quinta-feira, 24 de julho de 2014

Resenha: BIOCYBERDRAMA SAGA - Vida, dilemas, dramas e paradoxos profundos da condição (pós) humana.

Por Danielle Barros*
Depois de ler algumas resenhas, sobretudo a do Dr. Ademir Luiz (UEG), publicada no jornal Opção (Goiânia/GO) e no blog Pipoca e Nanquim, e a apresentação escrita pelo saudoso Prof. Dr. Elydio Santos Neto na abertura de Biocyberdrama Saga, senti-me positivamente desafiada a escrever uma resenha com minha percepção sobre a obra.
Mas antes de fazer considerações diretas sobre o álbum, permitam-me fazer digressões pertinentes, caminhos que perpassam meu olhar sobre BioCyberDrama Saga.
Em primeiro lugar, devo dizer que foi a primeira vez que li uma história em quadrinhos de tal dimensão – contando com o prefácio são mais de 250 páginas! E como toda boa obra que nos fisga, li em um só fôlego, em voz alta, de uma forma muito peculiar e especial. BioCyberDrama Saga teve um impacto muito forte em mim, de modo que por algum tempo me senti um pouco bloqueada para iniciar qualquer interpretação sobre algo tão incomum como esta saga.

Cada leitor interpreta um texto - seja ele em que suporte for: diálogo, filme, HQ, livro - segundo seu repertório cultural, suas experiências de vida e do lugar que ocupa no universo. Esses intertextos atravessam a leitura - os livros que lemos, filmes, lembranças vividas, desejos contidos, traumas, virtudes - elementos que compõem e forjam nosso ser, nossa leitura. Então tratarei aqui de alguns deles.
Quando conheci Edgar Franco notei instantaneamente que se tratava de um ser incomum, múltiplo, complexo e paradoxalmente simples. Eu olhei a imagem projetada de sua arte em uma conferência que eleministrava e ponderei “um ser humano fez isso?” e realmente o que eu pensei não foi algo tão inverossímil, pois o Ciberpajé – nome com o qual Franco se rebatizou em seu renascimento ao completar 40 anos de idade - realmente é um ser além, é pós-humano, e só um ser pós-humano pode vir de seus universos e nos contar as ‘boas novas’ da Aurora Pós-Humana, universo ficcional que ele criou.
Edgar Franco possui expertise nas mais diversas e distintas áreas: arquitetura, artística, acadêmica, musical, mágica ocultista, poética, aforística, xamanística, espiritual, intuitiva, cristã, ficçional, e tantas outras que eu nem saberia mencionar. Toda vez que alguém se aventura a ler seu currículo passa muitos minutos lendo suas conquistas e títulos, mas no fundo a que ele mais se orgulha é “ser ele mesmo”, o Ciberpajé. Com todas essas qualidades e por transitar em tantos mundos e áreas, sem medo de errar - embora certamente o Ciberpajé por modéstia possa pensar ser um exagero da minha parte estabelecer essa relação - eu associo a persona de Edgar Franco ao também genial Leonardo da Vinci a quem tenho pesquisado, que atuou em áreas como anatomia, arquitetura, astronomia, botânica, hidráulica, matemática, mecânica, música, optica, zoologia, ciência, arte, em escritos (aforismos, fábulas, sátiras e profecias) e tantas outras como a mais notória, a pintura.
Embora Da Vinci se declarasse “omo senza lettere” [homem não literato] há estudos que afirmam que seus escritos somavam cerca de 35 mil folhas, embora apenas um quinto tenham restado, ou seja, cerca de 7 mil folhas, o que propõe supor que 28 mil folhas tenham se perdido com seus manuscritos. Assim como ele e sem pretensões, Edgar Franco tem atuado em diversas frentes, entre elas os aforismos, que com suas diversas temáticas (iconoclastas, sensuais, sobre visão da ciência, humanidade, Gaia, arte, etc.) e somando centenas de páginas, têm nos impelido, incomodado, confrontado, interpelando-nos a refletir sobre quem somos e ‘se’ somos.
Da Vinci redigia seus manuscritos de forma fragmentária e em anotações; ou ainda em desenhos, por acreditar que a imagem traduzia melhor e mais claramente as ideias do que as palavras, Edgar Franco uniu os dois, ao criar seus HQforismos, a imagem que expressa o sentimento com profundidade; a palavra que perfura e estremecem nossas crenças.
Talvez o Ciberpajé nem saiba, mas Da Vinci ao criar suas fábulas (que são formas de ficção), “as estruturavam a partir de uma figura de linguagem de origem retórica denominada personificação, que consiste em criar um personagem animal, vegetal ou mineral concedendo-lhes qualidades e características humanas, tais como atribuir-lhes fala, sentimentos e reflexões [...] Na personificação concebida por ele, animais, vegetais e minerais adquirem vida e pensamentos e são dotados das mesmas paixões, vícios ou virtudes humanas como astúcia, bondade, humildade. Inveja, piedade, soberba, solidão e validade” (Ventura, 2010).

Essa hibridização entre seres, a vivência de dilemas, dramas, paradoxos tão profundos da condição ‘humanimalvegetamineral’ (remetendo-nos aos seres extropianos, golens, tecnogenéticos e resistentes), o que inclui a questão tecnológica mais atual; não seriam sinais incipientes da Aurora Pós-humana?
Entre seus escritos, Da Vinci escreveu profecias e assim como destacou Ademir Luiz em sua resenha, o Ciberpajé, de forma similar, poderia, quem sabe ser reconhecido como um profeta em seu poder e arte visionários dessa Aurora Pós-Humana tão distante, mas tão atual.
A instigante resenha de Ademir também me inspirou a pensar certas questões. Entre elas sobre o axioma “quadrinhos é literatura?”. Por mais que essa seja uma discussão recorrente na literatura e meios acadêmicos, no mercado editorial, etc. Mais importante do que tentar entender ou classificar as narrativas, é focalizar no que a experiência estética e poética nos traz, independente do gênero: o toque profundo na alma; a identificação com as personagens; o espelho de si no outro - não no sentido narcisístico e sim do autoconhecimento - ; o mergulho na obra de arte!
A obra Biocyberdrama Saga traz à tona a essência dos criadores, os hipertextos que são repertórios de vidas. Cada quadrinho (falas, cenários) traz referências e vestígios de experiências, personas que inspiraram a cada um dos artistas, Franco e Couto, nessa “saga” que ganhou vida própria, e que se constituiu saga em si mesma em virtude dos 13 anos que levou para ser concluída e publicada. Configurando-se assim, no contexto editorial nacional tão restrito para trabalhos desse porte, como uma saga vitoriosa.
A apresentação genial e sensível escrita pelo prof. Elydio dos Santos Neto conseguiu dar conta e abarcar aspectos pertinentes da complexidade da obra como as questões existenciais, os dilemas humanos, os aspectos filosóficos no roteiro de Franco; bem como a beleza estética e singular da arte magnífica de Mozart Couto, ressaltando sua capacidade impressionante de captar, sintetizar e expressar a emoção na cena desenhada.
Edgar Franco em seu roteiro, como um mago construtor de realidades, traz nessa obra uma série de questões, conflitos, guerras, explosões, dramas, que nos conduzem à reflexão sobre o que somos, um ‘clamor’ sobre o que realmente importa, o amor, o seguir o coração. Ressalta a incerteza imanente da vida. Convoca-nos à reconexão com nossa essência primal: a animal.
Ao apresentar as categorias das espécies da Aurora Pós-Humana – o universo ficcional em que se passa a história -, já estão implícitas algumas questões/dilemas identitários: ‘ser ou não ser?’ (extropiano, tecnogenético) o que implica escolhas, lidar com preconceitos, fundamentalismo; solidariedade entre espécies; o dilema ‘mudar ou permanecer?’ (resistentes) o que implica tomar partido, mudar de vida em diversos aspectos; a perspectiva dos golens – serviçais das espécies dominantes -, nos leva a pensarmos: eles possuem sentimentos, são providos de ‘alma’? Em todas essas questões o livre arbítrio é um eixo que perpassa toda obra, nas escolhas e consequências de cada ato das personagens.
Impressiona a minúcia de detalhes do vislumbre da Aurora Pós-Humana descrita no prefácio onde são apresentadas as categorias, subcategorias, informações sobre reprodução, organização social, aspectos da ciência, fontes de energia, alimento, arquitetura, mapas geográficos, biosfera, etc. O que denota a extrema sagacidade, a pesquisa aprofundada e minúcia de Franco ao criar este universo; e no roteiro, falas sagazes, concisas e algumas carregadas de um humor refinado.
A trama por vezes suscitou-me suspense, esperança, expectativa, surpresa, curiosidade, decepção, raiva, riso e tristeza. Além de estimular insights e conexões com outras obras, temas e pessoas, o que fez sentir-me instigada a querer pesquisar novos assuntos desconhecidos.
Por estar no universo da educação, pude vislumbrar a obra na perspectiva do ensino, nos diversos níveis. O próprio prefácio da obra sugere os temas que se pode abordar em sala de aula ao trazer o panorama no momento tecnológico e artístico, que estão implícitos na obra: transformações tecnológicas; ficção científica; genética; cibernética; questões filosóficas, religiosas, científicas e éticas (e bioéticas); clonagem; transgênicos; hibridização animal e vegetal; mutação; transplantes; criação de órgãos em laboratório; retardamento da velhice; imortalidade; inseminação artificial; inteligência artificial; robótica; religiosidade; tecnognose; criação; essência; populações nativas; bem como trabalhar com os alunos a pesquisa sobre os artistas, cientistas, filósofos que inspiraram a obra como Stelios Arcadiou; Max More; Roy Ascott; Baudrillard; Hans Moravec, Laymert Garcia dos Santos, só para citar alguns.
Temas e personas completamente atuais e vinculados à ciência, tecnologia e sociedade, podendo ser um rico material pedagógico para suscitar debates e reflexões acerca dos usos, da ética, da filosofia, da humanidade e pós-humanidade, da Ciência tecnologia e sociedade (CTS).
A despeito da crescente especialização nos ramos do conhecimento, há uma tendência de se unir a Ciência e a Arte e o reconhecimento da presença e importância da intuição no fazer da Ciência. Nesse sentido, e ao me deparar com uma obra primorosa e magnífica como essa, feita por pessoas que transitam na arte e na academia, proponho que se pense no “método artístico do cientista” e no “método científico do artista”, pois o artista além da sua inspiração, ao criar possui seus métodos - que podem ser por exemplo o desenhar espontâneo sobre uma folha de papel, ou desenhar sempre pela manhã bem cedo -, disciplina e lógica; assim como o cientista, com toda sua racionalidade só abduz quando ouve e deixa fluir sua intuição e criatividade.
Dessa forma, os autores de BioCyberDrama Saga conseguiram abduzir e dar um “salto”, e em meio a tantas produções disponíveis, criaram essa verdadeira obra prima, que sem dúvida é e será um marco na história dos quadrinhos nacionais, e mais importante, na VIDA de muitas pessoas que se sentirem tocadas por ela.
Senti uma profunda emoção ao me identificar com aspectos obscuros de certos personagens, aspectos trágicos da condição humana, as simbologias, paixões, traições (sobretudo as de si mesmo ao não seguir o coração), loucuras, sonhos, esperança, perdão e redenção. Ademais, a história se passa na Aurora Pós-Humana, universo da qual faço parte como IV Sacerdotisa, o que me conecta de forma muito visceral à obra.
Orlane foi sem dúvida a personagem com a qual mais me identifiquei: guerreira, dedicada, determinada, paradoxal em alguns aspectos, extremamente intensa e sensível. Ao final da leitura, chorei. Frustração ou plenitude de uma saga que ainda não arrefeceu em meu peito. Uma história de encontros e desencontros, que confronta nossas ideologias versus desejos: a luta constante da mente e do coração. Essa é, sem sombra de dúvida, uma daquelas raras obras que nos marcam a vida, divisor de águas na minha. Escrever sobre uma obra como essa é desafiador, e a sensação de inacabamento é evidente, pois sei que a cada nova leitura terei outras interpretações, olhares e sentidos, na semiose infinita que é estar vivo.
O final do álbum é surpreendente. Ele agrega em si a essência do ideário do Ciberpajé, simbolizada na imagem final que “encerra” (?) a saga, símbolo da transcendência e integração: o amor incondicional, o amor cósmico.

*Danielle Barros – IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana, artista, bióloga, mestre em Ciências e doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Serviço: Álbum BioCyberDRama Saga – Roteiro de Edgar Franco, arte de Mozart Couto, 252 Páginas, Lombada Quadrada, sobrecapa especial, EDITORA UFG Peça o seu álbum clicando aqui
Esta resenha foi originalmente publicada no blog 

Tradução Reversa