quarta-feira, 4 de abril de 2018

[ENTREVISTA] Ciberpajé: Ilustração como Arte - entrevista para Michelle Rabelo do Jornal O Popular


Ciberpajé: Ilustração como Arte

Entrevista concedida à jornalista Michelle Rabelo do jornal "O Popular"(Goiânia)
Ciberpajé no lançamento do SketchBook Edgar Franco na SketchCon I em São Paulo - foto da IV Sacerdotisa


A entrevista enfoca a visão do Ciberpajé (Edgar Franco*) sobre o universo da ilustração e a sua visão sobre a cena goiana.

1. Como e quando se descobriu "desenhista" (sei que houve forte influência do seu pai)?

Ciberpajé: Todos somos desenhistas na primeira infância! Mas a partir do momento em que se enraízam em nós os primeiros crivos morais e as preocupações com a opinião alheia os desenhistas vão morrendo, a criatividade livre de amarras vai sendo podada e poucos subsistem. Eu já fazia minhas primeiras histórias em quadrinhos com 6 anos de idade, antes do pré-escolar, com absoluto incentivo de meu pai, Dimas Franco, um intelectual autodidata amante das artes que não deixou jamais arrefecer em mim o amor pelo ato criativo, alimentando-o com livros, revistas e materiais de desenho. Mas, efetivamente, considerei-me um “desenhista” quando aos 12 anos de idade vi minha primeira HQ ser publicada em um fanzine do gênero horror e logo recebi uma resposta crítica a ela. Meu lado desenhista nasceu atrelado ao de narrador, assim a paixão inicial sempre foram as histórias em quadrinhos. No entanto a efervescente cena dos quadrinhos dos fanzines e publicações independentes na década de 80 e 90 levou-me naturalmente a também tornar-me ilustrador.
Arte do Ciberpajé 

2. E como e quando se assumiu ilustrador (decidindo apresentar para as pessoas parte do seu universo particular)?

Na mesma época que iniciei a publicação de HQs nos fanzines já começaram a surgir convites para criar artes de capa para zines, pin-ups, posteres. Com o passar dos anos conectei-me também à cena do heavy metal, e à poesia e ficção científica, e passei a criar dezenas de capas de demo-tapes, depois vinis, CDs, também capas de livros, revistas, artes para camisetas, DVDs, incluindo criação de identidades visuais e projetos gráficos. Logo passei até a exportar artes, publicando trabalhos em Portugal, Inglaterra, França, Alemanha, EUA, e outros países, sempre com ligação com as cenas da cultura alternativa nacional e internacional. Gosto muito de experimentar graficamente, mas desde cedo meu traço tinha uma certa identidade e logo as pessoas passaram a reconhecê-lo sem a necessidade de minha assinatura. A partir do ano 2000, com o desenvolvimento de meu universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana” passei a criar artes em múltiplas mídias e suportes contextualizadas nesse universo. Destaco que minhas criações são absolutamente autorais, não aceito encomendas, ou censura de nenhuma ordem, o que crio tem sempre total liberdade expressiva e quem me procura sabe disso.
Grafite do Ciberpajé

3. Criar o universo ficcional da “Aurora Pós-humana” fez parte desse processo de autoconhecimento?

A criação de um universo ficcional que tenha verossimilhança, profundidade e identidade é algo que demanda muito tempo, dedicação e envolvimento. E quando você cria um universo ficcional tem que pensar personagens para ele, e ao fazê-lo aprofunda-se em suas identidades, muitas delas diversas da sua (autor), isso torna-nos menos dogmáticos em relação às nossas crenças e ideologias, faz-nos mais tolerantes e amorosos. A criação de universos ficcionais deveria ser uma disciplina obrigatória do ensino fundamental. Através dela seria possível conseguir a tolerância necessária a todos os seres que vivem em sociedade, isso ampliaria a aceitação das diferenças e minimizaria o malfadado “bullying”. Para mim a “Aurora Pós-humana” é também um sistema magístico que utilizo para a autotransformação rumo à minha integralidade.
HQforismo do Ciberpajé

4. No começo da sua carreira você publicava muito em revistas independentes, mas vi que recentemente lançou o livro "SketchBook Edgar Franco". Trabalhar com ilustração no mercado editorial (com livros) sempre te interessou ou foi uma coisa trazida com a maturidade artística?

A edição do SketchBook Edgar Franco foi um convite da Editora Criativo, de São Paulo, o que deixou-me muito honrado, pois a coleção reúne livros com artes de nomes icônicos do quadrinho e da ilustração brasileiras como Mozart Couto, Julio Shimamoto, Jayme Cortez, Gazy Andraus, entre outros. O livro apresenta mais de uma centena de ilustrações minhas criadas para os mais diversos fins, desde base para capas de CD até concepts para games. A coleção envolve edições bem elaboradas mais com tiragens reduzidas. No entanto, destaco que as minhas criações artísticas tanto no campo das ilustrações quanto em outras mídias e linguagens ainda seguem no território da arte alternativa! Nego-me a ceder minhas artes ou criar algo para qualquer finalidade comercial visando o lucro como fundamento. Sou avesso ao conceito de “mercado”, pois acho que vivemos uma era de obsolescência programada e hiperconsumo que está degradando o planeta e possivelmente será responsável pela extinção de nossa espécie, assim recuso-me a coadunar-me com a ideia de “mercado”, incluindo o editorial.


5. Como avalia o atual cenário da ilustração goiana?

Sou professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG – onde tenho a imensa alegria de lecionar ao lado da incrível Ciça Fittipaldi, uma das mais importantes ilustradoras do país e com quem tenho aprendido muito! Tenho participado de eventos voltados aos quadrinhos e à ilustração em Goiânia e região desde 2008, fico extasiado ao ver a qualidade dos nossos novos ilustradores. O acesso à informação – tão complicado antes da internet - permite que muito cedo os jovens ilustradores já dominem com desenvoltura as técnicas. Tenho muitos alunos e ex-alunos que são exímios desenhistas e alguns poucos que são artistas ilustradores, pois já conseguiram assimilar as técnicas, mas também colocarem o coração e alma em suas criações.
HQforismo do Ciberpajé

6. Qual a importância da formação na criação de uma cena cada vez mais acesa e representativa?

Na era da hiperinformação está cada vez mais difícil aprender a navegar nas teias infinitas do mundo do conhecimento. Muitos jovens perdem-se na superficialidade dessa era das pílulas de saber e não aprofundam-se naquilo que os tornará melhores como artistas. A dispersão e o entretenimento vazio sempre à mão impedem o foco e a capacidade de disciplinar-se. A universidade, apesar de suas grandes falhas, ainda é importante para auxiliar no processo de escolhas dentre os múltiplos caminhos expressivos possíveis, também é um bom local para estabelecer contatos e criar egrégoras com os seus semelhantes criativos.

HQforismo do Ciberpajé em versão pingente criada pela IV Sacerdotisa Danielle Barros

7. Qual a dica para quem está começando na área?

A primeira dica é investir no autoconhecimento! Investigar no interior de si mesmo aquilo de que você realmente gosta. E não importa o que você gosta, qual gênero, estilo de traço ou escola de ilustração. Seja absolutamente sincero consigo mesmo, eleja verdadeiramente aquilo que te apaixona como forma de expressão e mergulhe profundamente nesse universo criativo. Lembre-se que um bom artista nasce da assiduidade do ato criativo, portanto crie muito, da quantidade surge a qualidade. Não tenha medo de errar na hora de criar, erre, erre muito, pois é dos erros que vão aparecer os acertos. Também envolva-se em todas as formas de arte, e procure experimentar criar em outros suportes e para outras formas de expressão. Se você quer ser um bom ilustrador, para ser genuíno é necessário cultivar uma visão ampla de cultura, assim você vai criando novas conexões neuronais, e evitará produzir obras derivativas. Eis os pontos fundamentais: criar muito e disciplinadamente, tornar o ato criativo algo de seu cotidiano; ter a cabeça aberta para experimentar todas as artes como fruidor e criador; estudar bastante; e finalmente, não ouvir as críticas, a não ser de quem te ama de verdade. Importante destacar que essas são dicas para forjar um artista genuíno, e não um trabalhador submetido ao mercado ou coisas do gênero.
Arte de capa do Cabal#5, por Ciberpajé

8. Como artista transmídia você acredita que estar antenado ao digital e aos recursos multimídia é um pré-requisito para conseguir se destacar no mercado da ilustração hoje?

As novas ferramentas digitais abrem possibilidades expressivas incríveis, isso não significa que as linguagens tradicionais da arte foram superadas, só temos novos e belos territórios a serem explorados. Eu tenho criado HQtrônicas, HQGIForismos, HQforismos em 360 graus, entre outras criações que me permitem explorar os limites do digital e da interatividade, mas continuo a expressar-me nas linguagens tradicionais, sigo amando a bela sensação atávica do lápis sobre o papel depositando nele matéria. Mas é importante destacar que uma boa parte da produção contemporânea de ilustrações, HQ e do design estão contaminados pelas limitações dos softwares e de quem os usa, criando um sem número de obras sem identidade, pobres, que têm como única marca o programa digital em que foram realizadas. 90% das ilustrações que vejo por aí no tal “mercado editorial” são lixo dessa categoria desprezível. Por isso o artista que quer criar em suportes digitais precisa dominá-los para transcendê-los e não limitar-se às suas obviedades.


Capa do single "Sete Flechas" do musicista Alan Flexa, por Ciberpajé 


Capa do álbum em quadrinhos "Oráculos", do Ciberpajé
Arte do Ciberpajé

---------------------------------------------

*Edgar Franco é o Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP e mestre em multimeios pela UNICAMP. Como criador de histórias em quadrinhos é um dos pioneiros do gênero poético-filosófico no Brasil. Publicou suas HQs em revistas como Quadreca, Brazilian Heavy Metal, Nektar, Metal Pesado, Quark, Camiño di Rato, Mephisto (Alemanha), Dragon's Breath (Inglaterra), AH BD! (Romênia), Voo da Águia (Portugal), além de álbuns como Agartha, Transessência e Elegia, publicados pela editora Marca de Fantasia. Em 2009 recebeu o Troféu Bigorna, premiação nacional de quadrinhos, por sua revista "Artlectos e Pós-humanos #3, título também editado pela Marca de Fantasia. Em 2013 lançou pela Editora UFG o álbum"BioCyberDrama Saga", parceria com Mozart Couto, que concorreu ao Troféu HQmix, e teve segunda edição em capa dura lançada em 2016. Além de criador é também pesquisador de HQ com dezenas de artigos publicados e 2 livros de referência na área: "História em Quadrinhos e Arquitetura", com segunda edição publicada em 2012, e"HQtrônicas: do suporte papel à rede Internet", resultado de extensa e pioneira pesquisa a respeito de quadrinhos hipermidiáticos. Suas obras artísticas já foram motivo para pesquisadores escreverem dois livros acadêmicos analisando-as e muitos artigos de professores de várias universidades do país e exterior. Como artista transmídia teve sua tese de doutorado, "Perspectivas Pós-humanas nas Ciberartes", premiada no Rumos Itaú Cultural SP em 2003, e tem produzido trabalhos de web arte, HQtrônicas e instalações interativas. Também mantem o projeto musical performático Posthuman Tantra, com CDs lançados em 5 continentes e apresentações realizadas em 4 regiões do Brasil. Atualmente é professor Associado de Faculdade de Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás, onde também atua como professor permanente no Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual.