terça-feira, 14 de junho de 2016

[Demônio & Ouroboros] Respiração Holotrópica, estados ampliados de consciência e processos criativos: II Experiência. Entrevista ao Ciberpajé Edgar Franco

Conduzida por Danielle Barros IV Sacerdotisa*

Essa entrevista faz parte de uma série de entrevistas que tenho realizado com o Ciberpajé Edgar Franco** enfocando múltiplos aspectos de sua obra artística, pesquisa, vida e ideário. Essa é a terceira da série de entrevistas que abordam sobre os processos criativos a partir de estados ampliados de consciência.
A segunda entrevista foi "Respiração Holotrópica: Estados ampliados de consciência e processos criativos" sobre a primeira experiência com o referido método. Esta é a terceira entrevista, sobre a segunda experiência com a técnica da respiração holotrópica. Confira!

Foto: IV Sacerdotisa

1- Conte-nos como surgiu esta oportunidade de experienciar novamente a Respiração?

Ciberpajé: Essa foi minha segunda experiência com a técnica de expansão da consciência criada por Stanislav Grof e sua esposa Christina Grof. Dessa vez ela teve conexão direta com a pesquisa acadêmica do doutorando Matheus Moura, orientada por mim no Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual, da Faculdade de Artes Visuais da UFG, em Goiânia. A tese pioneira estuda os processos criativos dos quadrinhos visionários, e envolve também exercícios de criação utilizando dois métodos de expansão da consciência, a Respiração Holotrópica e a ingestão do enteógeno Ayahuasca. A pesquisa foi aprovada recentemente pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFG, e essa sessão de respiração realizada no centro credenciado Al Jardim, contou com o acompanhamento de 2 psicólogos, Álvaro e Dora Jardim, que têm formação no Grof Trainning, nos EUA e estudaram e se credenciaram diretamente com o criador da técnica. Álvaro e Dora aceitaram acompanhar a nossa pesquisa e então surgiu logo essa oportunidade. Eu e Matheus já havíamos realizado anteriormente uma outra respiração acompanhados pelo casal. (Leia entrevista sobre a primeira experiência AQUI ). 

2- Como foi essa experiência do dia 11 de junho de 2016?

Éramos 6 pessoas para a realização da respiração, 2 homens e 4 mulheres. Dos 6, 3 já haviam passado pela experiência, eu, Matheus e uma das mulheres, que por uma sincronicidade esteve conosco na primeira respiração. Existe um acordo tácito que é feito antes da respiração de não revelarmos a identidade das pessoas que participaram da sessão, apesar desse acordo abrir a possibilidade de relatarmos o que vimos, mas mantendo o sigilo dos envolvidos. A respiração dura 3 horas, e sempre é feita com um acompanhante, ou seja, tivemos duas sessões, na parte da manhã 3 pessoas respiraram e as outras 3 acompanharam, além - é claro - da supervisão cuidadosa dos psicoterapeutas treinados Álvaro e Dora durante todo o tempo.
Assim, combinei com Matheus que ele realizaria a respiração pela manhã e eu no período vespertino. Depois da sessão inicial, na qual nos apresentamos e realizamos um breve momento meditativo, iniciaram-se os trabalhos. A sala é muito aconchegante com colchões e travesseiros espalhados em todo o chão, para impedir ferimentos durante a “viagem”. O sistema de som é excelente o que faz com que as músicas - que são uma das linhas mestras estruturadoras do processo - vibrem cristalinas em nossos corpos. Matheus teve a melhor experiência dele com a respiração, segundo relatou-nos. Não combinamos nada previamente sobre o processo criativo de uma história em quadrinhos que seria deflagrado durante essa experiência. Logo que terminou a sessão e ele foi imediatamente para a sala ao lado desenhar sua mandala - parte do processo de finalização da Respiração Holotrópica - eu lhe pedi que além da Mandala escrevesse um breve texto poético inspirado na experiência que serviria como roteiro para nossa história em quadrinhos. Ele topou de imediato, solicitei-lhe que não me mostrasse o texto!
Algo a ser relatado sobre a sessão da manhã foi a visível e impressionante experiência de uma das presentes, que em movimentos espasmódicos e gritos lancinantes reviveu o momento do parto. Para quem assistia era impossível não se emocionar, eu fui muito tocado pela energia dessa mulher e outra das presentes, que acompanhava sua colega respirar, chorou muito ao ver a cena.
Ao fim da sessão matinal fomos todos juntos almoçar e retornamos por volta de 14:00 horas para o início da segunda sessão, dessa vez eu respiraria. Sempre vou sem expectativas para essas experiências transcendentes, mas te digo, foi algo avassalador para mim, de uma potência incrível. Quando terminou, a sensação que eu tinha era de que eu havia sido pulverizado e reconstruído.
Foi algo indescritível. Mas que tentarei resumir em palavras para você e os leitores dessa entrevista.

3- E como foram as sensações e a experiência visionária desta oportunidade?

Bem, como sempre digo, experiências dessa ordem nunca conseguem ser verbalizadas a contento, a linguagem verbal, oral e escrita é muito limitada, mesmo assim acho importante relatar da forma que é possível, e sabendo dessas limitações os momentos chave da experiência transcendente.
Ao iniciar a respiração - e isso acontece com a pessoa deitada no colchão, com meia luz ambiente e tapa olho - eu estava extremamente tranquilo, foi uma das vezes em que eu estava mais sereno ao iniciar uma experiência de expansão da consciência. Devido a essa tranquilidade decidi ser ainda um pouco mais radical ao respirar, ou seja, desde o início acelerei e intensifiquei muito minhas inspirações e expirações, respirando abdominalmente como em certos pranayamas e promovendo grande hiperventilação cerebral. É um exercício difícil, mas tentei mantê-lo com completa intensidade nas duas primeiras músicas e ao fim da segunda já comecei a sentir o corpo flutuar, uma certa leveza incomum e também passei a ver bolas luminosas avançando em minha direção, de tonalidade amarela e dourada. Pouco depois algo chamou-me atenção, e mesmo ali de olhos fechados eu podia ver o meu corpo, levantei a cabeça do travesseiro e olhei meus pés, barriga e peito, na altura do peito eu senti um estranhamento pois via penugens como de ave, penas esbranquiçadas. Depois senti algo louco, parece que eu não tinha mais boca era uma sensação estranha, levei as mãos ao rosto e senti um enorme bico no lugar da boca, era concreto, estava ali! Era assustador e maravilhoso.
Segundo o psicoterapeuta Álvaro Jardim, nessa hora (risos) eu fiquei com boca de pato, como as pessoas quando vão tirar selfies. Ele falou que era engraçado de se ver. Na sequência, ao olhar para minha mão direita e braço eles não eram mais humanos, era uma asa, com penas brancas e acinzentadas! Foi maravilhoso vislumbrar aquilo, nessa hora sentei-me e comecei a observar a asa, fazer movimentos com ela. Eu sorria de alegria, era divertido. No entanto, minha mão esquerda ainda era humana, apesar de ter muitas penugens nela, mesmo assim encenei um voo. Estava sentindo-me como uma ave, mas não totalmente, pois minhas pernas ainda eram humanas. Diverti-me muito durante um tempo encenando como seria voar, a asa era tão linda, era mágico mexê-la no ar, apesar do bico ainda me soar estranho.

4 - Você saiu 'voando' pela sala? Ou só ficou maravilhado com as asas?

Não, minha vontade era essa, mas tinha ali a sensação de incompletude também. Não foi uma transformação completa, eu até senti um impulso maior de tentar voar, mas olhava para a mão esquerda e via que seria impossível, então me contentei em insinuar um voo e brincar com minha bela asa direita!

5- Além de sentir-se como uma ave houve mais sensações intensas durante a experiência?

Logo depois de brincar longamente com minha asa, deitei-me novamente e comecei a intensificar a respiração. A asa sumiu naturalmente e eu enxergava meu corpo de novo, mesmo de olhos fechados. Em poucos instantes comecei a modificar-me novamente. Senti coisas pesadas em minha cabeça, e fui imediatamente tocá-las. Percebi que eram dois chifres de tamanho médio que saiam da base de meu crânio, toquei-os com um entusiasmo estranho, senti toda sua extensão com muita empolgação, percebi algo estranho em minha boca, desci os dedos para tocá-la. Eu tinha uma língua enorme e presas, caninos muito protuberantes. De repente minha pele era toda vermelha e muito mais peluda, minhas mãos tinham dedos grossos e de unhas longas. Percebi que eu era um DEMÔNIO, desses bem tradicionais: face humana, barba, orelhas pontudas, pele vermelha, vamos dizer assim, um quase clichê visual da imagem ocidental que temos do demônio. Virei-me para conferir se eu tinha rabo, e lá estava ele! Diverti-me ao fazê-lo balançar pelo ar com uma ponta em forma de flecha. Aí comecei a ter uma poderosa sensação, eu sentia que era mau, de uma maldade muito profunda e pura, maniqueísta até; completamente mau, sem reservas, impiedoso, cruel. Eu estava gostando da sensação, gostando muito, passei a gargalhar de forma monstruosa, e lembrei-me de meus pés. Levantei a cabeça para olhá-los e achei fantástico ter cascos bipartidos no lugar de pés. Sentia-me poderoso como nunca, um poder obscuro, absurdamente mau. Não reprimi a sensação, deixei que ela viesse por completo e sentia um prazer grande com ela. Finalmente decidi testar meu poder, sentei-me ali olhando maravilhado meus pés e dei uma pisada brutal no chão com meu casco direito. Vi o chão rachar completamente e as rachaduras continuarem até sumirem no horizonte. Gargalhei alegre e soturnamente, sentia-me pleno, completo. Foi insano, e algo que até pensei se deveria revelar, mas acho importante ser completamente sincero nesse relato, por isso decidi contar sem preocupar-me com possíveis julgamentos.

6- Você se sentiu como um demônio (anjo caído) e uma ave (anjo símbolo de ascensão). Como é ser do ar e da terra numa mesma experiência?

Essa foi apenas a primeira parte da experiência, logo relatarei os outros momentos dela e o mais impactante de todos. Mas sua pergunta traz algo sobre o que ainda não havia refletido e racionalizado, é verdade, o voo representando ascensão e o demônio introspecção, mergulho no abismo. Curiosamente o aspecto ave teve algo de incompletude, não realizei o voo completo, mas isso não me incomodou, senti um prazer enorme ao simular um voo, e tinha consciência da limitação.
Já em minha transmutação em demônio senti plenitude completa, um prazer existencial intenso em ser absurdamente mau, Foi uma sensação plena e completa, eu testei o meu poder e vi que era absoluto. Mas curiosamente não matei ninguém ali, não fiz nada de cruel, apesar de sentir essa crueldade em mim e a capacidade total de destruir todo o Cosmos. Eu contentei-me em rachar o chão, pois logo depois disso voltei gradativamente e serenamente a ser eu mesmo. Mas pensando no que você disse, claramente existe essa dualidade, treva e luz conectando-se. E vou refletir ainda profundamente para buscar os significados mais significativos para mim dessa parte da experiência.

7- Como anjo com as asas, se sentiu incompleto: meio anjo, meio humano e certo estranhamento; já como demônio sentiu plenitude completa, poder e prazer. Sentiu também um receio inicial se relataria (na entrevista) estar à vontade sentindo-se mau. Parece-me que você está sendo mais bem sucedido como demônio do que como anjo (risos). É isso?

Uma questão sagaz, se fizermos uma leitura literal dessas duas partes concatenadas podemos chegar realmente a tal conclusão, e gosto dela. Pois acho que reflete sim um pouco da realidade que vivo. Eu tenho uma boa relação com minha sombra, tenho serenidade em aceitá-la e trabalhar com ela, mas como todo buscador transcendente o objetivo maior é iluminar-me, como os grandes avatares que estiveram no planeta. Obviamente estou ainda muito longe desse ponto. Trabalhar a sombra é fundamental para alcançar o "Satori/Nirvana", mas é necessário também trabalhar profundamente os aspectos luminosos, e neles ainda tenho muito a avançar, sou um pássaro em aprendizado de voo, mas voarei, sei que no momento certo voarei, não tenho pressa, sigo sereno e focado.

8- E como foi o restante da experiência? O que você destaca de especial em tudo que vivenciou desta vez?

Ressalto que foram 3 horas de respiração, muitas outras visões e sensações foram experienciadas, mas para a nossa entrevista estou destacando 4 momentos que considero chave na experiência - momento como ave, momento como demônio, momento como espermatozoide, momento ouroboros -, sendo o quarto, no ciclo final, o mais importante para mim. Depois de tornar-me um soberbo demônio, voltei gradativamente ao normal e tive uma sequência de experiência fetal, nessa hora me enrolei realmente no colchão nessa clássica posição. Eu sentia-me como um feto em um ovo, inclusive minhas costas pareciam estar encostadas na casca espessa, sentia que eu tinha um bico também, ou seja, era um ovo de algum tipo de ave. Passei um bom tempo assim, dentro do ovo, em absoluto silêncio, sentia como se muito tempo estivesse passando, eras até. Depois de algum tempo - curiosamente não me vi romper a casca do ovo - voltei à posição tradicional. Retomei a respiração profunda e em pouco tempo eu me sentia como uma espécie de ave aquática, mas não era um pinguim, parecia mais com um ornitorrinco, algo assim. O corpo era escuro e tinha o bico longo e fino. Nessa hora virei-me de bruços no colchão e, segundo relatos, comecei a fazer movimentos como os de uma serpente.
Mas na verdade eu estava nadando, inicialmente em um lago com muita vegetação aquática e peixes. Continuei nadando internamente, algo me fazia aumentar a velocidade. Logo me transformei em um peixe pequeno e continuei aumentando a velocidade, aí já era uma espécie de ameba. E outras amebas estavam nadando comigo. Parecia que tínhamos a missão de chegar a algum lugar. Era claramente uma disputa. Eu dava ali todas as minhas forças, intensidade absoluta. Quem viu a cena disse que eu serpenteava alucinadamente no colchão e tiveram que colocar proteção de almofadas ao meu redor e eu batia com a cabeça na direção da parede. Em minha experiência visionária, de repente eu senti que venci, e vi todos os outros ficando para trás. Era um vencedor, mas por incrível que pareça, tive uma sensação horrível, de perda, de tristeza suprema, voltei a deitar-me no colchão de costas e coloquei as mãos no peito, parecia sentir uma tristeza lancinante que doía no meu coração, doía muito, um peso no peito. Naturalmente comecei a chorar, chorei muito nessa hora, copiosamente. Vivi um nigredo profundo da alma, sentia absurda desolação. Algum tempo depois de ter chorado muito, fui me acalmando, sentia ainda forte pressão no peito, mas o choro foi diminuindo. Já estava próximo da fase final da experiência, e foi então que aconteceu o momento mais assustador e poderoso dessa viagem.
Continuei respirando intensamente, queria mudar o fluxo da experiência, sair daquela crise. De repente a minha atenção que estava focada na sensação extrema de peso no meu peito desviou-se para meus braços e mãos, sentia que eles estavam pulsando forte. Levantei a cabeça e foquei na direção deles - lembre-se que sempre estive com a venda, ou seja, continuava de olhos fechados, mas realmente movia a cabeça e o corpo como tenho relatado - tomei um susto, pois no lugar de braços eu tinha duas serpentes. As mãos eram as suas cabeças. As duas se entreolhavam e colocavam para fora suas línguas bipartidas. Senti um pouco de medo quando se viraram e me olharam profundamente nos olhos. Eram grandes, enormes sucuris, e faziam parte de mim. Tentei controlar meus braços e senti que não tinha domínio sobre eles. E de repente as duas começaram a se estranhar. A da direita, em um aparente golpe de sorte, conseguiu morder e colocar parte da cabeça da cobra da esquerda em sua boca e aí foi uma das sensações mais estranhas que já tive na minha vida, pois ela começou literalmente a comer a da esquerda engolindo-a, só que a extensão dela era o meu corpo, e a cobra engolidora também era parte do meu corpo. É impossível descrever a estranha sensação de ser completamente devorado por mim mesmo. E no fim já não restava mais absolutamente nada, eu fui sumindo por completo, eis que depois disso, eu senti uma das sensações mais sublimes que já vivi em uma experiência transcendente. Eu simplesmente provei do nada, da completa inexistência. E não existir era algo absolutamente pleno, de uma beleza impossível de ser retratada com qualquer forma de linguagem. Estava em completo êxtase por não existir! É um completo paradoxo essa frase, como algo que não existe pode sentir? Mas não tenho outra maneira de explicar com palavras. Foi algo de uma dimensão muito profunda, provei a tessitura do nada, do magnífico e sereno nada. Inclusive algum tempo depois, na parte final da sessão, quando fomos relatar a experiência, ao lembrar-me da tal sensação, chorei, e na verdade, agora, ao escrever isso e tentar retomar tal sensação também estão escorrendo lágrimas em minha face. Foi algo de extremo significado para mim, impossível quantificar o impacto disso em mim a longo prazo, mas o que realmente importa é ter vivido em meu ser aquela sensação plena.
Foto: IV Sacerdotisa

9 - Mas esse choro é pela sensação de se auto devorar ou de não existir?

Talvez um vislumbre do verdadeiro Tao, de um paraíso diferente, o paraíso do não ser. Pela inexistência, é um choro de alegria, de extrema alegria, um choro de júbilo! O poder da experiência é que, sem querer desmerecer a importância dos sonhos, você vive na pele e ali, você tem consciência da realidade ordinária naquele momento, mas se abre para essa realidade suprema, Cósmica. É algo completamente vívido e real! É uma realidade paralela em que estive de corpo e alma, completamente. É tão real para mim quanto o passeio que dei com meus cães essa manhã. Depois dessa sensação relatada, na qual fiquei espalhado no colchão, segundo relataram, voltei à consciência ordinária e me deitei normalmente no colchão. Retomei a respiração profunda novamente, passei restante do tempo sentindo minhas mãos e pés muito quentes, pareciam até ferver, e era um dia frio. Coloquei as mãos no peito para aquecê-lo, elas pareciam pulsar no ritmo da música ao esquentarem meu peito, ainda sentia um certo incômodo nele, que perdurou por algum tempo até depois da experiência, mas estava sereno, tranquilo, sentindo-me enlevado.

10 – Em parte do seu relato parece que você viajou por eras e existências até se tornar um espermatozoide no momento da fecundação. E depois disso, você se tornou um feto, você nasceu?

Não, primeiramente eu fui uma espécie de feto em um ovo, e depois como ornitorrinco em meio aquático fui me transmutando em criaturas aquáticas até tornar-me algo próximo a um espermatozoide. O fim da viagem foi a chegada ao óvulo, ao que me parece. E essa pretensa vitória causou-me a tristeza desesperançosa. A princípio, ao pensar nessa parte da experiência, imaginei que pudesse ser alguma forma de culpa, sentir-me culpado por vencer e deixar tantos morrerem, mas na verdade a sensação não era de culpa, era de desesperança profunda.

11 - Na primeira experiência, você relatou uma certa conexão entre os participantes da sessão em que as vivências pareciam em certos instantes se entrecruzarem energeticamente. E nesta segunda experiência, houve alguma conexão entre sua vivência transcendente e a experiência dos demais presentes?

A sensação de uma egrégora se estabelece desde o princípio quando é feito o acordo tácito entre todos de não revelar as identidades dos presentes, e logo após cada um se apresenta e fala sobre si mesmo, suas motivações e inseguranças. Esse lado terapêutico provoca naturalmente uma relação de irmandade e todos ali estão buscando experiências de superação e transcendência. Então é possível sentir esse profundo laço energético, mas não percebi dessa vez claramente nenhuma sincronia de percepções entre os respirantes. No entanto, a energia geral do local era de grande conexão positiva entre todos.

12 - Uma dúvida: a respiração profunda é feita no começo da sessão, e depois vocês vivenciam essas viagens sem retornar ao ato de respirar profundamente? Ou seja, ao entraram neste estágio de consciência expandida cessa a hiperventilação?

A questão da hiperventilação é muito pessoal. Às vezes quando você inicia uma das viagens da experiência já hiperventilou o necessário para que ela flua, noutras vezes você está vivendo a experiência e passa a respirar normalmente, mas sente que precisa voltar a hiperventilar-se para avançar a outro estágio. Já em outros momentos, como, por exemplo, na minha corrida como ornitorrinco-peixe-ameba-espermatozoide, você não para de hiperventilar-se, a sensação de adrenalina e de perigo iminente naturalmente te faz seguir respirando profundamente!

13 - E as criações artísticas desenvolvidas durante a experiência? Conte-nos sobre a produção referente aos processos criativos em arte visionária relacionada à pesquisa de doutorado de Matheus Moura. Como foi o processo e no que resultou?

Logo após ter concluído a respiração, segui imediatamente para a sala onde quem passou pela experiência deve desenhar uma mandala, só que eu tinha levado papel e canetas nanquim, pois o desejo era produzir ali uma história em quadrinhos, e foi o que fiz. Não tinha muito tempo, menos de meia hora e me propus a resumir em 3 páginas a sequência de imagens de impacto que demarcaram os 4 momentos chave da experiência. Tive que desenhar diretamente com nanquim sobre papel, sem rascunhos prévios, e obviamente trabalhar com tão pouco tempo compromete um pouco o detalhamento dos desenhos, mas isso não era o mais importante nesse caso. Assim, ainda sobre forte impacto da experiência, desenhei a primeira página retratando o Ciberpajé-pássaro que se torna um demônio e depois racha o solo com sua força. Na segunda página retratei o ovo-feto e a corrida aquática para a sobrevivência, incluindo o esfacelamento pessoal ao final - representado por um rosto desesperado com o crânio explodido. E finalmente, na terceira página retratei os dois braços serpente em sua luta. Depois de desenhar tudo, - destaco que Matheus entrou na sala e acompanhou a criação dos desenhos -, pedi a ele que me mostrasse o que tinha escrito. Foi incrível o casamento de seu texto com as imagens, já que ele tratava da necessidade da solidão para o encontro com o Cósmico. Assim o seu texto tornou-se a parte textual dessa HQ poético-filosófica de 3 páginas criada completamente dentro da sessão de Respiração Holotrópica. A história em quadrinhos conectou nossas duas experiências, gerando algo sincrônico e inesperado. Esse processo criativo inusitado e rico será relatado na tese de Matheus Moura e a HQ é parte da produção artística de seu doutorado em arte e cultura visual, e será incluída na publicação de uma revista ou álbum que acompanhará a tese.

Página 2 da HQ produzida pelo Ciberpajé (desenhos) e por Matheus Moura (roteiro) na sessão de Respiração Holotrópica.

14 - Você já realizou processos criativos com estado alterado de consciência algumas vezes. Você parece ir em busca, visceralmente, de um mergulho para dentro e para fora de você. Por quê?

Em minha concepção, a viagem mais importante e transformadora é a do autoconhecimento, a descoberta das múltiplas dimensões que nos compõem, o mergulho nos abismos incomensuráveis do ser. Vivemos em um mundo dominado por valores decadentes, todos com base no hiperconsumo e no poder. As pessoas distanciam-se cada vez mais de si mesmas e seguem condutas de rebanho, mesmo com o esfacelamento da cultura em milhões de tribos ideológicas, as pessoas ainda sentem extrema necessidade de estarem em um desses grupos. Assim cometem suicídio interior ao consentirem com a destruição gradativa de sua individualidade para servirem às ideologias de seus grupelhos. É importante não confundir individualidade com individualismo, o segundo está muito mais ligado ao sentido de ser alguém apartado do todo e por isso egoísta. O individualista joga sua individualidade no lixo, para alimentar seu ego, em busca da aceitação dos outros e de um falso amor. Ele necessita ser amado pelos outros, pois não consegue amar-se, e essa necessidade é egoísta e egoica, então mesmo dentro de seu grupelho, todas as suas relações são barganhas; ele é um egoísta que joga o jogo do grupo visando ser amado e aceito. Ao agir assim já está completamente morto interiormente, é um zumbi com alto potencial de destruição dos outros e do planeta, nada mais lhe importa a não ser ele mesmo. Joga o jogo do grupo para simplesmente conseguir um falso amor e respeito, mas não existe mais nele qualquer consciência de irmandade, conexão com sua espécie, ou com as demais espécies que habitam o planeta, muito menos com sua dimensão Cósmica. Em sua mente perdida ele acha que a vida é ELE CONTRA O COSMOS, não ELE EM CONEXÃO COM O COSMOS. Tudo isso é resultado do afastamento gradativo do homem de si mesmo, de suas dimensões profundas, da verdadeira transcendência que não pode ser encontrada nas religiões. As religiões são estagnadas, e vivem de ludibriar e prometer futuros paraísos, não existe mais nada de absolutamente transcendente nelas. Nunca conheci uma única pessoa dogmática que vislumbrou uma experiência realmente transcendente no seio dessas seitas. O sentido de unidade está sendo completamente perdido, ainda existem raras pessoas buscando-o, eu sou uma dessas pessoas. Todo o meu esforço como ser e como artista é o de buscar ser eu mesmo, e para isso preciso realizar esse mergulho interior que na verdade é um mergulho Cósmico, já que parafraseando Stanislav Grof:
"Somos hologramas do Cosmos!"

15 - Como a arte se tornou um caminho para essa busca? Ela é a forma como sua alma se expressa nesse mundo?

A arte tem um potencial grandioso como linguagem múltipla que explora as subjetividades, ela vai na contramão do cartesianismo que assolou o mundo nos 3 séculos recentes. Ela permite que a essência abissal Cósmica seja expressada visceralmente como nenhuma outra ferramenta humana permite. As ciências ditas naturais mataram todo e qualquer resquício de dimensão transcendente, o mesmo aconteceu com as ditas ciências exatas, com exceção da física teórica que tem permitido algumas aproximações com o misticismo, justamente nos pontos não solucionáveis e paradoxais, mas ainda é muito pouco para convencer a sociedade dessa dimensão. As ciências humanas estão perdidas e engessadas em milhares de ideologias e grupelhos que se odeiam e se hostilizam constantemente, não existe nelas a mínima possibilidade de uma reconciliação que permita voltar as investigações para aspectos transcendentes, quando aparecem são de forma muito pontual e quase sempre equivocada. Mas quanto falo da arte, falo da arte em sua perspectiva transcendente, da arte como canal de diálogo com o Universo. Infelizmente a arte contemporânea contaminou-se pelo discurso das ciências humanas, pelo pragmatismo marxista que destrói toda e qualquer possibilidade de transcendência e transforma a arte apenas em panfletarismo ideológico, ou egocentrismo patológico. Infelizmente a arte contemporânea acadêmica morreu, é algo esvaziado de sentido que mantém um diálogo mínimo só com os microcircuitos acadêmicos e de curadores intelectualoides. A sociedade não dá mais a mínima para essa arte produzida na universidade, acha-a enfadonha e vazia, o que é uma realidade, e os artistas perdem a chance de realizar alguma transformação interior na essência desse mundo. Assim a população volta-se completamente para o entretenimento vazio e considera-o arte. Mas os ditos artistas não se importam, continuam fechados em seus guetos pedantes e ridículos. Praticamente toda a arte contemporânea, em minha modesta visão, é lixo absoluto, deveria ser literalmente recolhida pelos caminhões de lixo e despejada em seu lugar de destino. A arte de que trato e na qual me insiro, é a da transcendência, da busca pela transmutação interior visando a ampliação da consciência. Assim, toda obra artística que crio é um ritual pessoal de autotransformação, visando minha cura completa, buscando alcançar minha integralidade. Um possível belo efeito colateral dela é auxiliar outras pessoas a encontrarem esse caminho transcendente.

16 - Qual aprendizado você extraiu dessa experiência e como ela se encaixa na cadeia de experiências de criação artística sob efeito de técnicas visionárias?

