quinta-feira, 22 de maio de 2014

Resenha de Biocyberdrama Saga Por Elydio dos Santos Neto

Edgar Silveira Franco é mineiro de Ituiutaba e é Arquiteto (UnB), Mestre em Multimeios (Unicamp), Doutor em Artes (USP), Pós-doutor em Arte e Tecnologia (UnB), Músico, Desenhista de Quadrinhos, Fanzineiro, Performer, Pesquisador e Orientador de Teses e Dissertações no PPG em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás. Dono de uma criatividade inquieta e muito produtiva, assim como pesquisador com grande capacidade de reflexão sobre o drama humano, criou a partir dessas suas vivências e experiências um universo futurístico denominado por ele de aurora pós-humana na qual se desenrola BioCyberDrama Saga.
Fazendo parceria com Edgar Franco assina a arte deste trabalho o prestigiado desenhista de quadrinhos e ilustrador, com reconhecimento no Brasil e no exterior, Mozart Couto: mestre em arte fantástica e de trabalhos em preto e branco, conhecido por muitos como o “Michelangelo dos quadrinhos brasileiros”.
A união da grande criatividade ficcional de Edgar Franco com os fantásticos desenhos de Mozart Couto resultou numa obra de história em quadrinhos belíssima que prende o leitor do começo ao fim, ao mesmo tempo em que o leva a refletir sobre temas capitais do momento presente e do futuro, não tão distante, de nossa humanidade. Este álbum, dividido em três partes, sai pela Editora da Universidade Federal de Goiás. Abre a publicação um longo e detalhado Prefácio no qual Edgar Franco apresenta os fundamentos, artísticos e filosóficos, da criação de seu universo ficcional, mas também detalhes, ricamente ilustrados, de seu mundo pós-humano. Seguem-se páginas extras do processo criativo dos autores e nas quais são apresentados estudos de personagem e esboços de páginas quadrinizadas realizados por Mozart Couto, bem como referências imagéticas para os personagens da saga, desenhadas pelo próprio Edgar Franco, seu criador. Fecha o álbum um Pósfácio no qual o autor explicita os artistas, cientistas e filósofos que homenageou em sua obra mediante os nomes com os quais “batizou” os personagens da saga.
BioCyberDrama Saga é uma narrativa construída na perspectivas dos quadrinhos poético-filosóficos de Franco. É uma rica e bela trama na qual aventura, drama, romance, filosofias, crenças, intrigas e a realidade de avançadas tecnologias foram criativamente entretecidos e provocam a reflexividade sobre algumas de nossas questões humanas fundamentais. Conta, numa aurora pós-humana, uma história que continua sendo a nossa, de seres humanos que vivem, possivelmente, em meio a processos que estão a gerar um mundo pós-humano no qual, para muitos, esgotaram-se nossas possibilidades naturais e estamos agora, juntamente com elas, a intervir, de forma incisiva e marcante, na humana natureza mediante processos artificiais, científicos e tecnológicos.
No futuro pós-humano de Edgar Franco convivem três tipos de seres: os Tecnogenéticos, que são frutos da hibridização entre humanos e animais, permitida pelo avanço tecnológico; os Extropianos que, por sua vez, são organismos pós-humanos e abiológicos que resultaram de transplantes da consciência humana para chips de computador e, por isso, conseguem perpetuar infinitamente suas vidas, embora às vezes cometam o “suicídio” (extrosuicídio); e, por fim, os Resistentes, assim chamados por resistirem tanto à hibridização como ao extropianismo; são seres humanos na concepção tradicional e, na aurora pós-humana, são em menor número e estão em extinção.
Um aspecto importante desta história em quadrinhos é que a aurora pós-humana de Edgar Franco não é um ambiente opaco, neutro e esterilizado pelas grandes tecnologias. É um ambiente complexo onde convivem as mais avançadas possibilidades tecnológicas e as agruras e contradições do coração humano. O leitor encontrará, nas páginas desta narrativa, problemas conhecidos de nossa vida como seres humanos, realçados, porém, pela perspectiva pós-humana da “revolução artificial”: amor, ódio, paixão, vingança, poder, jogo político, religião, conhecimento, sofrimento, busca pela vida eterna, o desespero do suicídio, fidelidade, traição, dúvidas, incertezas, certezas que se tornam violência e depois dúvida novamente, preconceito, fanatismo, curiosidade, intrigas, manipulações, busca de tolerância e paz...
O personagem central da narrativa é Antonio Euclides. O arco começa com Antonio como jovem resistente em dúvida entre definir sua vida com os extropianos ou com os tecnogenéticos; decide finalmente permanecer resistente e assumir a liderança do movimento que quer este grupo como dominante; a saga termina com o Antonio Euclides aprovando e “abençoando” a perspectiva de síntese entre resistentes, extropianos e tecnogenéticos, manifesta em seu neto que está para nascer, que por sua vez é filho Anton, seu próprio filho gerado ainda na primeira parte da saga com a resistente Michelle.
Há que se destacar neste álbum a grande sensibilidade por parte de MozartCouto que, a meu ver, compreendeu de maneira brilhante o universo criado
por Edgar Franco e conseguiu expressá-lo, visualmente, de maneira rica, com uma poderosa estética dos universos fantásticos. Veja-se, por exemplo, a sequência de imagens que desenhou para mostrar a tecnogenética Orlane, que, apaixonada por Antonio Euclides, desce a uma espécie de submundo para submeter-se a cirurgias que a deixaram, no aspecto da forma, mais próxima aos humanos, ou então, a cena em

que a mesma Orlane, com uma lua ao fundo, abraça Antonio, no ar, ferido por uma explosão provocada pelos tecnogenéticos.
Particularmente, em minha leitura da saga, vejo um eixo que perpassa a narrativa toda e que traz a possibilidade de síntese e de superação dos conflitos destrutivos entre os três grupos do universo de Edgar Franco, que são também conflitos destrutivos que ameaçam a humanidade presente. Este eixo está, para mim, sutilmente representado na figura de Gandraus, o pai de Antonio Euclides, também ele um resistente, pois é o personagem que desde a primeira parte da história até o final permanece fiel à postura que anunciou a Antonio, quando este ainda era jovem: Eu não amo a arte, eu me amo e amo a todos e a tudo...incluindo os tecnogenéticos e os extropianos. Aí está: o amor é o grande eixo condutor desta narrativa. Não o amor na acepção piegas, mas o amor entendido, como sugeriu o filósofo e teólogo jesuíta Teilhard de Chardin, como energia cósmica que congrega, numa laboriosa e sofrida construção individual e coletiva, todos os movimentos criativos de beleza, tolerância e alegria parapermanentemente criar e recriar o mundo.
Sem esta perspectiva de amorosidade fatalmente pereceremos, mesmo num mundo tecnologicamente avançadíssimo como este que desponta no universo pós-humano de Edgar Franco.
Esta obra de histórias em quadrinhos, por sua riqueza de conteúdo, de estética e de reflexão sobre a condição humana é, sem dúvida alguma, uma contribuição, desde o mundo quadrinhístico dos autores, para as culturas desta humanidade contemporânea, confusa entre as tantas possibilidades, positivas e negativas, por ela mesma criadas.
FONTE: Revista em PDF IMAGINÁRIO! # 2 inclui resenha do álbum BIOCYBERDRAMA SAGA, escrita pelo pós-doutor Elydio Santos Neto. Visite a página da revista e baixe o número 2: http://www.marcadefantasia.com/imaginario/imaginario-2/imaginario-2.pdf

*Pós-doutorado no Instituto de Artes da UNESP (2010), Doutor em Educação pela PUC-SP (1998), Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP (1994), Graduado em Filosofia e Pedagogia pelas Faculdades Salesianas de Lorena (1982), Docente da Universidade Federal da Paraíba-UFPB (Centro de Educação), Docente-pesquisador do Mestrado Profissional em Gestão em Organizações Aprendentes (UFPB), Membro do Grupo de Pesquisa Imaginário/UFPB