domingo, 24 de janeiro de 2016

O Cibercangaceiro enviado por Gaia - Resenha do Clipe "Ato VI: Lúcifer Transgênico" do Posthuman Tantra pela IV Sacerdotisa Danielle Barros


IV Sacerdotisa
Para mim é sempre uma honra e uma alegria ver as criações do Ciberpajé! Na oportunidade venho comentar minhas impressões sobre o novo clipe do Posthuman Tantra , com o "Ato VI - Lúcifer Transgênico", dirigido e editado por Anésio Azevedo Costa NetoDaniel Rizoto e pelo próprio Ciberpajé. 
Outro dia eu comentei em um texto que, em uma outra época padecíamos da falta de acesso à informação e vivíamos cegos e alheios a uma série de questões e acontecimentos. Paradoxalmente, hoje padecemos exatamente do oposto, vivemos na era da hiperinformação. Recebemos uma avalanche de textos, imagens, fotos, notícias, muitas sem pertinência alguma. Ficamos atolados e exauridos de tanta informação e alheios sobre o que realmente importa. Esse trabalho artístico é uma daquelas “coisas” que “realmente importam”, mas que muitas vezes passam sem a devida valoração diante de tanta carga de informação a que somos expostos diuturnamente.
Mas escrevo este texto para destacar o devido valor dessa arte, de sua pertinência conceitual e de sua beleza.
Todas as vezes que me proponho a resenhar alguma obra do Ciberpajé gosto de ressaltar que embora eu não seja nenhuma especialista em arte, sou profundamente conectada a seu ideário, sendo essa uma das razões de ser nomeada IV Sacerdotisa. Então mesmo não sendo especialista, sou entusiasta, sou crítica, sincera e mais importante, sou cidadã do mundo. Portanto, pensar sobre as questões do planeta, da degradação das espécies, da autodestruição humana, e das mazelas que temos vivenciado em decorrência da morte da essência individual de cada ser, são temas urgentes e que muito me interessam.
Como o clipe é repleto de hipertextos conceituais irei comentar alguns que destaquei, uma vez que a obra está aberta a diversas leituras distintas. 
Um dos pontos que quero destacar é que o clipe é gravado em uma fábrica de laticínios abandonada da cidade mineira de Ituiutaba. Achei curioso e uma sincronicidade importante um clipe que aborda sobre total desertificação do planeta e a autoextinção da espécie humana sendo gravado em um local que faz referência a um dos principais motivos do desperdício e gasto de água, do sofrimento animal, pela total devastação das florestas e gerador de poluição que mais degrada o planeta que é a PRODUÇÃO ANIMAL (extração de peles, carne, leite, etc) de animais de criação (bois, frangos, suínos, etc). Ou seja, em um feliz paradoxo o clipe foi gravado em uma fábrica de laticínios abandonada, esse é, de fato, o futuro que nos reserva, o fim da produção animal, muito bem representado simbolicamente.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Já se sabe que a produção animal é uma prática insustentável e suicida que mina nossa água, devasta nossas florestas e biodiversidade, já estamos cientes que ingerimos veneno, pois a agroindústria tem se valido da biotecnologia para aumentar os lucros e envenenar seus consumidores para acelerar o plantio, colheita, para engordar o gado, para aumentar a produção do leite. E é fato e muito se sabe que existe uma infinidade de alimentos ricos em proteína, ferro etc que estão disponíveis em outras fontes alimentares, porém a produção animal é a mais explorada.

Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
O nome do clipe faz alusão ao termo “transgenia”, e embora na acepção do termo seria uma “transgenia” em prol de uma mutação para o bem (com a vinda do Lúcifer Transgênico, uma nova espécie gaiana em harmonia cósmica, a sétima raça que substitui a raça humana), na prática, sabemos que os transgênicos visam mesmo é o LUCRO, e ao contrário do discurso falacioso inicial, eles NÃO foram criados para "matar fome da população mundial", já que os famintos permanecem com fome. Além disso, os consumidores de alimentos transgênicos estão sendo COBAIAS de suas consequências (já que não se sabe as consequências da transgenia), os que se opõem à isso, por vezes consome também, já que os avisos nas embalagens estão sendo retirados pelo falacioso e falso “princípio da equivalência”. Sabemos que os que resistem ao agronegócio in loco (sobretudo os povos indígenas) estão sendo massacrados e a mídia ainda vende a imagem de que o índio é bandido (e na mitologia da Aurora Pós-Humana eu diria que os resistentes são os povos indígenas hoje em dia)
Sabemos que comemos veneno, pois a agroindústria tem se valido da biotecnologia para aumentar os lucros e envenenar seus consumidores para acelerar o plantio, colheita, para engordar o gado, para aumentar a produção do leite. São temas delicados e urgentes a serem discutidos, porém a humanidade caminha para o abismo. Pois não estamos falando de “futuro”, pois como o Ciberpajé mesmo cita o termo criado por Phillip K.Dick, sobre o deslocamento conceitual, estamos é precisando discutir as questões atuais representadas em um futuro hipotético e já está acontecendo:
Queimadas e derrubadas de floresta para plantação de soja e outros transgênicos, devastação de terras para criação animal, expulsão de famílias da zona rural para obtenção de mais espaço, submissão de agricultores ao agronegócio e sementes patenteadas, uso indiscriminado de venenos, aumento das mais variadas doenças (cânceres, doenças degenerativas, alergias alimentares, etc) em consequência de tudo isso. O que virá em breve? Ficaremos sem espaço para criar animais e obter ração suficiente para alimentá-los, aumentarão os maus tratos aos animais, que serão submetidos a cubículos, a quantidade de água escassa não será possível para fazer queijos, iogurtes, hambúrgueres, chocolates e tudo mais que necessita de uma GRANDE quantidade de água para produzir. Somente os mais ricos terão acesso a essas "iguarias" e os pobres terão que comer subprodutos cárneos para em seguida serem submetidos a um veganismo forçado, regado a muitos alimentos transgênicos e repletos de agrotóxicos. Ou seja, JÁ VIVENCIAMOS ISSO, estamos comendo veneno, e a tendência é aumentar, só que em breve: Com menos água, mais calor e menos poder de "decisão" sobre como agir. E eu nem mencionei sobre a exponencial geração de LIXO! 
A letra da música trata poeticamente de todas essas questões! Morte, sofrimento, secura, desespero, agonia, extinção, transgenia, a DEMÊNCIA HUMANA, pois por mais que seja racional, É BURRA, pois se autoextingue ao destruir outras espécies e ambiente.
Minha resenha não é um manifesto pelo veganismo, mas uma leitura crua e realista acerca da realidade caótica em que chegamos e isso sequer é discutido na sociedade, seja no campo artístico seja na instância pública ou política, são assuntos deliberadamente invisibilizados.
Depois de assistir algumas vezes diria que o clipe tem uma ritualística dividida em 6 partes: 1) O verde, a natureza primeva em seu estado selvagem, a chuva banhando a vegetação, umidade e vida; 


Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"