Eu tenho por hábito não transformar tais experiências com técnicas e substâncias que ampliam a consciência em algo trivial, por isso prefiro fazê-las com muita parcimônia. Tenho visto pessoas estragarem todo o potencial de tais vivências transcendentes ao fazerem uso desses métodos de forma indiscriminada e em curtos espaços de tempo, utilizando-os quinzenalmente, semanalmente e até diariamente. Ao trivializar o uso, você esvazia-o de sentido. Muitos inclusive passam a relatar que já não sentem mais nada após um período de superexposição a essas técnicas ou aos enteógenos. Insisto que devem ser experienciadas com um bom período de tempo entre elas, tenho aguardado até mais de um ano entre uma experiência e outra, e o tempo mínimo que já realizei entre elas foi de um mês, mas isso aconteceu só duas vezes. Minhas duas experiências mais recentes com o cogumelo Psilocybe Cubensis tiveram espaço de cerca de 2 anos entre elas (Ler entrevista: http://ciberpaje.blogspot.com.br/2014/06/entrevista-com-o-ciberpaje-viagem.html). A primeira Respiração Holotrópica que realizei também foi a cerca de dois anos. Nesse momento e pontualmente, devido à pesquisa de doutorado de Matheus, da qual sou orientador, realizarei experiências com uma maior frequência, mas esse não é e não será o meu padrão. Eu preciso de um longo tempo para refletir e maturar interiormente cada experiência, só assim ela atinge o seu potencial realmente transformador em mim. Digo isso para salientar que ainda é muito cedo para extrair algum aprendizado mais específico da experiência. No entanto, as sensações que foram experimentadas são incríveis por sua unicidade no contexto de minhas experiências de consciência ampliada e com certeza terão impacto em minha integralidade como ser. Essa vivência foi única e significativa como as anteriores, mas com uma profundidade maior em certos aspectos. Outros trabalhos artísticos surgirão diretamente inspirados nela, já estou elaborando-os ainda sob o impacto profundo da experiência de ontem!

Foto: IV Sacerdotisa

IV Sacerdotisa: Enquanto na primeira experiência com a respiração (leia aqui a primeira entrevista), as sensações tiveram um viés mais luminoso, nessa segunda mesmo com as nuances mais leves, a meu ver, teve um caráter de mergulho no nigredo, obscuro. Isso pode ser verificado nas próprias criações frutos da primeira e segunda experiência. Entretanto, cada oportunidade de vivenciar tais sensações e aprofundamento no conhecimento de si mesmo é valiosa, compreendendo sempre que somos luz e sombra, e cada faceta não existe sem a outra! 
Agradeço muito, mais uma vez, a oportunidade de poder te entrevistar, te conhecer um pouco mais e aprender, disseminando suas ricas experiências com o mundo

Ciberpajé: Minha gratidão a você, IV Sacerdotisa Danielle Barros, que cuidadosamente e entusiasticamente tem se dedicado a elaborar essas entrevistas comigo, sempre com questões sagazes e que me fazem adentrar por aspectos ainda não refletidos sobre elas. Aproveito para agradecer também os psicoterapeutas Álvaro e Dora Jardim, a Matheus Moura, a todos os que estiveram presentes na sessão de Respiração Holotrópica e também ao Conselho de ética da Universidade Federal de Goiás, que teve a sensibilidade para perceber a importância e o pioneirismo de nossa pesquisa. Um Abraço Cósmico do Ciberpajé!
*Danielle Barros é IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana, poetisa, desenhista, doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde, Mestre em Informação e Comunicação em Saúde (Fiocruz) e compõe o grupo de pesquisa CRIA_CIBER da FAV/UFG. Blog: http://ivsacerdotisa.blogspot.com.br/
**Edgar Franco é o Ciberpajé, artista transmídia, pesquisador e professor da UFG, pós-doutor em arte e tecnociência pela Universidade de Brasília (UnB), doutor em artes pela USP, Mestre em Multimeios pela Unicamp e arquiteto pela UnB. Franco se declarou Ciberpajé em seu aniversário de 40 anos, através de um método de transmutação e renascimento inventados por ele tendo como base seu universo ficcional da “Aurora Pós-humana”. Esse universo lhe permite criar em múltiplos suportes como: games, quadrinhos, aforismos, ilustrações, instalações, performances artísticas e músicas.
Links das entrevistas realizadas com o Ciberpajé: