sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Ecos Humanos: Ciclos de Amor/Vida & Destruição/Morte, resenha de Julie Albuquerque


ECOS HUMANOS : 
Ciclos de Amor/Vida & Destruição/Morte

por Julie "Camila GLS Rock Zine" Albuquerque*



Preâmbulo

Sábado, 25 de Agosto de 2018. Acordo de madrugada. Faz frio e está chovendo. Isso me preocupa porque pretendo ir pra São Paulo. E como moro na zona rural, num sítio localizado a 25 km da cidade  - leia-se Ibiúna-City, interior de São Paulo-SP -, não me agrada ou anima o fato de eu ter que encarar 5 km a pé amassando barro numa estrada de terra pra pegar um ônibus com destino ao centro de minha cidade. :-\ Felizmente bem de manhã quando saio de casa já não está mais chovendo e a estrada não está tão enlameada quanto imaginei que estaria. Na verdade ela ficou lavada, isso sim. 

Julie na UGRA com seu zine Camila e o exemplar da revista Artlectos & Pós-humanos#1 que levou para o Ciberpajé autografar

Pego o busão pra Ibiúna-City, desço no meio do caminho (leia-se Furnas), e pego outro busão, desta vez um intermunicipal com destino a Cotia. No terminal Cotia pego um ônibus rodoviário até a Estação/Terminal Barra Funda - de onde pego o metrô e vou pra tudo quanto é canto de Sampa. E esse meu trajeto leva em média umas 4 horas. Sem contar que também tem um cu$to alto, principalmente para alguém como eu que não tem trabalho e nem salário fixos. Tanto que por conta disso, só vou pra Sampa poucas vezes e quando dá mesmo. :-( Desço na Estação República e vou até a famosa  Galeria do Rock - onde dou um passeio solitário apenas olhando pras lojas e seus produtos. Encontro um lugar tranquilo e sossegado pra me sentar no último andar - que tem menos movimento. Fico ouvindo música (mp3 no celular), enquanto espero dar a hora combinada para encontrar-me com a minha queridíssima Evy. ♥

Nas primeiras horas da tarde  - logo após eu ter de recusar um convite de duas garotas estudantes de alguma Faculdade, para eu participar de um documentário -, um pouco antes do combinado, a Evy já aparece pra minha surpresa. =^.^= Damos um passeio pela Galeria do Rock, tiramos as nossas primeiras selfies/fotos. Em seguida a Evy me leva pra um fastfood (Mcâncer Feliz), e como sou uma pessoa ovolactovegetariana, fico só nas batatinhas mesmo. ;-p

E como eu tirei o dia pra esse meu (primeiro) encontro (oficial/marcado) com a Evy, digo-lhe que farei e seguirei qualquer plano/roteiro ao qual ela desejar, pois pra mim o que realmente importa é estar junto a ela. ♥ A única coisa que peço a Evy, é que ela me acompanhe numa breve e rápida visitinha na loja UGRA do meu casal de amigos Dani & Douglas Utescher, no final da tarde. A UGRA é uma loja/livraria especializada em quadrinhos autorais/independentes/alternativos & contracultura, mas também com espaço para zines & fanzines, livros, box dvds de filmes & seriados de horror/terror & FC (Ficção Científica), camisetas. Ou seja, só tem coisas que gosto e aprecio e quero MUITO adquirir.  *~* Na UGRA tu não encontra coisas manjadas como o Super-Homem, Batman, X-Men, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Thor, Vingadores e similares pasteurizados & americanizados ou mangás modinha. E é esse o seu diferencial que tanto me atrai. U.U

Depois do fastfood (c/ direito a unicórniozinho de brinde com chifrinho que brilha pra coleção da Evy), ela e eu vamos pro metrô República, onde tiramos mais fotos/selfies com os emoticons gigantes (que também tinha alguns na Galeria do Rock), e de lá fomos até o metrô Consolação para chegarmos na UGRA, que está localizada na Rua Augusta, 1371, loja 116, Consolação, São Paulo-SP. E é sempre bom e maravilhoso ver o casal de amigos Dani & Douglas e visitar a loja deles. A Evy e eu temos uma ótima recepção de ambos na loja. ^-^

E o motivo de eu querer muito passar ali na UGRA não era à toa ou por acaso. Na UGRA, todo sábado tem algum lançamento e tarde de autógrafos, e eu já sabia através do fakebook, que um artista que acompanho já faz um tempo e admiro muito estaria ali presente. Trata-se do talentosíssimo multi-artista transmídia Ciberpajé (Edgar Franco). E neste dia em questão ele estava como roteirista e co-autor do álbum ECOS HUMANOS (2018, Editora Reverso), juntamente com o quadrinista Eder Santos.

Além de pobre, já que praticamente a Evy era quem tava me bancando nesse nosso encontro/rolêzinho em Sampa, eu também sou bem cara-de-pau. Tanto que tive a ousadia/audácia de dizer aos mencionados autores que não tinha grana pra comprar o álbum deles, mas que mesmo assim queria pelo menos um autógrafo do Ciberpajé numa publicação antiga e mais barata que eu já tinha dele. Pois tirando as HQ's curtas de sua autoria em algumas edições do fanzine "MULTIPLO" do André Carim, eu só tenho mesmo a revista independente ARTLECTOS E PÓS-HUMANOS # 1 de 2006, lançado pela SM Editora (que agora é a Editora Júpiter II) de José Salles.

Julie com a revista Artlectos & Pós-humanos#1 autografada pelo Ciberpajé

Ciberpajé, Eder Santos, e Guilherme Silveira, são mega agradáveis e super legais comigo e me tratam muito bem, mesmo eu não podendo comprar e adquirir o material deles. E o Ciberpajé aceita e topa de bom agrado autografar a revista dele que eu tinha. Distribuo pras pessoas presentes um (queer)zine de minha autoria, o CAMILA ZINE - EDIÇÃO ESPECIAL DE 10 ANOS!, incluindo os artistas/autores da mesa de autógrafos, que ironicamente pra minha surpresa me pedem pra que eu assine as cópias deles do meu (queer)zine.  0.0

Mas o mais foda é que o Ciberpajé se sensibiliza com a minha situação e minha admiração por suas várias vertentes multi-artísticas transmídia, como por exemplo a sua banda performática POSTHUMAN TANTRA, a qual menciono, e daí ele me surpreende mais uma vez e me presenteia com o magnífico álbum ECOS HUMANOS! E ainda com direito a autógrafo/dedicatória/sketch dos autores!!! =o Cara, isso foi fodaralho!!! Algo incrivelmente sensacional e que me deixou feliz pra k-7! A atenção, o respeito, a humildade e o gesto e atitude do Ciberpajé só fez aumentar minha admiração por sua pessoa! E conhecer pessoas assim é que é o verdadeiro presente que a vida e o universo pode nos proporcionar! *^-^*

O Ciberpajé e Eder Santos no lançamento de Ecos Humanos na Ugra (SP)

O Ciberpajé também distribui um microzine O Que São HQforismos?, feito por Danielle Barros (IV Sacerdotisa). E além deste microzine e do meu (queer)zine, também é distribuído entre as pessoas presentes ali na UGRA, um prólogo/amostra de um projeto/HQ (Histórias em Quadrinhos) intitulado Veludo dos 9 Infernos (com roteiro de Lula Carneiro & Bruno Brunelli - que também é responsável pelos desenhos. Baseado numa história real psicografada por Nivio Domingues). Algumas fotos da gente (Ciberpajé, Evy & eu) são tiradas.
O Ciberpajé e Julie Albuquerque no lançamento na Ugra(SP)

Resenhando Ecos Humanos 
(Contém Spoilers)

O álbum ECOS HUMANOS (2018, Editora Reverso) tem 72 páginas em P&B com papel de excelente qualidade, capa dura cartonada em cores com orelhas contendo uma auto-caricatura & minibiografia resumida de cada autor (Ciberpajé - roteiro & Eder Santos - desenhos), num formato grande e agradável. As artes em cores na capa e contracapa são belas e de extremo bom gosto. A HQ deste maravilhoso álbum está dividida em 4 partes ou capítulos, e como ela é uma narrativa gráfica/visual sem textos, recordatórios, balões de fala ou qualquer palavra, cada parte/capítulo em vez de ter um título escrito, tem uma ilustração no inconfundível traço do Ciberpajé. Devo confessar que até então não conhecia o talentosíssimo quadrinista Eder Santos, cuja sua arte em P&B me impressionou e fascinou bastante pelo seu rico traço cheio de detalhes e efeitos de luz & sombra, assim como o uso da técnica de hachuras, que somados dão vida e emoção ao seu majestoso trabalho gráfico. E como esta obra é em P&B, podemos observar e analisar com nitidez e clareza, o quão bom é o traço e arte do desenhista & quadrinista Eder Santos, já que não há cores ou efeitos de computadores para 'disfarçar' algum erro ou imperfeição sua.

Autógrafos dos autores no exemplar de Julie Albuquerque

E "sem palavras pro roteiro desta HQ muda" feita pelo já renomado e conceituadíssimo multi-artista transmídia, o Ciberpajé (Edgar Franco). E sim, este trocadilho foi infame, algo mais forte do que eu e que não pude evitar de fazer! XD Mas é justamente este o ponto mais alto e forte deste álbum, cujo o encanto e magia está no fato dele ser uma obra visual com narrativa muda, que por conta disso, pode ser apreciado e interpretado de acordo com a visão, análise e sentimento de cada leitor(a) em particular. Cada pessoa terá uma interpretação única, intimista e pessoal desta fabulosa arte/narrativa gráfica. E não é só isso apenas, ainda há o lance dessa espetacular obra não enfrentar obstáculos e barreiras culturais, já que por não possuir textos/palavras, nada o impede que qualquer pessoa de qualquer canto do mundo possa apreciá-lo e absorver o encanto/magia nele contido! O cinema perdeu este poder e encanto/magia quando passou a ser falado, assim como quando as músicas passaram a ter videoclipes. O encanto/magia está no fato de você poder sentir e interpretar determinada arte, seja ela o cinema, a música, os quadrinhos ou qualquer outra forma de expressão artística. Neste ponto e quesito, o roteirista Ciberpajé acertou em cheio a escolha de fazer uma obra muda, onde ele pôde colocar todo seu poder e influência transcendental xamânica, que foi absorvida pelo desenhista Eder Santos, ao consequentemente transpor isso para a sua arte - que por sua vez atingirá cada leitor(a) de um jeito mágico único e exclusivo, dependendo do nível de percepção que cada um possui!

Na primeira parte/capítulo da HQ começamos com uma visão do espaço para Gaia - a mãe-terra, e já podemos notar que ela já não é a mesma deste nosso atual tempo. E a partir daí temos um zoom que vai indo até algum ponto da América do Sul, que acaba se mostrando um pequeno oásis no meio de um deserto inóspito. Nesse pequeno oásis há apenas uma pequena fonte de água doce/potável e três árvores frutíferas. E ilhados neste oásis somos apresentados aos personagens principais desta HQ, que são dois seres humanoides totêmicos híbridos de humanos e lobos-guará. Ambos usam roupas sujas e rasgadas, porém apropriadas para se sobreviver no deserto, e também cada um está munido por seu cajado de madeira. O que distingue um do outro fora a aparente diferença de idade, é que o xamã jovem carrega no pescoço um estilingue, e o xamã velho além de usar brincos, também usa um colar rústico contendo quatro símbolos; o "$" representando o dinheiro/poder, uma "lua" talvez representando a bruxaria (Wicca) ou simplesmente as suas fases e efeitos na terra, a "Estrela de Davi" que tanto pode representar o judaísmo ou seu antigo significado pagão para o sagrado masculino & sagrado feminino, e por último uma "cruz" que representa o cristianismo ou catolicismo, mas que para mim representa/simboliza tortura-dor-sofrimento-morte. Esta primeira parte/capítulo serve como uma introdução e apresentação dos personagens, o cenário em que vivem e como vivem o seu dia a dia. Se alimentando dos frutos das árvores, saciando a sede bebendo da fonte, e se protegendo das tempestades de areia agarrados fortemente a uma das três árvores. O xamã jovem aparenta estar feliz e satisfeito com este estilo de vida simples, o que não é visto no xamã velho, pois fica nítido e óbvio a sua angústia/descontentamento/insatisfação/tristeza. E fica claramente visível nestas primeiras páginas desta HQ, que ela é ambientada num futuro pós-humano em um universo poético-ficcional criado pelo Ciberpajé já há alguns anos e que ele batizou de Aurora Pós-humana. E que a história desta HQ se passa bem depois da história contida no já clássico álbum BioCyberdrama Saga, parceria do Ciberpajé com o mais que renomado/conceituado/consagrado desenhista Mozart Couto! No final dessa parte/capítulo da HQ, o sério xamã velho mostra com os dedos de sua mão híbrida que faltam 9 alguma coisa. Seria 9 anos, meses, semanas, dias ou horas? E para o que acontecer??? O xamã jovem demonstra apreensão…

O Ciberpajé, Julie e Eder Santos no lançamento na Ugra

Na segunda parte/capítulo da HQ, aparentemente o xamã velho está adoecido e deitado sob o pé de uma das três árvores. Sentado próximo a ele está o xamã jovem que dá um grito de tristeza/raiva ao infinito por causa desta situação. Nisso, no céu surge um tucano que se dirige para uma das três árvores e começa a se alimentar dos frutos. O xamã jovem desperta e avisa o xamã velho do surgimento da ave. O xamã velho fica surpreso, mas já em seguida pede o estilingue do xamã jovem - que se recusa a entregá-lo, achando essa atitude de querer abater o tucano errada. Mas o teimoso xamã velho não está nem aí pra isso e tira contra a vontade do xamã jovem o seu estilingue. Pega uma pedra e abate o pobre coitado do tucano - que acaba virando uma refeição. O xamã velho oferece metade da carne do tucano para o xamã jovem - mas este se demonstra bravo/revoltado/indignado e se recusa a comer da carne do tucano abatido. Então sem cerimônia ou remorso, o xamã velho devora sozinho toda a carne do tucano, pois pelo visto, apenas o xamã jovem está satisfeito com sua dieta vegetariana... No outro dia, o xamã velho faz um colar com o bico do tucano e algumas de suas penas pretas e o oferece de presente pro xamã jovem - que o recusa de imediato e de mau humor. Daí também mal humorado, o xamã velho pega pra si mesmo o dito colar, passando a usá-lo sob o outro colar já descrito antes.

Passado um certo tempo e com a dieta vegetariana novamente, comendo apenas dos frutos das três árvores, eis que uma arara é avistada numa delas se alimentando. E pra decepção e frustração do xamã jovem, o mesmo destino do tucano é aplicado para a arara. Só que desta vez ele aceita comer a metade da carne da pobre ave abatida. Mas ele o faz chorando, cheio de pena e remorso de tal ato...Provavelmente alguns dias depois, vemos o xamã jovem angustiado e pensativo, sentado sob o pé de uma das três árvores, e nos surpreendendo mais uma vez, já que está usando um colar feito com o bico da arara e algumas de suas verdes penas. Nisso, enquanto passa um vento derrubando algumas folhas das três árvores, logo atrás da árvore ao qual o xamã jovem está encostado, de pé e com o cajado na mão esquerda, o xamã velho velho avista um ser humanoide no deserto vindo na direção deles. O xamã velho avisa o mais jovem apontando com o dedo da mão híbrida direita na direção do ser humanoide ao qual avistou. Tanto o xamã jovem quanto o mais velho ficam surpresos pela criatura humanoide ser uma híbrido de uma mulher com uma onça pintada. Trajando poucas vestes e com os seios expostos, a mulher-onça tem um olhar de súplica, mostrando nele e nos trejeitos um ar de desespero e de quem precisa de alguma ajuda, e sem demonstrar nenhum tipo de maldade, falsidade ou ameaça. A mulher-onça fica com a mão e braço direito estendidos na direção dos dois companheiros xamãs, esperando por uma ajuda e/ou resposta deles. Mas ambos os xamãs se entreolham com cara de dúvida de como devem proceder a tal súplica. E eis que repentinamente, do nada, o xamã velho ataca a mulher-onça com o seu cajado, perfurando em meio ao seu peito e a atravessando nas costas. A mulher-onça morre nos braços do xamã velho - que em seguida deita o seu corpo no chão gramado próximo da fonte. O xamã jovem se aproxima e se agacha próximo do corpo ensanguentado da desfalecida mulher-onça. Põe as duas mãos na cabeça e grita desesperado lamentando profundamente a morte da mulher-onça, enquanto  o xamã velho fica calado apenas observando. No fim das contas, a mulher-onça acabou também virando apenas mais um banquete para os dois xamãs exilados neste pequeno oásis em meio ao deserto inóspito...

Na terceira parte/capítulo da HQ, vemos os dois xamãs com cara de desânimo. Eles se entreolham, uivam pro céu, se entreolham de novo, mas desta vez com ambos sorrindo - provavelmente em gratidão a uma das três árvores que ainda está com frutos para alimentá-los e saciar sua fome. Só que em determinado momento, o xamã jovem avista os primeiros sinais de uma forte tempestade de areia que se aproxima. Seu olhar é pura apreensão e preocupação. Apontando para o horizonte, ele grita alertando o xamã mais velho do perigo iminente, e depois corre na sua direção. Os dois xamãs tentam se proteger da forte tempestade de areia da melhor maneira que podem agarrados a uma das três árvores. Desta vez os danos são irreversíveis. As folhagens e os frutos das três árvores são arrancadas pelo forte vento da impiedosa tempestade de areia, assim como os colares do tucano e da arara e também o cajado do xamã mais velho, que são perdidos para sempre. Sobrevivendo à tempestade, os dois xamãs agora observam apenas três árvores secas e sem nenhum fruto para lhes saciar a fome. Só restou-lhes mesmo a pequena fonte de água doce - na qual o xamã jovem sacia sua sede e carrega nas mãos um pouco d'água pro velho xamã, que está doente/fraco/abatido. Encostado numa das agora três árvores secas, o xamã velho apenas recebe e bebe um pouco d'água que o seu companheiro mais jovem lhe traz nas mãos. E mesmo abatido, o xamã velho orienta o xamã jovem a regar (assim do mesmo jeito com as mãos) as três árvores secas, para que elas voltem logo a dar mais frutos. O xamã velho sabe que está morrendo e não esconde isso em seu olhar desalentado enquanto dirige suas últimas palavras e/ou ensinamentos ao seu pupilo, o xamã jovem. Pouco depois, o xamã velho fica imóvel e em silêncio. O xamã jovem sacode o seu mestre e companheiro mais velho tentando acordá-lo ou fazê-lo reagir de algum modo. Mas essa sua atitude é em vão. O xamã velho está morto. Uma tristeza forte, profunda e aguda recai sobre o xamã jovem, que em pura angústia, penosamente lamenta e chora pela morte e perda de seu mentor e único companheiro que tinha no confinado isolamento do mundo naquele pequeno oásis. E como recordação ou um tipo de herança, o xamã jovem se apossa do colar do xamã velho, aquele com quatro símbolos (cruz, estrela de Davi, lua, cifrão). O xamã jovem senta-se do lado do corpo do xamã velho - deitando-o sob seu colo. E assim desse modo, se sentindo totalmente só e com os sentimentos mais tristes possíveis, o xamã jovem se despede do xamã velho, olhando para o seu corpo morto/desfalecido deitado em seu colo.

Algum tempo depois, já de noite e com uma lua cheia, vemos o xamã jovem se alimentando com a carne da parte do lado esquerdo do rosto do cadáver do xamã velho. E ele faz isso com lágrimas nos olhos. Repudiando a si mesmo e esse ato hediondo de canibalismo. Mas ele só o faz porque tem consciência de que essa é infelizmente a única maneira possível dele resistir e continuar vivo, já que não há mais frutos nas três árvores que agora estão secas... (Nota: Nos dois closes do rosto do cadáver do xamã velho, vemos que é a parte direita dele que está sendo devorada, mas no plano maior e mais aberto vemos o oposto. Ou seja, um pequeno erro de continuidade apenas, e que não interfere drasticamente ou descaracteriza de modo algum a obra.).

Na quarta e última parte/capítulo desta HQ, logo de cara vemos que do xamã velho só restaram os seus ossos, e que consequentemente já se passou um bom tempo desde os ocorridos da parte/capítulo anterior. Angustiado. Triste. Pensativo e reflexivo. Vemos o xamã jovem  - recostado e sentado sob uma das agora três árvores secas - observando o crânio do xamã velho que ele segura em sua mão direita. Ele continua a beber e saciar sua sede na pequena fonte d'água, e também continua regando com as próprias mãos, as três árvores secas. E no final de mais um entardecer, o xamã jovem observa o pôr-do-sol com uma cara totalmente triste e desolada. E com total desânimo e sem nenhuma esperança de sobreviver por muito tempo - já que agora não há nada mesmo com o que possa se alimentar e saciar a sua fome -, ele adormece deitado sob o pé de uma das três árvores secas, segurando para si com a mão direita, o crânio do seu amigo, mentor e ainda companheiro de certa forma, o xamã velho.

No dia seguinte, o xamã jovem acorda e a primeira coisa que ele avista são os cogumelos que brotaram aos pés das árvores secas, exceto a na qual dormiu bem próximo. Ele pega um punhado de cogumelos, cheira-os e sem pensar muito, e também por falta de opção melhor, faz o seu desjejum comendo-os. Após comer uma boa quantidade de cogumelos, o xamã jovem passa a se sentir mal com uma tontura e dor de cabeça. Ele se senta e recosta-se numa das três árvores secas e fica totalmente brisado, passando a ter alucinações. As três árvores secas, assim como toda paisagem e cenário ganham formas psicodélicas. E a primeira brisa/alucinação é que o colar com os quatro símbolos ficou espinhoso. Daí ele o retira rapidamente de seu pescoço e o joga ao chão. O colar se transforma numa cobra - que enfia sua cabeça no chão, abrindo um buraco na terra e desaparecendo nela. Depois disso, no céu surge um bando de araras - em cujo pés carregam algum tipo de fruto que jogam para o xamã jovem, que se alimenta deles caindo diretamente em sua boca. Em seguida, o xamã jovem fica com uma cara animada e contente após avistar uma mulher-onça  - parecida com aquela que ele viu da outra vez -, que vem caminhando em sua direção. Ao se aproximar do xamã jovem, vemos que a mulher-onça está carregando nos braços um bebê-filhote - que está sendo amamentando pelo seu seio esquerdo. A mulher-onça oferece o seu seio direito ao jovem xamã - que respeitosamente aceita e bebe de seu leite. O xamã jovem fica contente e sorri feliz com direito a carinho/cafuné em sua cabeça pela mão direita da mulher-onça - que também lhe retribui com um sorriso mais discreto. Depois disso, a mulher-onça e o seu bebê-filhote se transformam em suas formas animais. Ela ruge de forma ameaçadora, e em seguida encara o xamã jovem, enquanto que o filhote apenas fica observando. O xamã jovem não demonstra medo e nem reage, mostrando uma cara serena e tranquila. Então nisso, a agora onça e seu filhote saem correndo. Mas antes de desaparecer correndo pelo deserto, ela dá uma última olhada para trás para o jovem xamã - que fica apenas observando e demonstrando uma paz de espírito dentro de si. Mas repentinamente algo chama à atenção do xamã jovem - que fica assustado/apavorado/desesperado com a imagem das três árvores secas que começam a derreter e se diluir no chão. Ele até tenta em vão segurar com as mãos uma delas, porém tal ato é inútil. Derrotado, o xamã jovem fica sentado no chão ao lado do crânio do xamã velho e expressando aquela cara e olhar de desolação. Então ele pega o crânio do xamã velho e em seguida já leva um baita susto, pois do chão surge/emerge um tucano que vai pra cima dele e lhe rouba o crânio, para depois sumir no céu do horizonte com o artefato mórbido roubado. O xamã jovem apenas grita desesperado pela sua nova perda e depois fica só olhando até o tucano desaparecer de vista. Então ele fecha os olhos e adormece...

Quando o xamã jovem desperta, já não está mais sob os efeitos alucinógenos derivados do consumo dos cogumelos que comeu. Ele percebe que continua no mesmo lugar, sentado e recostado numa das três árvores secas e segurando com a mão direita o crânio do xamã velho. E ainda assustado com as brisas/alucinações que acabou de ter, ele arremessa longe o crânio que se estilhaça em várias partes ao cair/bater no chão. Daí ele também percebe que ainda está com aquele colar com os quatro símbolos - que ele também arremessa ao longe, pois agora ele o repudia com uma intensidade imensa, apenas mantendo o estilingue em seu pescoço como era antes. Ele se levanta e começa a caminhar em direção ao deserto inóspito de forma determinada e abandona o pequeno oásis onde permaneceu por muito tempo até o atual momento. E após caminhar bastante pelo deserto inóspito, o xamã jovem para de forma repentina ao ficar chocado com alguma visão perturbadora. Ao ponto dele gritar em total desespero e com lágrimas escorrendo por seu rosto. E após desabafar com seu grito desesperador, ele continua a chorar, dá mais alguns passos adiante e para bem próximo de um alto abismo. E deste lugar (com uma bela borboleta voando próximo), o xamã jovem tem a infelicidade de contemplar uma paisagem desoladora - ao qual também se vê o que sobrou da imensa estátua de um 'Cristo Redentor'...

E assim termina essa fantástica e sensacional HQ, concebida magistralmente pelo roteiro espetacular do Ciberpajé e fabulosa arte de Eder Santos. O final revelador e impactante me remete há uma inevitável comparação com o mega cult do cinema de FC, o sensacional filme O Planeta dos Macacos (1968). Claro que esta é uma visão e interpretação muito pessoal de minha parte desta magnífica obra. Outras pessoas que se depararem com esta obra terão os seus próprios sentimentos, visões e interpretações pessoais diferentes das que descrevi. E é assim que ela deve ser! Uma ato mágico, único e exclusivo para cada um que tiver acesso a esta maravilhosa HQ!

O álbum ECOS HUMANOS também traz como extras um posfácio escrito por Rubens César Baquião, e um making of com estudos e layouts. Em suma, um álbum mais do que recomendadíssimo! Principalmente por duas escolhas certeiras fundamentais/essenciais que o Ciberpajé fez. A primeira foi a escolha da HQ ser muda. Já a segunda foi a escolha do desenhista Eder Santos para fazer a arte em cima de seu roteiro. O Ciberpajé podia muito bem ter feito/produzido/concebido este álbum sozinho, já que ele é um artista transmídia competente e de sucesso, além de ser um renomado e conceituado quadrinista, dono de um traço/estilo único e inconfundível. Ele também é um dos pioneiros do gênero quadrinhos poéticos-filosóficos, que é genuinamente um estilo 100% brasileiro/nacional de se produzir HQ's. E mesmo assim, com todo esse currículo e gabarito, ele preferiu ficar só no roteiro, como em alguns outros projetos e parcerias. Parabéns ao Ciberpajé por sua humildade (tanto profissional como pessoal), e por suas sábias e sensatas escolhas, que só enriquecem os seus trabalhos/projetos artísticos, presenteando da melhor forma possível os seus fãs e admiradores com obras mágicas/únicas/sensacionais, como este maravilhoso álbum ECOS HUMANOS!

Epílogo

Depois da UGRA, a Evy eu vamos pro metrô novamente com destino a 'Liba' (Liberdade - famoso bairro oriental de São Paulo-SP). Na Liba, logo de cara nos deparamos com uns amigos da Evy (incluindo um ex-namoradinho dela. rs), da mesma cidade em que ela mora (leia-se Suzano-SP), e que geralmente não costumam colar (com frequência) ali na Liba. A Evy se surpreende por eles estarem ali, e eles se surpreendem quase não reconhecendo a Evy, pois não estão habituados a verem ela com maquiagem e roupa gótica. XD Além deles a Evy e eu vemos outras amizades nossas, algumas dela, algumas minhas, e outras tantas em comum. Do nada vem uma garota baixinha (e nitidamente alterada), contente por me ver e já querendo me agarrar e tal. Não faço a mínima ideia de quem seja. E antes dela grudar em mim, uma amiga mais sóbria e sensata dela a agarra e a desvia de mim. Pois ela sacou que a Evy estava comigo e tal.  ;-p A Evy fica comigo pela segunda vez, e a gente se curti e beija muito mais do que na primeira vez em que ficamos duas semanas atrás (sáb, 11/Ago/2018). :3

Já de noite, a Evy me leva pra um mercado próximo para comprar alguma coisa pra gente. Na entrada do mercado vemos um senhor morador de rua com seu gat@ branc@ (?). A Evy compra pra gente uma bandejinha com bolo de chocolate e dois achocolatados na caixinha. Já pro senhor morador de rua, ela compra pães e um pacote de açúcar que ele humildemente nos pediu. Com uma conversa animada e intercalada com muitos beijos é a melhor maneira que a Evy e eu encontramos de curtir o nosso rolêzinho na Liba. * :-*

O tempo passa rápido. E infelizmente chega a hora de ir embora. Noto que a Evy fica um pouco estranha... distante... pensativa... E sei que é por causa dos seus amigos também de Suzano e que vão embora junto com ela. Mas o real e exato motivo já não posso dizer qual é. Não comento ou pergunto nada a respeito. Sei que ela deve ter os seus motivos. E respeito isso. Sendo compreensível à minha maneira com ela nesse momento em que identifico essa estranheza sutil partindo dela. No metrô Sé, ainda dentro do trem, me despeço rapidamente da Evy e saio sozinho para a plataforma da estação, deixando pra trás ela e os amigos. Não gosto muito disso. A despedida da primeira vez em que fiquei com a Evy tinha sido melhor… Não nego que após um dia maravilhoso junto da Evy, esses últimos acontecimentos me chatearam um pouco, além de me preocupar muito com ela por não saber ao certo o porque exatamente dela ter ficado diferente e tal. Mas foda-se! Não importa! Não será isso ou qualquer coisa que irá estragar esse meu maravilhoso dia! O meu dia junto da Evy!!! ♥

Desço no metrô Faria Lima. Pego um busão pra Cotia. Faço amizade com um casal no busão. A conversa é praticamente quase só sobre bandas pós-punks dos anos 80. rs. Quase perco o último busão pra Ibiúna-Cityo. No busão noto que perdi o meu fone de ouvido. ~T_T~ Isso me aborrece porque tenho a intenção de ir embora ouvindo música/mp3 quando for ter de caminhar solitariamente madrugada adentro. E principalmente porque pretendia ouvir a mensagem de voz que a Evy deixou gravada no meu celular (ela fez isso na Liba enquanto me afastei dela pra não estragar a surpresa de só saber como era quando estivesse indo embora. rs. *^_^*). Desço em Furnas e encaro os 12 km que tenho de percorrer a pé. Já no começo da madrugada de domingo (26/Ago/2018), e após caminhar alguns quilômetros, pego uma carona com a Fran (Francieli Maciel) e o seu namorido. A Fran é uma amiga mais do que especial e que marcou profundamente a minha vida devido há um acontecimento e experiência pessoal envolvendo a gente em meados de 2008. Algo que não é agradável de se recordar, mas que nos uniu/conectou e fez brotar uma amizade e respeito de ambas as partes. Mas isso é uma outra e longa história... A Fran e o seu namorido me deixam na entrada do sítio onde moro, me poupando alguns quilômetros/horas. rs. Agradeço ao universo pelo maravilhoso e incrível dia que ele acabou de me proporcionar, cheio de conquistas, vitórias e presentes. Pelas maravilhosas pessoas que conheci ou revi. E por ter colocado a Evy na minha vida. ♥

E após um dia cheio de ganhos em todos os sentidos, chego a conclusão de que os ciclos de amor/vida & destruição/morte que regem o álbum ECOS HUMANOS, não são apenas algo ficcional, pois realmente estão presentes em tudo e todos. Sempre estiveram, estão e estarão presentes em nossas vidas. Desde o nosso nascimento, até a nossa morte. Ciclos da natureza e mãe-terra que sempre existiram desde os primórdios e início de todo o universo. Desde tempos imemoriais e ancestrais. Os ciclos de amor/vida & destruição/morte compõem o cosmos do qual todos fazemos parte e que não há como se evitar...

*Julie "Camila GLS Rock Zine" Albuquerque é quadrinhista e ativista underground

Saiba mais sobre Ecos Humanos e adquira um exemplar clicando na imagem da capa abaixo:





Nenhum comentário:

Postar um comentário