2 personagens fortes e basais, que vivem histórias fantásticas a cada episódio. Quando vi um episódio da primeira temporada, na época de seu lançamento, fiquei imediatamente fascinado, a construção de personagens era forte e a atmosfera da série densa.

JH 02 - A estética da série é muito peculiar com influencias Pulp e de filmes B e ficção-científica de meados do século,  o que você pode falar sobre isso?

C -Chris Carter soube incorporar sagazmente um visual inspirado pelo cinema noir aos aspectos mais gores e viscerais dos filmes de FC de baixo orçamento. Essa estética é um dos pontos fortes do seriado.

JH 03 - Os temas trabalhados também são interessantes. Às vezes eles abordam temas contemporaneos e sérios do sci-fi, como a ameça da Singularidade, e em outros aconteciam episódios muito bizarros e absurdos, uma coisa bem 'monstro da semana', tipo o platelminto gigante que ataca as pessoas na privada que tem na segunda temporada.

C- Esse é um dos charmes do seriado, a concepção ampla do que é o bizarro, de que vivemos em um mundo extremamente complexo e que nenhuma filosofia ou mesmo a ciência conseguem dar conta das complexidades de nossa realidade. Acho que os roteiristas leram o "Livro dos Danados" de  Charles Fort, uma contundente obra de 1919 que já questionava os limites e até a ineficácia pueril da ciência ao tentar explicar fenômenos completamente inexplicados. Esses fenômenos, muitas vezes, são extremamente obtusos e bizarros, como contundentes chuvas de peixes vivos e abduções de cidades inteiras. A ideia de articular no todo da série reflexões filosóficas e científicas baseadas em pesquisas de ponta, como a citada Singularidade, a nanoengenharia, a emergência da IA e somar isso às bizarrices inexplicadas que vão das experiências de abdução e chegam aos monstros mutantes, é mágica, pois vivemos em um mundo de grande complexidade e somos naturalmente fascinados pelo mistério insolúvel por trás dessas histórias.

JH 04 -Você assistiu tudo? Acha que a série perdeu a mão ao longo do tempo?

C- Assisti as 5 primeiras temporadas na íntegra, depois disso passei a assistir episódios esporádicos. A série começou a tornar-se autoindulgente e autorreferencial demais. Começou a ser pensada só para fãs engajados e seguidores, assim perdeu o seu viço e a capacidade de atrair novos expectadores.

JH 05 - Você acredita que é uma série relevante até hoje?

C- A temática da série é universal e poderosa. Minha irmã, a Msc. Ariadne Franco, escreveu um instigante livro analisando a força arquetípica dos personagens de Arquivo X, uma das razões de seu sucesso. O livro se chama "Arquivo X Arquétipo: Mitos e Símbolos no Seriado Arquivo X" (http://marcadefantasia.com/livros/quiosque/arquivox/arquivox.htm), foi lançado pela editora Marca de Fantasia em 2005, e tive o prazer de ilustrá-lo. O ponto forte dos dois personagens basais da série é a tensão entre eles, Scully representa a ciência dogmática que acredita ter a resposta para todos os fenômenos, mas vive derrapando e se sentindo perdida e até meio imbecil, ela é contida e pragmática. Mulder é o arquétipo do alquimista, ele acredita na ciência, mas sabe que ela não tem todas as respostas por isso lança mão de outras tecnologias desde o ocultismo até o xamanismo, ele encarna o cientista místico, e é mais inconsequente, impetuoso, libertário. A somatória dos dois é explosiva e poderosa. As 3 primeiras temporadas do seriado são impecáveis, realmente maravilhosas e atualíssimas. Melhores do que 90% de toda a FC produzida hoje.

JH 06 - Acha que ela ficou datada? As gravatas do Mulder tendem a ser bem chocantes hoje em dia.

C- Não acho que a série perdeu o viço não, a maior parte de seus temas são atemporais, continua relevante e é por isso que, com a série crise criativa no cenário mainstream, vão resgatá-la.

JH 07 - Qual você acredita ser o legado da série?

C- A ruptura que realizou ao conseguir mixar temas sérios inspirados pela ciência de ponta às bizarrices do inóspito!

JH 08 - E para estes novos episódios, está empolgado? O que espera deles?

C- Não gostei dos longas-metragens, achei enfastiantes e também autoindulgentes, muito decepcionantes. Foram criados justamente após a decadência que ressaltei, depois da quinta temporada. Penso que depois de tantos anos, talvez o retorno não tenha só objetivos financeiros, darei uma chance à série e assistirei aos primeiros episódios. Mas confesso que não tenho grandes expectativas.

Leia a matéria resultado dessa entrevista que foi publicada na edição do jornal O Hoje, de Goiânia, no dia 24/01/2016 no link:

Captura de tela da versão on line do Jornal O Hoje

EDGAR FRANCO é Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da UFG. Possui obras premiadas nacionalmente nas áreas de arte e tecnologia e histórias em quadrinhos.