Em seguida, o paradoxo 2) Lugar inabitado, construto abandonado, vazio, destruição, 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
3) Resquícios de rastros de humanos e animais; 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
4) Surge a imagem do enviado de Lúcifer, o "ciber" cangaceiro pós-humano, representada pelo Ciberpajé, ele se prepara ritualisticamente (em suas vestes, anéis, cartola, adaga, olhar fixo) para destruir simbolicamente tudo que está conectado ao "humano demente", anda pelas matas;
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
 5) O Ciberpajé constata o rastro deixado pela humanidade, reverencia Gaia em um lamento sepulcral, um ato que antecede o ataque iminente e certeiro, missão cósmica que irá executar, 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
6)  Culminância do ato ritualístico, a destruição simbólica e intensa, catarse final do clipe, morte ao humano demente, destruição para o nascimento de uma nova era. A música densa como uma trilha de filme de ficção científica, traz a saga de uma humanidade que agoniza. 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Tem uma cena muito emblemática, o Ciberpajé aparece extirpando a humanidade, quando grita e põe o punhal pra cima, por diversas vezes.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
O clipe aborda temáticas como a morte, extinção, desertificação, devastação, em que as imagens formam um paradoxo de linguagem, uma vez que, ainda que boa parte das cenas se passem dentro de uma fábrica abandonada, suja e destruída, o clipe traz cenas vívidas da chuva, floresta abundante, terra, céu, ar, vegetação que emerge vencendo o concreto, muito verde, selvageria e serenidade representados na figura do Ciberpajé, que também incorpora a catarse da destruição, como um mensageiro de Gaia trazendo “as boas novas” ao planeta, do fim de nossos dias. 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Me fez lembrar os cangaceiros do nordeste, os justiceiros que vão em sua solidão “cobrar” o preço da dívida do “devedor”. Em diversas cenas, ele vem com olhar fixo para a câmera, como que na iminência do ataque. O clipe explora elementos desse "cibercangaceiro" pós-humano: close nos anéis (que cada um em si já traz simbologias à parte, a cartola vermelha, os lobos yin e yang na camisa, o punhal, as vestes de negro, o olhar. Só para citar alguns.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
A narrativa visual tem uma afinidade perfeita e fluida entre as cenas e a música, parece que a música foi criada para o clipe. O Ciberpajé utiliza a magia posista (um dos princípios da magia ocultista de Paschal Beverly Randolph) e não é a primeira vez que explora essa gestualidade, no clipe "The Reconnection: Werewolves Touching the Cosmos" que resenhei em 2014 (confira AQUI), ele também explora estes elementos.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Tem uma cena que destaco também, a câmera foca em um buraco na parede e ele surge enfiando a adaga, a meu ver, representa a penetração fálica no círculo feminino, que dá início à vida.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Há também uma alusão à linguagem quadrinhística quando a tela se divide em quadros para expressar o instante em que o Ciberpajé destrói um eletrodoméstico e seus chips eletrônicos– imagem simbólica da necessária destruição da materialidade construída e exaltada pela humanidade. Nessa hora o som é retumbante, cortante, imponente.
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Há cenas em que o Ciberpajé olha pela parede quebrada, vê as chaminés de fábricas exalando fumaça negra no céu azul, ele nas sombras, abaixa a cabeça como um lamento. É um clipe denso e reflexivo. Destaco também a predominância das cores do Posthuman Tantra: verde, vermelho e preto. 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Por vezes a câmera foca num círculo no teto que conduz nosso olhar para um segundo andar nesse prédio abandonado, há vegetação nos escombros, nas correntes enferrujadas: seria uma possível saída de nossa morte certa? Ou a indicação que mesmo na destruição a vida persiste?
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
As músicas do Posthuman Tantra sempre mexem em mim em uma dimensão mais visceral, seja incitando palpitações cardíacas, momentos de repulsa, medo, êxtase, incômodo e encantamento. Embora o clipe tenha sido feito no estilo “faça você mesmo”, com baixo orçamento e recursos de produção, o clipe tem uma qualidade estética profissional, de beleza plástica e muito eficaz ao representar o conceito filosófico e iconoclasta abordado na música.
Parabenizo ao Ciberpajé e a seus parceiros artísticos Anésio Neto e Daniel Risoto pela bela e contundente criação, provando que com objetivos claros, talento e excelência é possível passar a mensagem através da arte, sem produções de alto custo (ainda que essas também sejam bem vindas). 
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
O álbum foi lançado no Brasil pela gravadora "Terceiro Mundo Chaos", e na Inglaterra pela gravadora 412 Recordings e já teve outros dois clipes feitos elos Diretores Rynaldo Papoy - clipe Colapso Glorioso Ato I; e C.N.S - clipe Ato IV Enterro Cósmico.
Envolvida com a atmosfera do clipe recriei algumas imagens em homenagem, e aqui sincronicamente está chovendo:

Cena 1:
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Foto IV Sacerdotisa 
Cena 2:
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Foto IV Sacerdotisa 
Cena 3:
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Foto IV Sacerdotisa 
Cena 4:
Captura de tela do clipe  "Ato VI: Lúcifer Transgênico"
Foto IV Sacerdotisa 
Cena 5:
Foto IV Sacerdotisa 
Foto IV Sacerdotisa 
Bem, escreveria muito mais, pois a obra inspira muitas leituras, mas finalizo destacando que o Ciberpajé é um artista genuíno que como disse Ezra Pound, "o artista é uma verdadeira antena de nossa raça", o Ciberpajé além de ser visionário por sua profunda sensibilidade, traz mais do que arte, verdadeiras predições sobre os rumos da humanidade.
Nossa espécie humana, apesar de tanta beleza que é capaz de criar, em sua sanha por poder e destruição criou uma egrégora cruel sobre si e outras espécies.
Cada vez que leio, assisto, aprecio um desenho ou ouço alguma de suas obras, sinto que ele sendo ancestral como é, cria narrativas de um futuro iminente como se “lá” ele já estivesse estado – e não duvido - o que me deixa mais perplexa e aterrorizada ainda, imaginar que as situações em que o Cibepajé aborda em suas HQs, músicas, performances e desenhos sejam retratos do que nos aguarda. Talvez seja por isso que muitos se sentem incomodados e deliberadamente evitam ter contato com suas criações, para assim, tentar fugir de algo que, no íntimo de cada um de nós sabemos que pode sim vir a acontecer, ainda que muitos não estejam vivos até lá para ter a prova… apesar de já estarmos vivendo boa parte do que pensávamos que sofreríamos num futuro distante.
Já começou a sexta extinção em massa…
Foto IV Sacerdotisa 

IV Sacerdotisa Danielle Barros é Mestre em Ciências e doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde, Fiocruz/RJ.


Ainda não viu o clipe? Confira aqui: