quinta-feira, 23 de novembro de 2017

[O Ciberpajé Recomenda] Dorsal Atlântica - Canudos (CD - Independente - 2017)

O Ciberpajé em todo com o álbum "Canudos"

Alguns dizem que o artista genuíno cria suas obras máximas na juventude e a maturidade é apenas um tempo de tentar recriar essa magia. Discordo profundamente de tal pensamento, e tenho visto constantemente grandes artistas criarem suas obras máximas na maturidade. Pois bem, Carlos Lopes, grande mentor da lendária Dorsal Atlântica já havia me surpreendido visceralmente esse ano com o lançamento daquele que para mim é o melhor álbum de quadrinhos de 2017, o impactante "Dorsal Atlântica: Uma História em Quadrinhos", uma fabulosa e poética autoetnografia de sua vida com a banda como pano de fundo.

A Dorsal Atlântica estava em processo de gravação do novo álbum CANUDOS, e eu que acompanhei toda a obra da banda, estava ansioso para ver o que viria da mente genial e inquieta de Lopes e seus asseclas dessa vez. O tema da obra já é contundente e provocativo ao pensarmos na catastrófica situação política atual do país e no marasmo e apatia de uma população a beira de aceitar um novo sistema escravagista com a destruição absoluta de direitos conquistados ao longo de 100 anos. Pois bem, CANUDOS trata disso ao resgatar a história emblemática de "Conselheiro" - no caso do disco "Conselheira" - e de seu arraial dizimado pelo poder instituído, que também foi motivo de meu interesse no álbum BioCyberDrama Saga que fiz em parceria com Mozart Couto, uma sincronicidade incrível entre nossas criações.

Canudos começa a impressionar-nos pela embalagem caprichada, no formato de um vinil 7 EP, e pela capa icônica, autoral e anticomercial criada por Lopes - não inclui o nome da banda, nem do CD, e usa desenho a nanquim e poucas cores criando forte pregnância visual. Ao abrirmos o pacote encontramos um belíssimo poster de Carlos Lopes, com uma imagem visceral e bela, além do encarte do CD com as letras. Vale mencionar a participação de meu orientando de doutorado, Márcio Paixão Júnior, com uma xilogravura que ilustra a parte interna do disco resgatando a imagem lendária do crãnio do primeiro álbum da banda. Ao colocarmos o CD para tocar o susto começa com a bela intro "Canudos", que já mostra-nos a produção cristalina do álbum, faixa que tem ecos de uma improvável mistura de The Who com Luiz Gonzaga, de arrepiar a espinha! A ela segue a pesada e forte "Belo Monte", que mistura hardcore melódico e thrash a baião, na medida certa sem soar forçada.As guitarras de Carlos estão límpidas e ferozes e seus vocais furiosos e melódicos. "Não temos nada a temer" segue com a mesma pegada da anterior, e traz uma das letras mais belas do disco, com a grande capacidade de síntese poética de Lopes. A cozinha de Cláudio Lopes (baixo) e Américo Mortágua (Bateria) também funciona maravilhosamente, dando o suporte necessário e fundamental para as composições de Lopes nessa e nas demais faixas.

A obra segue com "O Minuto Antes da Batalha", a mais longa do disco, com mais de 5 minutos, mais melódica do que as anteriores, com solo inspirado e um riferama pregnante, o refrão dessa -caso a Dorsal volte aos palcos - vai fazer os fãs cantarem em uníssono. "Carpideiras" é uma curta faixa instrumental melódica e épica que antecede a fabulosa "A Conselheira", essa faixa é - em minha modesta opinião - a melhor faixa já composta e gravada pelo Dorsal em sua longa carreira, ela mixa os elementos regionais do movimento Armorial e do thrash metal brasileiro com absoluta maestria e o impacto da voz de Carlos e da melodia pesada com mid tempos arrepia-nos até a alma! O início de "Sonho acabado" irá fazer delirar os fãs tradicionalistas da banda, é a faixa que mais remete às obras clássicas da primeira fase da Dorsal, com o vocal sincopado e furioso de Lopes e forte presença da cozinha, mas da metade em diante a faixa muda e torna-se mais melódica para depois voltar aos tapas na cara. Já "Cocorobo" é melódica e épica, com um fluxo contínuo e vozes acompanhando o tom das guitarras.

O álbum segue com outra das faixas impactantes e épicas, "Araçá do Peito azul", onde Lopes prova ser um dos grandes criadores de rifes do rock brasileiro, e que entende muito de timbres também. Em "Gravata vermelha" fica clara a mensagem do álbum que trata do presente resgatando o passado, em versos como "Pedaladas fiscais, argumentação do baixo clero movida a cocaína, capitães do mato e coronéis". "Liberdade" é um hino libertário de conclamação à revolta contra o poder corrupto instituído, com um ritmo de baião de arrepiar, e uma vocalização de "repentista" emocionante! Segue a também impactante "Favela", denúncia do descaso histórico com a população pobre ao longo das eras de nossa horripilante história brasileira. O petardo magnífico fecha com a furiosa "Ordem e Progresso", pesada e visceral conclamando o povo para a luta e rebelião contra os opressores e concluindo disco com o refrão "Luta meu povo, não importa quem vai ganhar! Luta meu povo, até o último restar!"

Carlos Lopes definitivamente criou sua obra-prima, a obra absoluta de um artista genuíno e maduro, mixando divinamente as influências sonoras e culturais de sua nação com suas raízes no rock e no thrash metal, criando um álbum contestador, crítico, emotivo, vibrante. Esse é o disco que deveria tocar em todos os rincões desse país para conclamar a mudança necessária! Gratidão, Carlos Lopes, pela capacidade de emocionar-me e fazer refletir sobre o mundo e a vida. Sua arte tem a força e a pureza do que é genuíno e livre de amarras de qualquer ordem. Longa vida à Dorsal Atlântica! O Ciberpajé recomenda. (Ciberpajé)