quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O Ciberpajé e o Possível Hackeamento do Corpo Humano - Entrevista para Revista ComCiência (UNICAMP)

Entrevista ao Ciberpajé Edgar Franco, por Tiago Alcântara -  Jornalista do LABJOR (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo)  e da Revista ComCiência (UNICAMP).


Ciberpajé em performance do Posthuman Tantra.
Foto José Loures
01) - É possível hackear o corpo humano? Como estamos fazendo isso e quais benefícios e riscos você vislumbra em suas linhas de pesquisa?


Sou um artista interessado na emergência do pós-humano, alguém que observa o cenário de aceleração hipertecnológica e seus desdobramentos sócio-culturais e ambientais para traduzir minhas inquietações, temores e maravilhamentos em obras artísticas em múltiplas mídias e suportes. O hackeamento da memória, dos dados existentes em nossa consciência é algo vislumbrado pela ficção científica de P.K.Dick e atualmente investigado nas fronteiras da conexão entre neurofisiologia e ciência da computação, mas ainda é uma possibilidade, não uma realidade. Já o hackeamento do corpo humano, bio e fisiologicamente falando, é algo possível e já em curso. Pois a clonagem é exatamente isso, você pega a informação genética única de um ser e a replica infinitamente. Hoje é possível criar um banco de dados de todos os bilhões de seres humanos do planeta, basta uma única célula de cada um deles. Sabemos que o que nos define enquanto entidades biológicas é informação, e a informação pode ser armazenada e traduzida para outras linguagens. O DNA é um código que constrói toda a complexa diversidade da vida a partir de 4 signos, 4 bases de nucleotídeos, assim como toda a informação digital contemporânea é composta de apenas dois dígitos, é binária. A informação binária serve como tradutor de múltiplas outras linguagens, canal para sua difusão. Hoje o DNA está sendo traduzido e armazenado através do digital. Existe um interesse crescente no armazenamento e até possível patenteamento de sequências genéticas de etnias diversas que demostram resistência a certas doenças. Essas informações genéticas valiosas têm sido capturadas, muitas vezes, ilegalmente, o que claramente pode ser chamado de hackeamento. Infelizmente o poder para realizar esses hackeamentos está nas mãos de grandes corporações globais, e o que move esses conglomerados é o lucro. A indústria farmacêutica global é um império malévolo, e ela não está interessada na cura das doenças, e sim em atenuar os sintomas e manter os doentes dependentes de seus produtos, por isso, os experimentos com terapias genéticas avançam lentamente, pois eles são voltados para a CURA!  Na nanoengenharia celular, por exemplo, existem projetos belos de criação de nanobots celulares para exterminar células cancerosas do corpo sem causar danos ao paciente, mas a indústria do câncer quer continuar faturando seus trilhões de dólares ao ano vendendo quimioterápicos e outras drogas. Ou seja, o investimento que poderia acelerar essas pesquisas viria da iniciativa privada, mas ela quer a doença, pois doença gera lucro.

02) - Alguns estudiosos acreditam e até propõe uma abordagem do corpo humano como um hardware que está ficando obsoleto. Qual a sua opinião sobre isso?

É uma visão muito afinada com o mercantilismo hipercapitalista, a ideia de um corpo como hardware em processo de obsolescência. O futurólogo e engenheiro norte americano Ray Kurzweil é um dos signatários mais notórios dessa teoria, e espera migrar para um novo corpo hipertecnológico dentro dos próximos 25 anos. A controversa artista norte americana Natasha Vita-More até criou uma obra conceitual chamada "Primo Posthuman", na qual propõe a compra de um novo corpo para transferirmo-nos para ele, o novo corpo hipertecnológico nos é apresentado na obra como se fosse um novo modelo de carro, com todas as vantagens extras em relação ao anterior e com "acessórios" que podem ser acoplados a ele caso você tenha dinheiro para incrementá-lo. Outro artista de respaldo global, o grego Stelarc, tem como base de seu ideário o aforismo "O corpo humano está obsoleto", e toda a sua obra é construída através de possibilidades de expansão fisiológica e cognitiva do corpo. Stelarc ganhou um dos prêmios mais importantes de arte tecnologia do mundo, o "Ars Electrônica" (2010 - Áustria), com sua provocativa obra "The Third Ear", na qual implantou em seu braço esquerdo uma terceira orelha, desenvolvida pela empresa de biotecnologia australiana Symbiotica. Essa objetificação do corpo parte do princípio de que já o conhecemos completamente, de que já dominamos sua complexidade e que podemos abandoná-lo por algo superior a ele. É uma falácia, o nosso conhecimento real sobre o corpo ainda é muito limitado. Como explicar casos de pessoas que perdem quase a metade da massa encefálica e algum tempo depois voltam a realizar quase que plenamente todas as suas atividades, inclusive mantendo todas as suas lembranças? Como explicar o fato de transplantados que começam a desenvolver comportamentos idênticos ao de doadores de órgãos que nunca conheceram? E algumas pesquisas recentes que mostram que o coração realmente tem funções de ordem emocional e afetiva? Todos os dias vemos pesquisas inovadoras em múltiplas áreas da medicina e psicologia, mostrando aspectos novos e inimagináveis relacionados ao nosso corpo. Ele ainda é uma fronteira a ser desvendada, ele não é utilizado em sua plenitude de possibilidades, então como posso declarar que algo é obsoleto se ainda desconheço suas possibilidades completas? Por outro lado, a ideia de amplificação do corpo, essa sim, me parece extremamente instigante, e ela já está em curso desde o surgimento do que chamamos de cultura. Desde os primórdios estamos criando "extensões", como tão bem esclareceu o saudoso teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan. Um exemplo recente é o armazenamento de informações em bancos de dados de acessibilidade remota através de computação ubíqua (como celulares, tablets, notebooks), ele já está reconfigurando o cérebro, pois essa nova extensão permite com que a nossa memória não necessite mais armazenar certos dados ao nosso alcance com um toque no google. A inclusão de chips conectados a células já é uma realidade. Em experimentos recentes homens cegos e sem globos oculares já estão conseguindo enxergar, e seus olhos em breve poderão vir com ampliados zooms, acoplamentos positivos que expandem possibilidades e podem até nos ajudar no futuro a desvendar os mistérios de nossos corpos maravilhosos e ainda tão desconhecidos. 


Ray Kurzweil 
Foto: Huffington Post.

Orelha no braço de Stelarc
Foto: N. Sellars
03) - Pesquisando sobre o tema, li um artigo seu bastante interessante sobre a relação entre ciberarte e o pós-humano. Pode comentar essa abordagem, ou seja, como a arte de certa forma influencia e prevê esse futuro?

Existem perspectivas pós-humanas na ciberarte, artistas como eu interessados em refletir poeticamente sobre esse tema e seus desdobramentos. A arte, infelizmente, ainda tem um papel considerado quase supérfluo no contexto de uma cultura pragmática e monetarista. Em países como o Brasil é uma área que conta com parcos recursos de pesquisa, e para os artistas de nosso país não é fácil trabalhar com tecnologias de ponta, mas nada nos impede de utilizarmos os meios que temos para criarmos obras ainda assim impactantes nesse contexto. Os artistas podem criar conexões improváveis e impossíveis entre campos inimagináveis, podem, por exemplo, unir física quântica com devastação do cerrado e folclore indígena. Existe um holismo natural na arte que não pode ser encontrado em outros campos do conhecimento, muito engessados. Por isso, parafraseando MacLuhan, os artistas muitas vezes conseguem “antecipar as consequências antes das causas”. Infelizmente certa burocratização e emburrecimento da arte contemporânea, tornou esse potencial holístico mais restrito. Mas é possível encontrarmos obras instigantes e antecipatórias, que se não previram, ao menos influenciaram o surgimento de múltiplas tecnologias. Sobre as hipertecnologias telemáticas, no topo da lista de artistas visionários está o já citado escritor de FC Phillip K.Dick, William Gibson também é muito lembrado. Na arte tecnologia recente destaco a obra controversa e emblemática do brasileiro radicado nos EUA Eduardo Kac. Seu trabalho mais polêmico foi “GFP Bunny”, no qual criou uma coelha híbrida incluindo o gene “GFP (green fluorecent protein)” de uma alga marinha na sequência genética do animal, fazendo com que ele brilhe no escuro quando exposto à luz ultravioleta. A obra, do ano 2000, recebeu críticas veementes em grandes jornais do mundo todo, mas apenas 2 anos depois uma empresa de Taiwan, a “Taikong Corporation” (http://www.tkfish.com.tw/en/about) colocou no mercado peixes ornamentais que brilhavam no escuro utilizando o mesmo gene GFP. No caso da Taikong os peixes são patenteados e estéreis, e não vi nenhuma controvérsia instaurada, ou mobilização contra seus “produtos”. Assim como existe a Allerca, empresa de biotecnologia dos EUA que cria PETS transgênicos para comercialização, como o “Ashera Cat”, híbrido de gato e leopardo. A obra de Kac antecipou essas quimeras e mostrou como o patenteamento da vida é encarado como algo muito mais aceitável do que a criação poética. Eu também tenho criado trabalhos em múltiplas mídias e suportes inspirados na relação entre aceleração tecnológica e algo que chamo de tecnognose, para isso tenho um universo ficcional transmídia chamado de “Aurora Pós-humana”, nele realizo um deslocamento conceitual situando o planeta Terra 300 anos no futuro, amplificando avanços tecnológicos, mas objetivando refletir sobre o agora. Nessa minha FC, imaginei um futuro em que a transferência da consciência humana para chips de computador seja algo possível e cotidiano, quando milhares de pessoas abandonaram seus corpos orgânicos por novas interfaces robóticas. Imaginei também que neste futuro hipotético a bioengenharia tenha avançado tanto que permite a hibridização genética entre humanos, animais e vegetais, gerando infinitas possibilidades de mixagem antropomórfica, seres que em suas características físicas remetem-nos imediatamente às quimeras mitológicas. Nesse contexto ficcional as duas "espécies pós-humanas” tornaram-se culturas antagônicas e hegemônicas disputando o poder em cidades-estado ao redor do globo, enquanto uma pequena parcela da população - uma casta oprimida e em vias de extinção -, insiste em preservar as características humanas, resistindo às mudanças. No contexto desse universo ficcional, desde o ano 2000, tenho desenvolvido obras diversas como histórias em quadrinhos, HQtrônicas, web arte, ilustração, game arte, vídeo arte, videoclipes, animações, instalações interativas, música e performances cíbridas com minha banda Posthuman Tantra. Um dos trabalhos recentes foi o álbum em quadrinhos “BioCyberDrama Saga”, parceria com Mozart Couto, lançado pela Editora UFG. A obra que discute sobre as escolhas de um jovem em um futuro hipertecnológico, concorreu ao HQmix 2014, o “oscar” dos quadrinhos brasileiros e teve a sua primeira edição esgotada. O papel da ciberarte, mais do que prever o futuro, é colocar-nos diante de questões perturbadoras sobre o nosso presente.

Capa de BiocyberDrama Saga. Arte Mozart Couto, Roteiro Edgar Franco
04) - Áreas como Biologia, Neurociência e Biomecatrônica têm estudos interessantes sobre como os avanços recentes podem mudar nossos corpos no futuro próximo. Vários deles se relacionam com a cura de alguma doença ou acessibilidade, mas você acredita que, no futuro, uma pessoa poderá trocar seus membros de forma voluntária para ter um “braço melhor”, memória expandida ou algo do tipo?

Claro que sim. Mas o motivo principal que levará isso a acontecer muito em breve não é um desejo real de expandir o potencial do corpo e da mente, é um desejo escuso baseado na competição. Toda a nossa cultura é extremamente competitiva e as pessoas concordam com qualquer coisa para tornarem-se mais competitivas e “vitoriosas”. Veja, por exemplo, os esportes profissionais têm como suporte um discurso de que “promovem a saúde e a harmonia”, pura falácia midiática, são arenas de hipercompetição acirrada. Todos os dias vemos atletas se disporem a tomar substâncias desconhecidas e ainda experimentais para melhorarem seu desempenho. Inúmeros atletas olímpicos já foram pegos em exames de dopping, e muitos morreram jovens em consequência das sequelas causadas pelas substâncias ilícitas. Ou seja, concordaram em colocar suas vidas em risco para ganharem de seus adversários. Então essas modificações corporais estão muito próximas. Inclusive já entramos na era das olimpíadas pós-humanas. Em 2012 o corredor paraplégico sul africano Oscar Pistorius ganhou na justiça o direito de correr entre os atletas normais nas olimpíadas, já que tinha alcançado a marca necessária. O fato é que Pistorius usava próteses de titânio de alta tecnologia para correr e, em um exame detalhado feito pela Universidade de Colônia na Alemanha, suas próteses lhe davam a vantagem de 25% de menos gasto de energia durante as provas, o que seria uma vantagem tecnológica para o atleta. Mas mesmo com esse laudo provando sua vantagem ele conseguiu o direito de correr no maior evento esportivo global, inaugurando o que podemos chamar de “Olimpíadas pós-humanas”. Uma hipótese muito plausível é a de que outros atletas buscando melhores marcas se submetam a cirurgias de amputação para a inserção de próteses de melhor desempenho. E essa corrida competitiva pela vitória não se restringe aos esportes, permeia o cerne de toda sociedade.

05) - Existem algumas comunidades que divulgam e facilitam o acesso a sensores para que as pessoas implantem tags NFC, chips de temperatura e outros nos corpos. Podemos dizer que esse seria o começo de uma mudança pós-humana ou ela estaria mais ligada à quantidade de eletrônicos que usamos todos os dias e já viraram praticamente extensões dos nossos corpos?

Em 1985 a bióloga feminista estadunidense Donna Haraway escreveu seu notório “Manifesto Ciborgue”, no qual destacava a ciborguização da civilização ocidental a partir de suas novas relações com as tecnologias. Penso que mesmo antes da penetração iminente de dispositivos tecnológicos em nosso corpo - a evidente conexão biotecnológica entre chip seco e célula úmida - já somos seres transumanos. Criamos uma dependência grande de nossos dispositivos comunicacionais, utilizamos drogas químicas legais para expandir nosso potencial, como o viagra e o cialis. O aparelho celular tornou-se uma prótese quase onipresente, eu sou um dos poucos que ainda resisto a ele. Além disso, os celulares têm modificado a ideia de realidade, fazendo com que coexista a conhecida realidade ordinária, com uma realidade virtualizada. 

06) - Em vários dos seus projetos, você aborda o pós-humanismo de maneira crítica e já comentou em entrevistas que busca estar em contato com sua essência cósmica. Pode comentar um pouco da filosofia por trás do Ciberpajé?

O conceito de “pós-humanismo” é motivo de controvérsias, existem muitas definições possíveis. Particularmente gosto da ideia de pós-humanismo como um momento de transcendência em que o humano deixará sua prepotência secular de lado, deixará de sentir-se como a criatura mais importante do planeta, o “ser eleito” para dominar e destruir as outras espécies vivas, animais e vegetais. O meu pós-humanismo é uma utopia clara de reconexão do humano com a natureza e o cosmos, um entendimento não mais em voga de que somos parte da natureza e nossa existência só é possível a partir de uma simbiose com todos os outros seres vivos que formam Gaia. Gosto da visão do biólogo inglês James Lovelock, essa visão simbiótica das espécies, que se contrapõe em certa medida à ideia de um “gene egoísta” de outro biólogo inglês, Richard Dawkins. Como humano, sou um ser em evolução, na busca pela transcendência, pela reconexão com minha essência cósmica. A mistura estranha de um menino cheio de pureza e admiração diante da vida, com um Lobo Selvagem ancestral que já enfrentou milênios de tempestade, dor, e lambeu suas feridas até torná-las belas cicatrizes de batalha. Um ser nascido no umbigo do mundo, o Cerrado Brasileiro, área primeva mais antiga do planeta, onde a vida primeiro floresceu. Desde o início dessa minha nova jornada no Século XXI escolhi a arte como minha forma de magia e transmutação da realidade, e as narrativas visuais são meus rituais de mutação e transubstanciação, a arte é uma ferramenta para minha autocura. Para respaldar minha existência material nessa jornada foi necessário escolher um caminho pragmático que permitisse a continuidade de meus rituais artísticos de transmutação e escolhi a chamada “carreira acadêmica”, tornando-me um pesquisador e professor das artes visuais. Em 2011 declarei-me Ciberpajé, esse é o meu novo nome de ser renascido, um título auto declarado. Eu criei o processo ritualístico de transmutação que me tornou Ciberpajé durante uma profunda crise existencial que vivi no ano de 2011. Ela foi deflagrada inicialmente por uma impactante experiência com o enteógeno Psilocybe Cubensis que causou uma revisão de muitos dos valores pessoais que ainda regiam minha vida naquele momento. A crise levou-me à ampliação da minha percepção. As máscaras do mundo esfacelaram-se diante de mim e vi tudo muito claramente, com uma limpidez absoluta. Toda a imundície em sua forma mais obtusa e ao mesmo tempo toda a infinita beleza de nossa espécie. Percebi não existir nenhum paradoxo entre esses extremos. A dicotomia do mundo, os maniqueísmos da cultura, os dogmatismos, que já eram por mim repudiados, tornaram-se percepções abjetas, mas que também são minhas constituintes como a imagem holográfica de minha espécie e do cosmos que sou. Vislumbrei o infinito da existência e criei o ritual de transmutação desenvolvido em 10 passos, e 10 chaves. 10 dias de meditação e criação artística em que defini os valores que me guiariam a partir do meu renascimento. O décimo dia foi meu aniversário de 40 anos de idade nessa existência, e fechei o ritual gravando em único take a música ‘Ciberpajé’, minha declaração de ser renascido. O Ciberpajé não é um guru, ou criador de seita, a única cura que procuro é a minha cura. A busca dessa cura que consiste na completa aceitação do que sou, na conquista de minha integralidade. Sou um artista magista criador de mundos ficcionais que utiliza essas criações para a modificação de minha realidade. Sou o Ciberpajé.


Edgar Franco é o Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp. Atualmente é professor permanente no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da FAV-UFG – Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. http://ciberpaje.blogspot.com.br/

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Confira a matéria escrita por Tiago Alcântara e publicada na ComCiência: AQUI