segunda-feira, 2 de maio de 2016

NOISIGIL - Primeiro "Sigilo Sonoro Ocultista" do Posthuman Tantra

Entrevista ao Ciberpajé sobre o lançamento do single "noisigil", conduzida pela IV Sacerdotisa da Aurora Pós-humana Danielle Barros

Arte Daniel Dutra
Abrindo o mês de maio de 2016, o Ciberpajé criou um novo single do Posthuman Tantra com uma proposta de arte magística completamente inovadora! Aproveitei a oportunidade para conhecer um pouco mais dessa obra e revelar a todos que acompanham as suas criações quais foram as inspirações, motivações e o processo ritualístico de execução de “noisigil”. Confira nesta entrevista exclusiva!

Ciberpajé fotografado por Daniel Rizoto
1- Gostaria que você detalhasse o processo criativo do novo single do Posthuman Tantra e por que ele tem esse nome?

Ciberpajé - Esse single é o resultado de uma ação mágicka com o objetivo claro de transformar um aspecto de minha realidade como ser, fazendo emergir uma das forças atávicas e animistas de um de meus totens animais. Eu não o chamaria de música, prefiro chamá-lo de "sigilo sonoro". Na tradição mágicka ocidental, um dos magistas que mais me influenciaram é o artista cósmico inglês Austin Osman Spare, criador de uma das técnicas mais eficazes de sigilos que eu já pratiquei. A ideia do single foi transmutar o conceito sigilístico do visual para o sonoro, para isso, após desenhar o sigilo baseado na minha sentença da vontade eu utilizei um sintetizador analógico Gakken SX-150 Mark II para efetivamente redesenhar o sigilo com sua caneta analógica durante a gravação das partes noises da faixa, em um estado de transe induzido. As outras partes, com as batidas mais tradicionais do Posthuman Tantra foram gravadas enquanto recitava a versão mântrica do sigilo que também aparece em minhas vozes gravadas. O termo NOISIGIL é um neologismo em língua inglesa criado para nomear o sigilo, a mistura da palavra noise (barulho) com a palavra sigil (sigilo), o nome veio da base ruidosa sonora que estrutura parte da faixa.

2- Como esse single se conecta com seu universo ficcional da Aurora Pós- humana?

Ciberpajé - O universo ficcional transmídia da "Aurora Pós-humana" é também o meu sistema mágicko. Eu sou o criador e a persona principal de meu universo, o Ciberpajé, e a realização do sigilo visa acelerar a incorporação de uma característica animista que necessito para transmutar minha realidade. Metaforicamente e no contexto da "Aurora Pós-humana", o sigilo funciona como a mixagem dos genes desse animal em meu DNA, transmutando-me e permitindo-me adquirir um de seus talentos especiais. O sigilo nesse caso é uma operação mágicka de transgenia humanimal, mas com uma tecnologia diferente da científica.
Ciberpajé fotografado por Daniel Rizoto
3 - Como é gravar um single que nunca mais será ouvido por você?

Ciberpajé - Essa é uma questão importante, um sigilo mágicko de qualquer ordem precisa ser "impresso" em nossa mente inconsciente para funcionar, mas após essa impressão ele deve ser esquecido ou não se efetivará completamente. No caso desse conceito de "sigilo sonoro" criado por mim, a fixação aconteceu durante a gravação da faixa em estado de transe e recitando o mantra, e depois ainda em sua mixagem e na audição final dela por 11 vezes. O passo final foi publicá-la no canal do Posthuman Tantra no youtube e jamais voltarei a ouvi-la, pois é parte fundamental do processo sigilístico não escutá-la mais. Isso gera uma circunstância curiosa, que eu nunca tinha experienciado, pois algumas pessoas têm comentado sobre a faixa e certos aspectos sonoros dela, despertando meu desejo de ouvi-la novamente, mas me controlo e jamais farei isso.

4 - Como está sendo a receptividade do público?

Ciberpajé - As pessoas ficam curiosas com o fato de eu ter criado uma faixa que não ouvirei mais e com a estrutura de sigilo sonoro, então a repercussão entre os aficionados de música experimental, ambient e noise tem sido boa, com pessoas comentando sobre a música, sua proposta mágicka e também sobre o belo sigilo da arte de capa criado pelo grande artista e amigo Daniel Dutra. Penso em fazer uma edição limitadíssima do single, com apenas 11 cópias numeradas e assinadas em formato mini CD para alguns fãs colecionadores do material do Posthuman Tantra. 11 cópias assinadas com meu sangue mutante humanimal. Também destaco que minha arte não visa entreter ou agradar ninguém, minha arte é um processo ritualístico de autotransformação, esse é seu objetivo fundamental, então, sinceramente não me preocupo com a sua recepção, se for boa, tudo bem, se não for, mantenho-me centrado e sereno.

5 - Quais simbologias da arte criada por Daniel Dutra e como se conecta com o single?

Ciberpajé - Daniel Dutra tem um talento especial para criar sigilos visuais, sua iconografia básica remete sempre a essa forma de magia. A arte da capa foi criada como um sigilo geral de densificação do ideário do Posthuman Tantra, é um sigilo geral para a banda que tem uma numerologia e iconografia muito especiais. Podemos revelar o que o constitui, mas não o que significa, pois o segredo do significado geral é sua força. Segue um diagrama visual criado por Daniel mostrando os símbolos presentes nele. A conexão da arte com o single é o fato de estarmos diante de dois sigilos, mas de ordem completamente diferente, um deles visual o outro sonoro. Eu também desenho sigilos, mas eles têm uma visualidade muito mais distante da tradição visual dessa arte. No meu caso eles não parecem de imediato que são sigilos, como a capa do número 10 da minha revista "Artlectos e Pós-humanos" (Editora Marca de Fantasia, 2016), já o sigilo da capa do single criado por Daniel e o sigilo base criado por mim para ser transformado em som têm essa característica de estarem diretamente conectados à tradição estética dos sigilos, eis sua conexão.

Mapa de simbologia do sigilo com arte de Daniel Dutra
6 - É sua primeira experiência na criação de um sigilo atávico sonoro? Isso já foi feito antes por alguém ou é uma inovação criada por você?

Ciberpajé - Sim, é a primeira vez que faço deliberadamente uma faixa sonora sigilo, e uma das inspirações para ela foi o fato de eu ter adquirido recentemente o sintetizador Gakken SX-150 Mark II, pois ele tem como interface sonora um instrumento que me remeteu imediatamente - por analogia - à uma caneta, então ao tocá-lo comecei a fazer experimentos literais de escrever frases e fazer desenhos utilizando a caneta sonora, a partir disso e de minha intenção recente de realizar um novo sigilo animista tive a ideia de criar essa técnica particular de "sigilos sonoros" e realizar então o primeiro deles. Agora avaliarei a eficácia da técnica e se funcionar devidamente vou retomá-la em outras faixas. Nunca ouvi falar de alguém ter criado sigilos sonoros com um método semelhante a esse, creio tê-lo inventado.

Ciberpajé fotografado por Daniel Rizoto
7 - Experimentos práticos de arte magísticka sonora como este são comuns? Estou perguntando por que apesar de existirem tantas bandas que se declaram ocultistas, não vejo tantas criações de magia e arte sendo efetivadas na prática. Em sua visão, há muita teoria e pouca prática nesse sentido?

Ciberpajé - Infelizmente toda a cultura ocidental é infestada pela praga da verborragia, as pessoas falam demais, existem eruditos e conhecedores profundos de todos os assuntos, em todas as áreas, mas em sua esmagadora maioria, esses eruditos são intelectualoides frouxos e ineptos que nunca experienciaram nada, são enciclopédias ambulantes de assuntos e temas que nunca vivenciaram e subsistem de espalhar essa verborragia inócua e enfastiante por aí. A universidade é um dos antros principais desses eruditos estéreis, por isso ela tornou-se o lixo que é, não transforma ninguém, não ilumina ninguém. No âmbito do chamado ocultismo acontece a mesma coisa, temos inúmeros eruditos da magia, escrevendo tratados, criando sites, azucrinando-nos em seus blogs e páginas de internet com um pseudo conhecimento mágico que não lhes serve de absolutamente nada, a não ser pelo fato de se sentirem respeitados por alguns idiotas pueris que admiram tal conhecimento. A única magia que me interessa é a prática, aquela que eu posso utilizar e experienciar a transformação de minha realidade. Todo o resto é lixo retórico desnecessário, a vida é breve e não tenho tempo a perder com eruditismos inócuos. Não que eu desconheça a tradição ocultista ocidental, já li demais, mas joguei praticamente tudo no lixo, mantendo só aquilo que me serve, as práticas que incorporo em minha produção artística, pois cada obra minha é uma ação ritualística de transmutação! O ocultismo é fascinante como tema, por isso muitos setores do rock e metal o elegem como conceito, mas 99% desses musicistas não se preocupam realmente com magia, estão só usando-a como um tema que pode atrair a curiosidade para o que fazem. Conheço poucos artistas que realmente utilizam ritualisticamente sua música.


8 - Você esta sempre criando, gostaria de saber quais os novos projetos do Posthuman Tantra, algum lançamento em vista, apresentações para este ano? Quais as novidades?

Ciberpajé -Para mim, vida é criação, minha criatividade é pulsante pois é com ela que transmuto a realidade e crio minha energia vital! Muitas novidades vindo por aí, uma delas um álbum duplo em parceria com uma das maiores lendas da música dark mundial, o Melek-tha, da França; também o terceiro álbum do Posthuman Tantra pela Legatus Records, da Suíça. Quanto às apresentações ao vivo, estou trabalhando na inclusão de novos elementos e atos nas performances da banda, por isso estamos aguardando a conclusão desses detalhes para retornarmos aos palcos no segundo semestre. Já temos marcada uma apresentação no III Fórum da Associação dos Pesquisadores em Arte Sequencial que acontecerá em Goiânia, na Faculdade de Arres Visuais da UFG, em outubro. Seguimos fortes e entusiasmados, afinal, com apenas 12 anos, somos uma banda chegando na puberdade, cheia de hormônios e vontade!

Ouça agora, NOISIGIL:
This new single does not bring a song but an animist sigil. It was created by Austin Osman Spare's sigils technique re-created for the sound context by the Ciberpajé. For the sigil becomes effective the creator never again will listen the track. The cover art, a visual sigil, was created by designer Daniel Dutra. Listen here: