sexta-feira, 23 de maio de 2014

Degustem a sensível resenha de ALEXANDRE WINCK postado na estonteante página Contos do Absurdo!

O ser humano está obsoleto? Mais importante do que isso, nossa humanidade está obsoleta?
Essas questões estão no cerne de Biocyberdrama Saga, nova graphic novel escrita pelo roteirista, doutor em artes, professor da faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás e ciberpajé Edgar Franco, e ilustrada pelo lendário artista dos quadrinhos nacionais Mozart Couto.
A GN trata de um mundo futurista dividido entre três facções: os extropianos, que implantam partes biônicas em seus corpos, chips em seus cérebros e chegam mesmo a transferir totalmente suas consciências para corpos artificiais, para atingir a imortalidade; os tecnogenéticos, humanos híbridos que incorporam partes de animais e chegam a lembrar criaturas da mitologia, como centauros e sátiros, ou mesmo personagens de desenho animado, com corpos humanos e cabeças de animais; e os resistentes, humanos que insistem em manter os corpos naturais com que nasceram. No meio disso tudo, está Antônio Euclides, um jovem filho de resistentes, mas fascinado tanto com a filosofia extropiana como a tecnogenética, e atraído por uma tecnogenética hermafrodita chamada Orlane. Mas a fascinação de Antônio muda completamente diante de uma virada radical em sua vida.
Influenciado por autores como Alejandro Jodorowski, Isaac Asimov e William Gibson, Franco cria um mundo ficcional completo, com sua ciência e tecnologia, sua política, divisões sociais, arte, cultura, espiritualidade e sexualidade. Aliás, ele não teme discutir como todas essas transformações poderão mudar radicalmente nossos relacionamentos pessoais e sexualidade, assuntos que a ficção científica norte-americana de forma geral trata de maneira muito acanhada, ou de incluir suas experiências espirituais pessoais com expansão da percepção. Ao mudar de forma radical como se estrutura nossa mente e consciência, não corremos o risco de também alterar radicalmente nossa espiritualidade, seja isso a alma, como é descrita pelos místicos e religiosos, seja algo como o inconsciente cósmico de que trata a graphic novel?
Tudo isso vem enriquecido pela belíssima arte de Mozart Couto. Sua infinita riqueza de detalhes, variações de traço, sombreamentos e hachuras, suas expressões faciais cheias de nuances emocionais, prendem a atenção em cada quadro e fazem o leitor se sentir dentro de um mundo único.
Biocyberdrama Saga não retrata um delírio sci-fi de um futuro distante. As questões que coloca estarão presentes em nosso cotidiano muito antes do que se imagina. Um coelho recebeu genes de medusa para brilhar sob a luz ultravioleta; um japonês casou-se com uma mulher robô; chips que poderão ser implantados no cérebro tornarão-se realidade nas próximas décadas. Como a Antônio, caberá a nós decidir se esse será o mundo que queremos para nossos filhos, para futuras gerações que já nascerão num mundo que para nós, hoje, seria irreconhecível.
Um dos melhores lançamentos em quadrinhos de ficção científica do ano, em qualquer idioma.

Postado em: http://www.contosdoabsurdo.com.br/?p=1447